sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

3° pelotão

Toda tropa é uma corja.

Garrincha na cara do mundo

Adriano de Paula Rabelo


“Feliz do povo que pode esfregar um Garrincha na cara do mundo!”. Assim escreveu Nelson Rodrigues numa crônica logo após a semifinal da Copa do Mundo de 1962, em que o grande jogador realizou uma de suas maravilhosas exibições. Já escrevi aqui sobre Garrincha como expressão da brasilidade profunda, como encarnação do anti-herói torto que povoa os nossos arquétipos: aquele que, em vez da força e dos poderes físicos superiores, utiliza-se da malícia e da sagacidade para superar obstáculos, muitas vezes transformando suas próprias deficiências físicas em qualidades especiais. Isso não somente por suas pernas tortas – uma bem mais curta que a outra – e a bacia deslocada, a pequena estatura de quem cresceu mal alimentado nos grotões do interior do Brasil, os olhos ligeiramente estrábicos, o corpo cheinho de quem só veio a fazer ginástica pela primeira vez já próximo dos vinte anos. Sua forma de jogar também contrariava todos os princípios do esporte, subvertia todas as táticas, porém alcançando os melhores resultados.

Seu biógrafo Ruy Castro conta que, num amistoso do Botafogo na França, em 1955, faltando cerca de cinco minutos para o fim da partida e com o time carioca aplicando uma goleada, o técnico pediu para que os jogadores prendessem a bola e se poupassem. Eis a descrição do que então se passou: [Garrincha] “Começou a driblar sem soltar a bola para ninguém, a enfiá-la entre as pernas dos beques e a fazê-los trombar uns nos outros, como se estivesse nas peladas de Pau Grande [sua cidade natal]. Ficou tantos minutos com a bola que os adversários já não se atreviam a ir tentar tomá-la. O estádio inteiro levantou-se para aplaudir. (...) Garrincha então partia para cima deles e, às vezes, voltava para driblar em direção ao gol do próprio Botafogo. O jogo terminou com a bola aos seus pés.”

Na final do Campeonato Carioca de 1957, já no começo do segundo tempo, com o Botafogo goleando o Fluminense por 4x1, Telê Santana pediu a Didi, entregando os pontos: “Vocês já são campeões. Diga ao Garrincha para parar de desmoralizar o Clóvis e o Altair. Vamos ficar por aqui.”

Era comum que laterais adversários se aproximassem dele antes do jogo e implorassem: “Mané, quebra meu galho. Estou pra me casar e meu contrato está no fim. Vê se não judia muito de mim, senão eu fico mal.”

Na biografia de Castro há uma foto de um jogo entre Brasil x México pela Copa de 1962, em que Garrincha, com a bola nos pés, está cercado por nada menos que oito adversários – alguns já caídos – que tentam em vão tirá-la.


Garrincha driblando oito de uma vez


Foi esse jogador com nome de passarinho que, nos anos 1950 e 60, passou a ser conhecido como “alegria do povo”. Como um Carlitos de Chaplin, ele conseguiu, com sua arte, suavizar os graves problemas enfrentados pela grande maioria de pobres em nosso país, fazendo com que eles pudessem sonhar com a possibilidade de as coisas serem diferentes. Sobre isso escreveu Carlos Drummond de Andrade numa crônica por ocasião da morte do excepcional futebolista: “Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.”

Por outro lado, um país que produziu um Aleijadinho, um Machado de Assis, um Santos Dumont e um Garrincha – essas figuras que se tornaram gloriosas a despeito de ou por causa de suas faltas – já deveria ter superado os seus complexos nacionais. Talvez o povo já tenha feito isso. Nossa casta dominante é que – viúva da chic Paris, separada da snob Londres, distante da cosmopolitan Nova York –, encharcada de provincianismo, prossegue cada vez mais vira-lata.

Mas voltando a Garrincha, como todos sabem, ele teve um triste fim, encerrando a carreira bem cedo por causa de médicos inescrupulosos que lhe aplicavam anestésicos nos joelhos machucados, a fim de que o Botafogo pudesse cumprir contratos em excursões pelo exterior e também para que ele pudesse jogar partidas importantes. Após abandonar o futebol profissional, perdendo seus referenciais, Garrincha se entregou ao alcoolismo, que já vinha de longa data, e passou a ser destruído lentamente. Até que a morte o colheu, praticamente na indigência, no início de 1983. O templo no qual foi velado não poderia ser outro: o estádio do Maracanã, palco maior de seus espetáculos.

Nasci pouco depois do encerramento da carreira profissional de Garrincha. Mas tive a felicidade e a frustração de vê-lo jogar. É que, no final dos anos 1970, ele percorria o Brasil com um time de exibição. Houve uma ocasião em que esse time foi parar em Divinópolis, minha cidade natal, para um amistoso contra o Guarani local. Eu devia ter uns oito ou nove anos, e meu pai me levou para ver o gênio. Garrincha estava gordo, lento, com péssimo condicionamento físico e mau de saúde, já esmagado pelo álcool. Mal conseguia dar uma arrancada de dez metros. Uma turma de peladeiros completava a paisagem na sua equipe. Nosso Guarani não somente venceu a partida como por vários anos tivemos de agüentar Coca, o lateral esquerdo divinopolitano, jactando-se de que marcou Garrincha e não o deixou fazer nada em campo! Retrucávamos que, naquelas condições, até nossas bisavós, até os cones de treinamento marcariam Garrincha, e ele não faria nada em campo... De todo modo, terminado o jogo, a meninada e seus pais entraram no gramado para tirar fotos com o ídolo. Eu e meu pai tiramos uma abraçados com ele, um de cada lado, sorridentes. Como lamento hoje que essa foto haja se perdido entre os desorganizados álbuns e sacos de fotografias deixados por meu pai, que também já não está entre nós!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Pescoção

A gravata é uma forca lenta.

O desfocamento do estrangeirismo

Adriano de Paula Rabelo


No último dia 12 de dezembro, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou o projeto de lei do deputado Aldo Rebelo que visa “proteger” e “defender” a “língua portuguesa”. Apresentado em 1999, somente neste ano o projeto, que já foi aprovado no Senado, vai para a última votação no plenário, devendo entrar em vigor em breve. Ironicamente o texto de Rebelo baseia-se em duas leis estrangeiras, sancionadas na França nos anos de 1975 e 1994, cuja pretensão era proteger a latinidade da língua.

Nestes quase dez anos de tramitação do projeto do deputado alagoano, uma acirrada polêmica tem sido travada entre lingüistas e um variado contingente de pessoas que acreditam que a proteção da língua nacional corresponde à salvaguarda de nossa soberania. Os cientistas da linguagem em geral atacam toda tentativa de se legislar sobre o idioma, pois ele é uma entidade viva, que se modifica constantemente e, como parte desse processo, entra em contato com outras línguas, assimilando vocábulos e expressões que o enriquecem expressivamente. Para eles, o estrangeirismo excessivo e sem respaldo no espírito do idioma nacional não passará de um modismo e será descartado naturalmente. Já os paladinos da nossa soberania e da pureza de nossa língua consideram – não sem razão – que há um emprego excessivo de estrangeirismos no Brasil, que eles exprimem em geral um precário domínio da variante chamada “culta” do idioma e freqüentemente se compõem de termos apenas pescados no dicionário de inglês; duas faces, portanto, da ignorância. Além disso, o emprego de termos na língua de George Bush, além de representar subserviência ao imperialismo, tem também um aspecto classista, pois todos sabemos que, por exemplo, teen não é qualquer adolescente, mas aquele de classe média para cima, que reside em área urbana, rato de shopping centers e lan houses, estudante de escolas particulares e beneficiário de mesadas dos pais. Por isso, em nome de nossos valores mais caros e do politicamente correto, o legislativo deveria intervir para expulsar esses corpos estranhos do organismo da língua.

