sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Natal venal

Adriano de Paula Rabelo


Aí está mais um Natal, esta epifania dos vendedores. Todo ano é a mesma coisa: tudo se mede pelo metro do aumento de produção, do volume de vendas, do percentual de superação das marcas do ano anterior, das multidões que abarrotam a rua 25 de Março, no centro de São Paulo, em busca de quinquilharias. É tempo de promoções, crédito, descontos, prêmios, uso do décimo terceiro salário, facilidades de pagamento – essas musas do chamado marketing “agressivo”. Os shopping centers, essas catedrais da classe mediana, fervem.

Por todo lado, no verão tropical, a estapafúrdia figura de um velho finlandês em trajes de inverno anacrônicos inclusive em seu próprio país, transportado por trenó e renas, expectorando uma risada bobalhona. E como complemento a decoração de um kitsch miserável, agora toda fabricada por semi-escravos nos cafundós da China: cordas de luzinhas coloridas, imitações de árvores aparentemente originárias da Floresta Negra, dos Alpes ou talvez da Taiga Siberiana onde se penduram bolas coloridas e uma estrela aberrante, guirlandas de galhos ressecados ou flores igualmente fakes pelas portas, sininhos de plástico ou delineados pelas ruas em gás néon. E para arrematar, as musiquinhas irrespiráveis, os cartões horrorosos, as mensagens-clichês.


Uma história distante


Na noite de Natal propriamente, os perus e os leitões assados, a glutonaria e a bebedeira, o amigo oculto simulando harmonia e união entre parentes que se detestam. E as crianças, aprendizes precoces do credo consumista, ávidas por receberem sua presentalhada desvinculada de qualquer atitude criativa, de qualquer valoração afetiva. No fim dessa noite infeliz, quando ela é atravessada sem bate-bocas, choro, ameaças, sentimentalismos constrangedores e outras inconveniências, advém o vazio existencial daquilo que as mercadorias e a pose pseudofeliz jamais poderão preencher: o verdadeiro encontro entre as pessoas, que não tem data marcada no calendário. E no dia seguinte todos retomam seus azedumes e violências, cultivam sua santa reclamação da insegurança e da desagregação social, rugem contra seu trabalho e exalam sua insatisfação com o país, com a vida.

Que relação haverá entre essa baboseira toda e a história de um longínquo menino pobre, filho de pais marginalizados que há vinte séculos fugiram do Egito, a fim de ele não fosse degolado? Um menino que acabou nascendo pelo caminho, num estábulo qualquer, tendo por berço a manjedoura onde comiam vacas e cavalos! Um menino saudado logo depois por três Reis Magos que lhe trouxeram presentes muito especiais, tal como convém a um Deus!

O frenesi consumista, o convencionalismo sazonal, o cenário norte-europeu de mau teatro amador, o esvaziamento da lenda de São Nicolau, a desova da indústria de brinquedos e os transbordamentos de fim de ano em meio à contida segurança pequeno-burguesa reatualizam em tudo, a cada ano, a anti-história do menino-deus. Onde se encontram – nessa agitada pasmaceira, nesse alegre desespero – qualquer esboço de redenção e salvação? Que sentido terá esse recomeço do mesmo?

12 comentários:

Silvia Regina de Oliveira, Divinópolis, MG disse...

Nem o Natal escapa de seus ataques. Mas Jesus um dia entrará em sua vida... Saiba disso.

Fernando P. Ramos, Santo André, São Paulo disse...

O que é que vc sugere, que a gente coloque o Saci para dar presentes às criancinhas? Quer matar os meninos de medo? Ou nem sequer comemorar o Natal? Seu anarquista.

Marília de Abreu, Brasília disse...

Muito bem Adriano! Nesta época de tanto consumismo e mediocridade, vc é uma das poucas vozes a criticar essa geléia geral.

Elisabeth Moreira, Goiânia disse...

Que falta de espírito natalino! Seja feliz e que o papai Noel te traga muitos presentes (e fale Ho-ho-ho! no seu ouvido).

Juliene Silva, Vila Velha, ES disse...

Adorei. Esse natal do consumidor nada tem a ver realmetne com a história do nascimento de Cristo. Raramente se vê alguém analisar isso com a sua lucidez e coragem.

Francisco Ibiza, Presidente Prudente, SP disse...

O que você escreve é a mais pura realidade. Essa forma de vivenciar o Natal não tem nada a ver com o sentimento e a religiosidade cristã. Isso é uma comemoração do comércio e dos egoísmos individuais.

Vera de Almeida Santos, Contagem, MG disse...

Ao menos no natal vc deveria ser menos crítico e mais confraternizante.

Rita de Cássia Guimarães, Niterói, RJ disse...

Bravo. O brasileiro valoriza e assimila demais essas baboseiras comerciais estrangeiras. Esse Papai Noel não tem nada a ver conosco. Tenho uma imensa antipatia desse velhote sem vergonha.

Márcio da Silva Garcia, Juiz de Fora, MG disse...

Cara, vc arrasou.

Ivanete Linhares, São João de Meriti, RJ disse...

Estou de acordo com o que você diz, mas acho que não é hora de dizer essas coisas assim tão perto do natal.

Anônimo disse...

Ler essas coisas na véspera do Natal quebra o encanto da gente. Seu chato de galochas!

Sílvia Batella, Belo Horizonte, MG disse...

Tem cada maluco que deixa comentário sobre seus textos, Adriano! Sua crítica é precisa e necessária. É preciso repensar tudo nessa vida plena de convenções e de fazer o que a televisão e o comércio mandam. Tenho um feliz natal e ótimo 2008. Vida longa ao seu blog.