Certamente a lei Aldo Rebelo será mais uma dessas que já nascem mortas neste país da ilegalidade triunfante. Sem dúvida a língua brasileira seguirá seu curso histórico para muito além da lei dos homens, gerando ela mesma suas próprias normas. Entretanto, o projeto do deputado do PCdoB tem tido no mínimo a virtude de provocar um amplo debate sobre um tema que obviamente merece ser discutido. Acontece que a discussão, tal como tem se realizado, me parece bastante fora de foco.


Uma língua e muitas contribuições


A língua brasileira, mesmo em suas vertentes mais castiças, constitui, sobre a base latina e lusitana, um amálgama de contribuições de línguas indígenas e africanas, do grego antigo, do francês, do espanhol, do árabe e, em graus menores, de outras línguas. Com os muitos contatos culturais proporcionados pelos meios de comunicação e de transporte atuais, nenhuma língua viva está isenta da incorporação de estrangeirismos. Esse fenômeno, quando assimilado com naturalidade para suprir uma falta, nomear uma nova realidade ou simplesmente pelo uso generalizado, aprimora a língua e lhe proporciona novas expressividades. Por outro lado, sempre foi uma das mais evidentes manifestações do imperialismo a imposição da cultura metropolitana. Quase todos os idiomas contemporâneos naturalmente sofrem influências da língua inglesa devido ao fato de os Estados Unidos serem não apenas a sede mas os comandantes e os grandes beneficiários da chamada “globalização”, controlando todo um vasto sistema midiático de massas do qual sua música popular, seu cinema, suas agências noticiosas e, hoje em dia, seus canais de tv a cabo são as principais expressões. Inevitavelmente, com quase um século de preponderância e rapinagem americana no mundo, com as conquistas tecnológicas originárias daquele país, com o triunfo do estilo de vida americano em todo o Ocidente, a língua brasileira não haveria de ficar isenta de anglicismos. Até aí tudo bem. O questionável abuso de termos ingleses entre nós, no entanto, ponto nodal da polêmica ora travada, se é que merece a celeuma que tem provocado, deveria remeter a uma discussão bem mais profunda e anterior à questão da linguagem. O teor da lei Aldo Rebelo e das discussões geradas por ela corresponde a combater um sintoma dos mais evidentes e deixar a doença intocada.

Necessitamos de um debate mais amplo sobre nossa ultravalorização do estrangeiro prestigioso, em especial do anglo-saxão, quase sempre acompanhada de autodepreciação. Antes da sobra de palavras inglesas em nossa língua, estabeleceu-se entre nós uma sobra do modo de vida americano, assimilada acriticamente por nossa casta dominante logo após a decadência francesa e a ascensão dos Estados Unidos, que assumiram a condição de paradigma de modernidade e qualidade de vida aos olhos colonizados de nossa elite. A partir dela, atingiu-se a massificação e o senso comum. Continuamos colonizados e seguiremos colonizados enquanto o país estiver à mercê dessa oligarquia espertalhona que nunca foi apeada de quase todas as instâncias de poder e cuja última grande jogada foi transformar Lula em feitor do horror econômico de fundamento especulativo. O Brasil oficial nunca foi o que realmente é, tal como o Brasil dos grandes meios de informação do eixo Rio-São Paulo. Só o será quando a democracia efetiva – que jamais existiu no país – se realizar através de uma ampla conquista dos mais básicos direitos da cidadania para todos e os espaços decisórios estiverem de fato abertos à participação direta do eleitorado. Obviamente um sistema público educação de boa qualidade – o que também não temos – é fundamental nesse processo. Com isso poderemos conquistar maior liberdade para sermos o que somos com muito mais naturalidade, inclusive nos enriquecendo com a contribuição lingüística e cultural estrangeira sem macaquice, tal como fizeram importantes movimentos da cultura brasileira no século passado, como o Modernismo, que dialogou criativamente com as vanguardas européias; a Bossa Nova, com o cool jazz americano; o Cinema Novo, com o neo-realismo italiano; o Tropicalismo, com a cultura de massas e a contracultura internacional.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Pathos

Tento ser simpático, torno-me mentiroso.

Últimas palavras

Adriano de Paula Rabelo


Manuel Bandeira desejou que seu último poema “fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais” e que contivesse “a paixão dos suicidas que se matam sem explicação”. As últimas palavras de alguém que está prestes a deixar a vida sempre provocaram fascínio. Tanto que em muitos lugares onde se praticou ou ainda se pratica a pena capital o réu tem o direito de dizer algo pela última vez. Naturalmente há um interesse especial pelo que as grandes personalidades disseram logo antes de expirar. Algo que funcione como um resumo de suas vidas ou como uma reflexão acerca dos grandes temas humanos, pois no limiar da morte todos os freios da conveniência se desfazem.

Platão conta em seu diálogo Fedro que Sócrates, condenado à morte por ingestão de cicuta, pouco antes de morrer teria dito a seu discípulo Críton: “Devemos um galo a Asclépio. Pague a dívida, não a esqueça.” Asclépio era o deus da Medicina, e o galo era o animal consagrado a ele. Sócrates, que considerava a morte uma libertação, oferecia o sacrifício como forma de agradecimento ao deus pelo obséquio de retirá-lo da vida.

Já na época do domínio Roma sobre a Grécia, o matemático e geômetra Arquimedes, forçado por um soldado a se apresentar ao general romano que tomou a cidade de Siracusa justamente no momento em que ele estava absorto na comprovação de seus teoremas – sentado no chão e desenhando na areia –, teria lhe dito antes de ser degolado: “Não perturbes os meus círculos.”

A tradição latina legou-nos as palavras finais de alguns imperadores romanos, quase todos extremamente soberbos. César Augusto teria mantido a pose de grandeza até o fim, pronunciando uma frase que posteriormente passou a encerrar ritualmente as representações teatrais romanas: Acta est fabula, isto é, “A história terminou”. Júlio César, vítima de uma conspiração na qual tomou parte seu próprio filho, teria exprimido seu estarrecimento ante a natureza humana ao ser apunhalado por ele: “Até tu, Brutus, meu filho!? Com isso, toda a esperança está perdida.” Vespasiano, sentindo-se morrer, foi bem pouco comedido: “Puxa, acho que estou me tornando um deus.” E de fato ele chegou a ser deificado em Roma após sua morte. Calígula, assassinado por seus próprios soldados, teria exclamado: “Eu vivo!” E Nero, que durante sua existência cultivou veleidades de comediante, se auto-avaliou com excessiva pretensão: “Que grande artista morre comigo!”

Os soberanos modernos, por sua vez, menos megalomaníacos e já imbuídos da cosmogonia cristã, muitas vezes exprimiram o peso de sua consciência no instante final. Felipe III voltou-se para um de seus ministros e disse: “Boa conta vamos dar a Deus de nosso governo!” E Carlos IX, da França, atormentado pela lembrança do massacre de milhares de protestantes na Noite de São Bartolomeu de 1572: “Quanto sangue! Quantos crimes! Que Deus me perdoe o mal que fiz!” A rainha Isabel, da Inglaterra, expirou pedindo: “Todos os meus bens por um momento de vida!” E Afonso XII morreu exclamando: “Que conflito! Que conflito!”

Políticos e intelectuais do século XX também foram bastante expressivos na hora derradeira. O ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt pediu simplesmente: “Apague a luz!” Já o economista britânico John Maynard Keynes lembrou uma de suas fontes de prazer: “Eu deveria ter bebido mais champanhe.” E o revolucionário e teórico do marxismo Leon Trotsky disse aos seus guardas, que estavam prestes a executar o homem que o feriu mortalmente a mando de Stálin, em 1940: “Não matem esse homem. Ele tem uma história para contar.” Winston Churchill, antes de entrar em coma e morrer uma semana depois, em 1965, teria dito: “Estou de saco cheio de tudo.” Ethel Rosenberg, assassinada de maneira infame juntamente com o marido Julius nos Estados Unidos, durante a Guerra Fria, sob falsa acusação de espionagem, afirmou logo antes da execução, em 1953: “Somos as primeiras vítimas do fascismo americano.” E Che Guevara, capturado por mercenários do exército boliviano em 1967, próximo à cidadezinha de La Higuera, teria mantido a dignidade de herói até o fim, dizendo a seu executor: “Sei que você vai me matar. Atire, covarde, você vai matar um homem!”


A morte de Sócrates (1787) – Jean-Louis David


Mas talvez sejam os artistas que nos legaram as últimas palavras mais expressivas. François Rabelais escreveu: “Vou em busca de um grande talvez.” E Leonardo da Vinci, encarnação máxima do gênio da Renascença, criador de uma obra universal e inesgotável, na hora de morrer disse algo que deveria estar no horizonte de todos os pretensiosos do mundo: “Ofendi a Deus e à humanidade, pois meu trabalho não alcançou a qualidade que deveria.”

Outro gênio, Mozart, teria dito: “Sinto o gosto da morte nos lábios... É algo que não pertence a este mundo.” E conforme a esposa de Gustav Mahler, este compositor terminou seus dias numa exaltação a seu ideal na música: “Mozart! Mozart!” Já Beethoven saiu de cena evocando a fórmula ritual pela qual eram finalizados os espetáculos da Commedia dell’Arte: Paudite, amici, comedia finita est, ou seja, “Aplaudam, amigos, a comédia terminou”.

Voltaire, instado por um padre a rejeitar Satanás, respondeu-lhe: “E isso lá são horas de fazer novos inimigos!” O já iluminado Goethe expirou pedindo: “Mais luz! Mais luz!” Heine, ao ser lembrado de sua vida pouco cristã, foi irônico: “Deus me perdoará, é a sua profissão.” Emily Dickinson percebeu que “a névoa está ficando casa vez mais cerrada”. Nosso Olavo Bilac pediu apenas: “Dêem-me café, vou escrever.” E Dylan Thomas, beberrão contumaz, teve uma preocupação bastante original: “Acabo de tomar dezoito doses de uísque seguidas. Acho que sem dúvida é um novo recorde.”

Henry David Thoreau teve o seguinte diálogo com uma tia no leito de morte: “Você fez as pazes com seu Deus?” “Eu nunca briguei com meu Deus.” “Mas você não está preocupado com o outro mundo?” “Um mundo de cada vez.”

Oscar Wilde pediu uma garrafa do champanhe mais caro do hotel onde estava hospedado. Enquanto expirava, tomando a bebida, disse: “Estou morrendo além das minhas possibilidades.” Outro que não apenas morreu, como também nasceu num hotel foi o dramaturgo Eugene O’Neill, que na hora fatal amaldiçoou seu destino: “Nascido num quarto de hotel e, maldito seja, morto num quarto de hotel!” Já o romancista Theodore Dreiser disparou: “Shakespeare, aí vou eu!”

Van Gogh morreu como viveu – melancolicamente. Suas últimas palavras teriam sido: “A tristeza vai durar para sempre.” Frida Kahlo, que também sofreu muito em vida, deixou as seguintes palavras como as últimas em seu diário: “Espero que a caminhada seja feliz e espero não retornar jamais.” E Pablo Picasso pediu aos que ficavam: “Bebam a mim.”

A dançarina Isadora Duncan se despediu como a grande artista que foi: “Adeus, meus amigos, vou para a glória!” Outro astro, o ator John Barrymore, sem perder a pose nem no instante iniludível, indignou-se: “Morrer? Eu deveria dizer não, camarada. Nenhum Barrymore permitiria que algo tão convencional acontecesse com ele.” Já James Dean, logo antes da batida do automóvel em que em pereceu, teria gritado: “Meus dias de diversão estão acabados.” Já Charlie Chaplin, quando o sacerdote que o assistia lhe disse: “Possa o Senhor ter compaixão de sua alma.”, teria respondido: “Por que não? Afinal de contas, ela pertence a Ele.”

Por fim, Elvis Presley, que ao final de sua última conferência de imprensa disse modestamente aos jornalistas: “Espero não ter aborrecido vocês.” Quantos milhões e milhões de pessoas neste mundo poderíamos responder: “Jamais!”

Certamente muitas dessas últimas palavras são lendárias. Quem morre doente, senil ou desesperado, por exemplo, não tem espírito para fazer estilo ou pingar gênio em frases de efeito. Quem morre de maneira rápida ou inesperada não dispõe de tempo nem de agilidade mental para elaborar obras-primas de concisão derradeira. Mas isso não importa. A lenda, por colar-se com perfeição a suas personalidades, tornou-se mais real que a realidade.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Jus

O melhor advogado é o que ganha uma causa mentirosa.

Sociedade das aparências

Adriano de Paula Rabelo


No conto “Teoria do medalhão”, Machado de Assis nos apresenta um pai que, após um jantar de comemoração da entrada do filho na maioridade, dá-lhe conselhos sobre como navegar de maneira eficiente em nossa sociedade, a fim de que seu rebento se realize como um medalhão, figura que ele considera a própria encarnação do êxito entre nós. O experiente senhor ensina que, para escapar à obscuridade, o candidato a ser bem sucedido socialmente deve assumir por inteiro aquilo que lhe corresponde na expectativa do vulgo, sufocando qualquer laivo de originalidade e idéias próprias, pois toda a sua ação consiste em manejar com habilidade o vasto acervo de lugares-comuns e convenções fartamente disponíveis e facilmente reconhecíveis entre a massa dos homens. Assim, apenas quando ancorado num realismo pragmático o medalhão poderá trafegar bem por entre a mediocridade geral. Isso é obtido através de sua adesão incondicional à ideologia dominante. Mestre do manejo das aparências, o medalhão não hesitará em lançar mão de frases feitas e fórmulas consagradas, não perdendo nenhuma oportunidade de fazer publicidade dos menores de seus atos. Mesmo o seu riso é codificado: não poderá jamais se aproximar da ironia, que é uma expressão de melancolia e questionamento, mas deve resultar da chalaça, da piada que o faz rebentar numa gargalhada a pregas soltas e que não questiona absolutamente nada. O medalhão mais bem acabado seria aquele que mantém, em seu mais alto grau, a “chateza do bom-tom” e uma “invejável vulgaridade”. O pai arremata sua lição comparando-a com O príncipe de Maquiavel.

De fato, “medalhionismo” pode ser considerado como um maquiavelismo para a vida privada e para a eficiência da navegação social mais rasteira. Tal como o grande pensador florentino, o pai do conto enxerga a humanidade como ela é, e não como gostaríamos que fosse.

Com a genial ironia que lhe é peculiar, Machado sempre põe a nu a melancólica condição do grosso da humanidade. No conto, o alvo mais direto de sua exposição é o bacharelismo exacerbado da elite de sua época, com seu anelo por ascensão social, sua obsessão por cargos e sua voracidade por honrarias e títulos. No entanto, o criador de Brás Cubas transcende em muito o seu tempo, apresentando-nos um fenômeno universal mas que talvez nunca tenha estado tão em evidência como atualmente: a identidade individual determinada por imagens e mitos criados no confronto com a alteridade.


O fundo das aparências para o mercado


Mais que nunca a sociabilidade se processa por meio de aparências e simulacros. Uma simples olhadela numa página qualquer de alguma revista dessas dedicadas ao estilo de vida de nossa high society exporá toda a miséria existencial das celebridades e novos-ricos atualmente em evidência. Mas para além desses panfletos dos grandes medalhões contemporâneos, no âmbito da gente chamada “comum”, percebe-se que também há muitas pessoas empenhando todas as suas forças para fugirem da obscuridade e se fazerem vistas de qualquer maneira. E o caminho para o êxito continua sendo o da vida como um manejo competente de aparências em que não se propõe nenhuma transformação do status quo, mas uma adequação individualista a ele com o fim de se colher dividendos pessoais. Nada mais reacionário que essa filosofia da imagem bonitinha para o mercado das trocas simbólicas que, em última instância, é uma imagem para o mercado tout court, já que hoje em dia tudo se mede por sua “vendabilidade”. Aí estão os reality shows como zoológicos humanos onde cada bicho se esforça pela simpatia do público com o espalhafato da estupidez. Aí está a política como um campeonato de marketing que se sobrepõe ao franco debate dos problemas da sociedade. Aí estão as mocinhas para quem o auge de suas carreiras consiste em posarem nuas para revistas masculinas de grande tiragem. Aí estão os jornalistas capangas do pensamento único, os advogados sofistas, os publicitários do eu, os hipócritas do politicamente correto, os gastadores de gente e as empresas-fornalhas dos recursos naturais... Todos eles exibicionistas de sua boa imagem.

Sem dúvida assistimos ao triunfo da razão cínica, fundamentada na sobreposição do interesse próprio ao coletivo, no narcisismo mais infantil e no descompromisso ético. A superficialidade das relações pessoais e o esgarçamento da vida pública são a decorrência óbvia da prevalência dos comportamentos fundamentados no individualismo e nas aparências. Ou recriamos um novo sentido de coletividade e cidadania – naturalmente inclusivo e emancipador –, ou a visão fatalista dos medalhões nos levará ao colapso e à barbárie. Todos os sinais disso já estão por aí, evidentes, para quem quer ver.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Anos-luz

Parente só é bom longe.

Divagação pelo reino dos nomes

Adriano de Paula Rabelo


João Cabral de Melo Neto inicia seu poema narrativo “Morte e vida severina” com o protagonista-retirante explicando quem é e a que vem. O definidor essencial de seu destino é o nome: Severino. Tanto que ele se transforma em adjetivo para qualificar justamente sua morte e sua vida, os constituintes fundamentais do destino de cada um. Em realidade, Severino é muito mais uma categoria de pessoas do sertão nordestino cuja triste destinação infelizmente permanece atual. Como diz o personagem do poeta pernambucano: “E se somos Severinos/ iguais em tudo na vida,/ morremos de morte igual, mesma morte severina:/ que é a morte de que se morre/ de velhice antes dos trinta,/ de emboscada antes dos vinte,/ de fome um pouco por dia.” Portanto, um Severino é alguém que carrega toda uma carga de miséria, sofrimento e injustiça, quando não na própria pele, ao menos como herança trágica do flagelo que há séculos assola aquela região do país.

Como muito bem percebeu João Cabral, cada nome contém em si um destino (ou, no caso da literatura, cada destino exige um nome adequado para se realizar). Jamais se viu um deus chamado Zequinha, herói chamado Leleco, um imperador chamado Gleidson ou uma embaixatriz chamada Lurdinha. Um deus há de ser Apolo, Shiva ou Emanuel; um herói, Odisseus, Beowulf ou Roland; um imperador, Alexandre, Augusto ou Montezuma; uma embaixatriz, por fim, há de ser Catarina, Margareth, Valentina... Uma beldade que se chamasse Neide – e não Helena, Beatriz ou Charlotte – jamais inspiraria guerras, poemas imortais e suicídios.

De Otto Lara Resende, Manuel Bandeira dizia que, com esse nome, ele já estava talhado para a glória em qualquer campo de atividade em que atuasse. Nosso grande poeta parnasiano se orgulhava de seu nome-alexandrino-perfeito: Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac. Molière, por sua vez, nomeou de forma muito adequada um hipócrita e falso devoto: Tartufo, palavra até mesmo sonoramente sugestiva de suas qualidades. E Shakespeare foi preciso ao dar o nome de Iago ao canalha intrigante de uma de suas tragédias.

Conforme a mística judaica, Deus tem setenta e dois nomes, tendo iniciado sua criação justamente pronunciando os nomes das coisas. Já na tradição islâmica, Alá tem noventa e nove nomes. E no Mahabharata, Krishna recita uma lista de 1008 nomes de Shiva e de Vishnu, os dois principais deuses da mitologia hindu.


Os 72 nomes de Deus na Árvore da Vida - cabala mística


Um quê de mistério possuem os nomes palindrômicos, aqueles que preservam a mesma forma quando lidos da esquerda para a direita e vice-versa, como Otto ou Ana. Entre os incas tais palavras funcionavam como marca de soberania, pois seus reis eram os únicos cujos nomes eram palíndromos, tais como Capac. E nos Estados Unidos registra-se um casal do meio-oeste do país que batizou os sete filhos com nomes assim: Noel Leon, Lledo Odell, Lura Arul, Loneya Ayenol, Norwood Doowron, Lebanna Annabel e Leah Hael.

Curiosos são os nomes líricos, infantis dos traficantes de drogas brasileiros, que parecem saídos de um poema de Casimiro de Abreu: Escadinha, Fernandinho Beira-Mar, Marcinho VP, Robinho Pinga, Lambari, Sapinho, Claudinho da Mineira, Marcola... Nem parece que fazem o que fazem... Ou talvez esses nomes funcionem como um meio de amenizar o que fazem... Ou de lhes proporcionar personalismo e simpatia no âmbito das comunidades em que atuam.

A vigência dos nomes obedece a modas e tendências no tempo e no espaço. Na época da grande influência francesa no Brasil, eram muito comuns entre os filhos das nossas elites os Pierres, os Jeans, os Victor Hugos, as Emanuelles, as Alines, as Juliettes. Mais tarde, assumindo os Estados Unidos o topo da rapinagem política e cultural no mundo, ocorreu o advento dos Washingtons, Wilsons, Flanklins, Lincolns, Kennedys – sobrenomes de homens importantes na história daquele país – e mais recentemente, com a onipresença da cultura de massas, os Michaels (ou “Maicons”), os Roberts, as Jéssicas, as Sharons, disseminados por todas as classes sociais. Pertencendo a uma língua de fonética tão diferente da brasileira, é claro que tais palavras estão completamente fora do lugar. Essas tendências dariam todo um interessante estudo sociológico de nossa abusiva permeabilidade ao estrangeiro prestigioso.

Quanto às tendências espaciais, verifica-se no Nordeste, por exemplo, a cultura de nomes um tanto esdrúxulos, formados por parte do nome do pai e parte do nome da mãe: Cidimar, Francislu, Adaulino, Josenilda, Paulicleide, Alciwando... Só pode haver simpatia por tamanha criatividade, ousadia, originalidade e coragem!

Lembro um personagem de Machado de Assis chamado Deolindo Venta-Grande, um marinheiro mal-sucedido no amor. Também... com esse nome!

Num país de tão forte tradição católica, nomes de santos ou bíblicos sempre estiveram em evidência, sendo os mais comuns entre nós. Daí a permanência e a difusão de José, João, Francisco, Pedro, Maria, Paula, Teresa...

Óbvio que a formação predominantemente latina também havia de produzir outros de nossos nomes mais comuns, como Antônio, Júlio, Marcelo, Laura, Fabiana, Lúcia.

O nome é uma espécie de farol da pessoa pelas veredas da vida. Sintetiza um ser, contém um destino, abre ou fecha portas. Tanto que aqueles que não gostam de seus nomes de batismo sempre tratam de trocá-los judicialmente ou disseminam um apelido que amenize suas dissonâncias e más evocações semânticas. E tanto mais que a Justiça contemporânea proíbe os pais de batizarem seus filhos com nomes degradantes ou ridículos. Portanto, se por longo tempo muitos esforços resultam infrutíferos, se o fracasso ou a decadência já vão corroendo uma trajetória, talvez seja chegado o momento de se mudar de nome a fim de se forjar outro destino.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Espelho

Ser louco é ser tratado como louco.

Tempo evaporado

Adriano de Paula Rabelo


Em sua obra monumental, o escritor francês Marcel Proust mostra que o tempo, na medida em que avança, é “perdido”, pois o passado jamais poderá ser recuperado na sua completude. Na memória, os acontecimentos e os processos que fazem parte de uma existência individual ou coletiva são revisados sempre à luz das experiências posteriores do indivíduo ou da coletividade. A partir de determinadas referências, fazemos uma releitura que seleciona o que merece ser lembrado e construímos uma explicação que dê sentido ao nosso percurso. Portanto, em vez de proporcionar uma descrição objetiva do passado, a memória o reinventa com grande carga de subjetividade e afetividade. Desse modo, ao relembrar, por mais objetivos que tentemos ser, contamos não exatamente o que se passou, mas fornecemos uma interpretação do que se passou. Isso se dá tanto no âmbito dos relatos da experiência individual quanto coletiva. Por isso, assim como consideramos um fato marcante de nossa biografia de maneira diferente em diferentes momentos de nossa trajetória, a história coletiva será sempre relida pelas novas gerações, a fim de que se possa construir novos sentidos para as novas realidades do tempo presente. Tais são as possibilidades do tempo recuperado ou redescoberto.

Nesta época de esgotamento da moderna ideologia do progresso infinito e da espoliação da natureza – que conheceu seu auge no decurso do século XX –, mais que nunca as últimas gerações têm de se haver com o problema do tempo. Muitas paisagens têm sido substituídas, muitos acontecimentos têm se atropelado em barafunda, muita gente tem passado brevemente por nosso convívio... O corrido estilo de vida atual, em que a velocidade e as estatísticas tornaram-se um valor em si mesmas, faz com que o tempo esteja em constante evaporação. A fugacidade das experiências não permite que muita gente viva de modo mais denso e construa laços e valores duradouros. Com isso, muitos atravessam a vida sem saber bem o que querem, eternos indecisos e insatisfeitos, temerosos de suas escolhas, perdidos num limbo de inúmeras possibilidades.


A Via-Láctea


Que leitura fazer de um passado que se fundamenta no vazio do tempo evaporado? Claro que a brevidade também pode ser significativa. Aliás, os momentos perenes em geral são apenas isto: momentos. Neles, seja pela intensidade, seja pela conjunção de acontecimentos diversos ou a culminação de processos, seja pela repercussão de seus desdobramentos, a eternidade se pronuncia. O que faz do tempo evaporado algo debilitante são o temor da profundidade e do comprometimento, o barateamento e o constante prosaísmo da vida. Atualmente há uma espécie de difuso horror às grandes personalidades, aos projetos de uma vida inteira, às lentas conquistas do conhecimento. Poucas coisas são construídas para permanecer, e tudo vai sendo destruído e refeito de forma um tanto esquizofrênica. Assim, no avançar do tempo, que coisas recuperar, que perenidade redescobrir?

Somos, sim, finitos e de vida curta, mas trazemos na alma, como uma condenação, a ferida crônica e incurável da eternidade. Por isso criamos Deus e o amor, a arte e os mitos, os heróis e os santos, os monumentos e as glórias. Essa existência em dissipação hoje em voga – despida de utopias, avessa à grandeza e encharcada de mediania – é a própria desumanização. Sem densidade de vida não se faz um homem e sim um bicho, uma planta, um fenômeno natural qualquer. O tempo evaporado nada mais é que uma expressão da própria humanidade que se desvanece.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Aliança

O matrimônio se casa ao patrimônio.

Natal venal

Adriano de Paula Rabelo


Aí está mais um Natal, esta epifania dos vendedores. Todo ano é a mesma coisa: tudo se mede pelo metro do aumento de produção, do volume de vendas, do percentual de superação das marcas do ano anterior, das multidões que abarrotam a rua 25 de Março, no centro de São Paulo, em busca de quinquilharias. É tempo de promoções, crédito, descontos, prêmios, uso do décimo terceiro salário, facilidades de pagamento – essas musas do chamado marketing “agressivo”. Os shopping centers, essas catedrais da classe mediana, fervem.

Por todo lado, no verão tropical, a estapafúrdia figura de um velho finlandês em trajes de inverno anacrônicos inclusive em seu próprio país, transportado por trenó e renas, expectorando uma risada bobalhona. E como complemento a decoração de um kitsch miserável, agora toda fabricada por semi-escravos nos cafundós da China: cordas de luzinhas coloridas, imitações de árvores aparentemente originárias da Floresta Negra, dos Alpes ou talvez da Taiga Siberiana onde se penduram bolas coloridas e uma estrela aberrante, guirlandas de galhos ressecados ou flores igualmente fakes pelas portas, sininhos de plástico ou delineados pelas ruas em gás néon. E para arrematar, as musiquinhas irrespiráveis, os cartões horrorosos, as mensagens-clichês.


Uma história distante


Na noite de Natal propriamente, os perus e os leitões assados, a glutonaria e a bebedeira, o amigo oculto simulando harmonia e união entre parentes que se detestam. E as crianças, aprendizes precoces do credo consumista, ávidas por receberem sua presentalhada desvinculada de qualquer atitude criativa, de qualquer valoração afetiva. No fim dessa noite infeliz, quando ela é atravessada sem bate-bocas, choro, ameaças, sentimentalismos constrangedores e outras inconveniências, advém o vazio existencial daquilo que as mercadorias e a pose pseudofeliz jamais poderão preencher: o verdadeiro encontro entre as pessoas, que não tem data marcada no calendário. E no dia seguinte todos retomam seus azedumes e violências, cultivam sua santa reclamação da insegurança e da desagregação social, rugem contra seu trabalho e exalam sua insatisfação com o país, com a vida.

Que relação haverá entre essa baboseira toda e a história de um longínquo menino pobre, filho de pais marginalizados que há vinte séculos fugiram do Egito, a fim de ele não fosse degolado? Um menino que acabou nascendo pelo caminho, num estábulo qualquer, tendo por berço a manjedoura onde comiam vacas e cavalos! Um menino saudado logo depois por três Reis Magos que lhe trouxeram presentes muito especiais, tal como convém a um Deus!

O frenesi consumista, o convencionalismo sazonal, o cenário norte-europeu de mau teatro amador, o esvaziamento da lenda de São Nicolau, a desova da indústria de brinquedos e os transbordamentos de fim de ano em meio à contida segurança pequeno-burguesa reatualizam em tudo, a cada ano, a anti-história do menino-deus. Onde se encontram – nessa agitada pasmaceira, nesse alegre desespero – qualquer esboço de redenção e salvação? Que sentido terá esse recomeço do mesmo?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Alcatra

Açougue é joalheria de cão.

O malandro ambivalente

Adriano de Paula Rabelo


O malandro é uma personalidade originária da ordem escravista que tem atravessado séculos e demonstrado excepcional capacidade de adaptação aos novos contextos históricos e sociais no Brasil. Sua forma primitiva é a figura do agregado, sujeito livre mas pobre que vivia à sombra dos grandes senhores. Sem exercer uma função econômica na sociedade, já que não possuía propriedade nem trabalhava, pois quase todos os serviços eram executados por escravos, o agregado vivia de favor na casa ou nas terras de um senhor de quem dependia e a quem devia absoluta gratidão. Óbvio que, nessas circunstâncias, o agregado desenvolveu marcantes especificidades no seu modo de ser e de agir. Seu universo era fortemente marcado pelo paternalismo, o apadrinhamento, o personalismo e a informalidade.

No ensaio “Dialética da malandragem”, Antonio Candido interpreta o romance Memórias de um sargento de milícias como uma excelente representação do malandro brasileiro em seu nascedouro. Na obra de Manuel Antônio de Almeida, que o crítico considera o primeiro romance tipicamente nacional, o protagonista Leonardo Pataca transita o tempo todo entre a norma e infração, entre um modelo idealizado de comportamento condizente com os princípios do Estado e da sociedade modernos e os desvios geralmente relacionados às organizações arcaicas.

Já num estudo publicado em 1979, o antropólogo Roberto DaMatta identifica três figuras paradigmáticas na sociedade brasileira, cada uma delas associada a um acontecimento comunitário específico. A primeira delas é o “caxias”, personalidade autoritária que concebe o mundo através da rigidez das hierarquias, das leis e da burocracia. O acontecimento com o qual se identifica em profundidade é o desfile militar. A segunda figura paradigmática é o “renunciador”, aquele que se desapega dos bens materiais e dos prazeres do corpo em nome da fé, seja religiosa, seja política, seja ideológica. Associa-se muito proximamente às procissões. E, por fim, a terceira dessas figuras é o malandro, ser essencialmente marcado pela flexibilização e pela inversão, opondo-se tanto à rigidez das normas e hierarquias como ao ascetismo da fé. Socialmente deslocado, portanto, o malandro não se enquadra na ordem estabelecida, mas também não pretende contestá-la e subvertê-la. Associa-se diretamente ao Carnaval. Para DaMatta, em geral assumimos, em diferentes ocasiões da vida, a persona de uma ou outra dessas figuras.

Nossa formação histórica, com classes sociais radicalmente cindidas não apenas dos pontos de vista econômico e cultural mas também em relação aos direitos e deveres, criou uma distância imensa entre os ricos, que se posicionam acima das leis e possuem a prerrogativa de poder transgredi-las e cometer toda sorte de abusos, e os pobres, que para sobreviverem muitas vezes são obrigados a lançar mão de expedientes para burlar a burocracia e as leis feitas para mantê-los à margem dos princípios democráticos e cidadãos. Daí a controvérsia em torno de certas criações do nosso processo histórico, tais como o “você sabe com quem está falando?” e o chamado jeitinho brasileiro, duas expressões da malandragem que sempre tiveram enorme espaço em nosso jogo social.


Elenco da peça Ópera do malandro, de Chico Buarque, montagem de 2003


O malandro, portanto, é aquele que, posicionado em qualquer lugar na escala social, desvia-se da lei e da regra sem contestar o status quo. Figura ambígua, fruto de uma estrutura formada por privilegiados e desfavorecidos, de um sistema que não conseguiu generalizar o trabalho assalariado e os direitos civis, ele provoca, em geral, um misto de simpatia e revolta. No âmbito popular, o malandro valida seus pequenos golpes como necessários para a sobrevivência ou como uma vingança contra as condições a que está submetido. Se não há emprego nem meios para se ganhar a vida pela via da honestidade, a única alternativa é viver de expedientes, muitas vezes compondo o front dos exércitos montados pelos grandes traficantes, contrabandistas e exploradores da pirataria, do jogo, do latrocínio. Afinal todos estão reduzidos a consumidores, tendo de cavar a qualquer custo o meio para se poder adquirir as mercadorias que uma publicidade avassaladora vive garantindo serem absolutamente necessárias para se alcançar automaticamente a felicidade. Instaurada a filosofia do “salve-se quem puder”, portanto, o capital parece haver conseguido sobrepujar as utopias e as reivindicações coletivistas. Por outro lado, não deixa de provocar uma admiração positiva a astúcia do malandro para sobreviver na adversidade e mesmo para gozar luxos e prazeres à custa de seu necessário complemento, a figura do otário, muitas vezes alguém pertencente à casta privilegiada.

Já no âmbito dos abutres da política e dos grandes negócios, o malandro nem precisa justificar a ilegalidade, cônscio que está de sua invulnerabilidade. Afinal é para o bem de suas mansões, de sua cidadania mundial, de seus carrões importados, de suas lindas amantes e de seus relógios Rolex que continuamos a trabalhar, a pagar impostos e a manter a fé em que “dias melhores virão”. Aqui os otários somos todos os que cumprem honestamente com seus deveres e sustentam um Estado que não oferece retorno de nossas contribuições na forma de boa qualidade de vida. Também esse “malandro federal”, tal como o classifica Chico Buarque numa peça de meados da década de 1970, gera reações ambivalentes. Por um lado é execrado como larápio dos meios para a promoção do bem público; por outro, tendo em vista os padrões hoje consagrados para aferir o êxito pessoal de alguém, são admirados por sua acumulação de capital, por viverem luxuosamente e por sua proeminência nas colunas sociais.

Para nosso bem e nosso mal, esse personagem paradigmático de nossa formação histórico-social há de permanecer ainda por muito tempo, reatualizado todos os dias, em todos os lugares. Somente a construção de um Estado muito mais eficiente que esta farsa que temos, com um mínimo de igualdade de oportunidades para todos - sem nossas disparidades sociais gritantes -, o império das leis, uma educação qualificada e amplamente disseminada, além do espaço para a valorização do mérito individual, o malandro um dia poderá se tornar obsoleto. Mas tudo indica que ele ainda atravessará os próximos séculos, sempre se renovando para se adaptar às novas leis, aos novos costumes, às novas tecnologias.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Extensões

O homem é um produto do meio e dos extremos também.

Arésio, o valente

Adriano de Paula Rabelo


Minha pequena cadela Pituca, um belo pinscher preto, sempre foi bastante dócil e brincalhona em casa, mas freqüentemente deixa as pessoas impressionadas com sua valentia quando sai para as ruas e encontra outros cachorros. Em muitas ocasiões, vi-a partir para cima de cães enormes que, surpreendidos, puseram-se em fuga. Algumas vezes tive de segurá-la para que não avançasse sobre rothweillers, pit bulls, pastores e até são bernardos. Tendo especial antipatia por poodles, quando os vê pelas ruas Pituca, se não for contida em tempo, de imediato lhes oferece como cartão de visitas uma mordida no pescoço. Gatos, então, quando os vê, persegue-os em disparada, caindo estatelada ao tentar subir, tal como os felinos, nos muros e árvores onde eles se refugiam. Não sei de onde vem essa belicosidade pública.

Meu desabusado cachorrinho me faz recordar uma figura impagável que conheci na infância: Arésio. Baixinho e atarracado, de grandes olhos, cabelo desgrenhado e voz rouca, com esse nome raro Arésio era o valente municipal. Ou melhor, o valente de bairro, pois suas estripulias raramente ultrapassavam os limites do nosso canto de subúrbio.

Uma vez, referindo-se a seus arroubos, ouvi-o se autoqualificar como “impulsível”. De fato esse adjetivo lhe caía muito bem, já que ele era um tipo ao mesmo tempo “impulsivo” e “impossível”.

Não sei por que motivo Arésio foi criado apenas pela mãe, uma figura já velhinha e frágil em meus tempos de criança. Em casa e diante da sacrossanta senhora, ele era o mais afável dos cordeiros. Na rua, entretanto, espaço do perigo e da desordem, nosso amigo se transfigurava. Brigador de excepcionais recursos numa época em que ainda eram raríssimas as armas de fogo nas mãos de qualquer um, Arésio humilhava outros valentões – a maioria homens maiores e mais fortes – com sua agilidade e seus golpes. Ainda hoje não faço idéia de como ele arranjava tantos pretextos para se atracar com seus contendores. Em geral isso ocorria a partir de dissensões que iniciadas em bares.

Sempre tive horror às soluções violentas para os conflitos. Poucas vezes na vida, a maioria delas na infância, uma ou outra vez na adolescência, fui às vias de fato com alguém. Quase sempre isso ocorreu por demandas futebolísticas. Hoje mais que nunca, com o Brasil sangrando cotidianamente por causa da violência sem freios, considero desprezíveis e burros os que, diante de qualquer contrariedade, disparam ameaças, palavrões, bofetadas e pontapés, especialmente sobre gente que não conhecem direito.

Mas voltando a nosso personagem, sua valentia provocava nos meninos do bairro um misto de fascínio e repugnância. E nos deixava intrigados a absoluta ascendência da mãe sobre ele. Certa ocasião em que Arésio esmurrava a cara de um certo Baiano, que estava deitado no chão, ela chegou, trôpega, e simplesmente lhe disse: “Arésio, pára com isso e vamo pra casa!” Como um garotinho obediente que a mãe ordena que vá dormir, ele abandonou o oponente, levantou-se, arrumou a roupa e, de maneira patética, tomou o rumo de casa, cabisbaixo. Baiano deu graças a Deus.


Zoinho, menino de rua de dez anos, enfrenta os policiais de São Paulo - foto de Evandro Monteiro


Falei em futebol logo acima. Na única vez em que quebrei algum osso jogando bola, adivinhe quem foi o autor da proeza? Arésio. Eu devia ter uns nove ou dez anos. Não sei por que cargas d’água estava jogando no gol numa pelada com gente grande. A certa altura, Arésio apareceu cara a cara, a pesada bola de couro quicando a dois metros das traves. Ele simplesmente cerrou os dentes e meteu o pé. Arrojado, tentei salvar o gol, jogando os braços e pulando para defender... A bola bateu com toda força no meu punho, e na mesma hora meu braço esquerdo entortou, doendo agudamente e começando a inchar. A cena seguinte foi correr para casa, levar uma tremenda bronca de minha mãe – que, como sempre, imprecava contra o futebol – e ir para o hospital engessar o braço.

Ainda do futebol vem uma das histórias mais fantásticas de Arésio. Num jogo do Campeonato Mineiro, lá por meados dos anos 1970, o Guarani local jogava contra o Cruzeiro de Belo Horizonte. Ainda hoje as torcidas se misturam quando ocorre esse tipo de partida na cidade. Atleticano de quatro costados, Arésio foi assistir ao jogo com uma camisa do Galo, arqui-rival do Cruzeiro, debaixo de uma camisa comum, sentando-se justamente num local cheio de cruzeirenses, a maioria vinda da capital do estado. Lá pelos quinze minutos do primeiro tempo, ele tira a camisa comum e fica com a alvinegra do Atlético entre as azuis do Cruzeiro. Imediatamente a confusão se estabelece. Queriam dar-lhe tapas, surrá-lo, tirar-lhe a camisa, queimá-la. A certa altura, completamente cercado pela pequena multidão azulada, já quase apanhando, Arésio arranca um revólver da cintura e dispara dois tiros para cima. Ato contínuo, houve a mais espetacular debandada de cruzeirenses, que, atropelando-se uns aos outros, evaporaram-se de suas imediações. Os dois policiais que foram ver o que ocorrera – e que conheciam Arésio – deixaram-no em paz ao verificar que a arma era falsa e que os tiros eram de festim. Com isso, o valente atleticano assistiu tranqüilamente ao resto do jogo, sem ninguém sentado num raio de dez metros de onde ele permanecia com a indefectível camisa do seu time do coração.

Arésio tinha bastante familiaridade com animais perigosos ou peçonhentos. Algumas vezes o vi mexendo em colméias de abelhas sem nenhum tipo de proteção. Costumava criar em casa algumas aranhas, serpentes e mesmo um ouriço. Os mais estimados desses bichinhos tinham até nome próprio. Gostava ainda de se exibir na rua com uma enorme caranguejeira que caminhava por seus braços, ombros e cabeça, causando assombro em nós, meninos, e horror em nossas mães. Houve um dia, no entanto, em que – não me lembro onde nem como – eu e outros garotos pegamos um escorpião amarelo, o mais perigoso de todos. Colocado vivo numa caixa de sapatos, o bicho foi levado até Arésio, que estava em pleno bar, escorado no balcão e rodeados por colegas de etilismo. Já um tanto embriagado, ele devia estar num dos seus dies irae, pois simplesmente abriu a caixa, sacou um canivete e cortou pelo meio o rabo do escorpião, onde fica o ferrão. Seguiu-se, então, uma cena inesquecível: Arésio colocou o animal sobre a mesa, deu-lhe uma forte pancada com a mão, levantou-o no ar, já moribundo, e gritou: “É você que fica machucando os meninos por aí, heim?! Heim?!” Por fim, abriu a boca, engoliu o bicho ainda semivivo e emborcou em seguida meio copo de cachaça, para o estarrecimento de toda a assistência.

E por falar em bar, a última história de que me lembro envolvendo o brutal valentão de província se passou num boteco que ficava de frente para uma casa onde minha família morou por alguns anos. Ali Arésio e seus colegas se reuniam diariamente. Numa noite de sábado, já pelo final da minha adolescência, saí por volta das 21h00. Nessa ocasião os bebedores contumazes deram de cantar todo um vasto repertório de sambas-canção e boleros dos anos 1950 em diante. Repassaram de Nelson Gonçalves a Lupicínio Rodrigues, de Orestes Barbosa a Ataulfo Alves, de Vicente Celestino a Antônio Maria. Quando retornei, já passando das duas da manhã, lá estava o coro de sete ou oito vozes, a esta altura já completamente melodramáticas. Quando me deitei, por volta das 2h30, parece que finalmente todo o repertório havia sido repassado. Sem mais disponibilidade de boleros e sambas-canção, os boêmios dispararam a cantar, como despedida, nada menos que o Hino Nacional...

Pelo fim da adolescência, mudei-me de bairro e, alguns anos depois, de cidade. Contaram-me que Arésio também se mudou, após a morte de sua mãe. Nunca mais o vi. Sua brutalidade valentona e teatral, que tanto me impressionou na meninice, foi para mim não um simples sopro mas uma ventania de vida.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Da justiça

Todos os homens são iguais perante a bomba atômica.

O brasileiro torto

Adriano de Paula Rabelo


Durante boa parte do século XIX, ridículas teorias racialistas originárias dos centros do imperialismo europeu e macaqueadas no Brasil por nossa esbranquiçada casta dominante pregaram a inferioridade das raças originadas fora da Europa ocidental, em especial do negro e do amarelo. Pior ainda era considerada a mestiçassem, que, segundo essas teorias construídas sem nenhum aporte científico, degradava os indivíduos, tornando-os instáveis, obtusos e propensos à violência dos instintos sem controle. Em 1888, Nina Rodrigues, por exemplo, intelectual de grande prestígio pertencente à Escola de Medicina da Bahia, lamentava a seguinte “fatalidade” de nossa formação histórica: “Todo brasileiro é mestiço, quando não no sangue, nas idéias.”

Somente nas primeiras décadas do século XX, com os avanços dos estudos sociais, ocorrerá uma reavaliação do papel da mestiçagem na formação do povo, da sociedade e da cultura brasileira. O ápice desse movimento será a publicação de Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, em 1933. Nesse clássico da interpretação do Brasil, o sociólogo pernambucano mostra como os portugueses que vieram para o Novo Mundo, mais avançados tecnologicamente, conseguiram submeter o índio e o negro sem deixar de com eles misturar geneticamente desde os primeiros tempos de sua chegada, no século XVI, quando deram início à formação de uma sociedade fortemente marcada pela figura do patriarca. Na seqüência do que comporia uma extensa trilogia, Freyre mostra, em Sobrados e mocambos, a decadência do patriciado rural e o desenvolvimento urbano; e, em Ordem e progresso, a desintegração da sociedade patriarcal e o advento do trabalho livre, o esgotamento do Império e as condições que propiciaram o advento da República. Em grande medida, essa evolução histórica teria se processado, conforme o sociólogo, em virtude da ação do mulato, esse mestiço paradigmático na cultura brasileira, que a partir de então foi revalorizado.

Desde as primeiras manifestações nativistas, nossa especificidade vem se construindo por oposição a uma Europa muitas vezes idealizada em seu racionalismo, classicismo, cosmopolitismo, “pureza” e “superioridade”. Assim nos caracterizaríamos por ser imaginativos, barrocos, antropofágicos, malemolentes, tortos... Talvez esta última qualidade resuma e signifique em profundidade toda uma mitologia com a qual nos identificamos. Muita da nossa mestiçagem de sangue e de idéias, agora reafirmada como positividade, se exprime através de um verdadeiro arquétipo que se construiu em torno do brasileiro torto. Vejamos.

Nosso maior poeta já inicia sua trajetória na literatura com o significativo presságio de um “anjo torto” que, por ocasião de seu nascimento (dele, o poeta), instiga-o para que parta em direção à vida, anunciando que ele será um gauche (esquerdo, desajustado, mal adaptado, desordenado). E assim – como um “gauche no tempo”, na definição de um dos melhores intérpretes de sua obra – Drummond atravessará o século XX construindo uma das expressões fundamentais da cultura brasileira.

Já na era colonial, o brasileiro retorcido se fazia presente. Não por acaso o Barroco proporcionará a primeira manifestação original da arte brasileira. E, na arte barroca, a figura que encarna o gênio nacional por excelência durante os tempos da Colônia é a do mulato Antônio Francisco Lisboa, filho de mãe negra escrava com um arquiteto português, formado como síntese preciosa de culturas diversas. Na idade madura, o surgimento de uma lepra, que lhe corroeu os dedos e as mãos, fez com que o agora chamado Aleijadinho se dedicasse com toda a sua potencialidade humana a sua atividade como escultor, produzindo obras-primas com ferramentas amarradas a seu corpo mutilado.

Outra figura que pode ser vista como gênio torto é o nosso maior escritor, Machado de Assis, filho de pai negro e mãe branca de origem portuguesa; ele pintor de paredes, ela costureira. Pobre, epilético e mulato numa sociedade senhorial e escravista, reunindo várias características de alguém que só poderia se realizar como um pária no Brasil do século XIX, Machado se transformou na expressão mais universal da literatura brasileira, criticando a sociedade de seu tempo com fina e superior ironia, expondo a conduta artificial, insensível e egoísta de nossa casta dominante.

Em Sobrados e mocambos, Gilberto Freyre, ao tratar da ascensão do bacharel e do mulato na sociedade brasileira, registra como o aumento da civilização veio acompanhado por uma onda de sifilização. Assim, nas últimas décadas do século XIX e primeiras do XX, para o sociólogo, foi se urdindo o mito do “amarelinho”, segundo o qual o protótipo do herói brasileiro seria o tipo pequenino, magro, feio, disgênico, “quase um menino, vestido de homem”. Nessa categoria se ajustam perfeitamente três das maiores glórias nacionais: Santos Dumont, Rui Barbosa e Euclides da Cunha, ícones de nossa quintessência impura. Curioso como esse mito do amarelinho se faz presente também no imaginário popular, através de personagens depauperados mas de uma astúcia genial como João Grilo, Pedro Malasartes e Manoel Riachão, ou mesmo na mitificação em torno de figuras históricas como Lampião e o padre Cícero. Por contraste, cultivamos certa aversão pelo herói bonitão, encorpado e eugênico, que praticamente não tem vez em nosso panteão.

Ainda no âmbito do imaginário popular, figuras lendárias como o Saci-Pererê, negrinho mutilado de uma perna; o Curupira, anão de traços indígenas e pés virados para trás; e Macunaíma, o “herói sem nenhum caráter”, são vigorosas figurações de uma psicologia coletiva que extrapola longamente os racionalismos estreitos.

Mas é talvez do futebol que nos vem a confirmação de que o brasileiro anda direito pelos caminhos mais tortos. Para ficar em apenas uns poucos exemplos – um de cada grande etapa da história do esporte no Brasil –, restrinjamo-nos a três personagens extraordinários.


Pernas de Garrincha, foto tirada em 1964


O primeiro é Arthur Friedenreich, o primeiro craque excepcional surgido nos gramados do país. Filho de pai alemão e mãe negra brasileira, esse mulato sui generis, maior goleador da história do futebol, fez com que, nos anos 1910, época em que o esporte era apanágio de uma elite branca e racista, o país se olhasse e se reconhecesse no espelho. Sobre ele, diz Mário Filho: “A popularidade de Friedenreich se devia, talvez, mais ao fato de ele ser mulato, embora não quisesse ser mulato, do que de ele ter marcado o gol da vitória dos brasileiros [na final do Campeonato Sul-Americano de 1919, primeira grande conquista da Seleção Brasileira]. O povo descobrindo, de repente, que o futebol devia ser de todas as cores, futebol sem classes, tudo misturado, bem brasileiro.”

Se Pelé foi o maior futebolista de todos os tempos, Garrincha foi seguramente o maior fenômeno da história do esporte. Se o sublime crioulo era perfeitamente talhado para se tornar o “atleta do século”, o inexplicável mestiço de índio, negro e branco reunia deficiências que não o qualificavam sequer como peladeiro de rua: pernas tortas, uma bem mais curta que outra, bacia deslocada, baixinho e tendente a gordinho. No entanto, com seu único drible para a direita arrasou defesas compostas pelos mais eugênicos latagões. Freqüentemente deixava estatelados cinco ou seis apolos que tentavam tirar-lhe a bola. Sobre ele e sobre nós, dizia Nelson Rodrigues: “Feliz do povo que pode esfregar um Garrincha na cara do mundo!”

Por fim, Romário, flor da periferia carioca. Baixinho, irresponsável, desbocado, rebelde, indisciplinado, campeão da solércia e da provocação, dentro de campo foi um mago da pequena área, com seus gols de biquinhos e toques sutis em espaços ínfimos de campo preenchidos por zagueiros gigantescos. Praticamente sozinho ganhou a Copa do Mundo de 1994, rodeado por uma das mais sofríveis Seleções Brasileiras do século XX. Fora de campo, nunca se deixou engambelar pela cartolagem mafiosa nem pela imprensa corrupta que são parte do lado podre do futebol. Ao contrário, colocou-os no bolso, fazendo sempre o que desejava e, principalmente, passando-lhes o conto-do-vigário dos mil gols, em que até os tentos assinalados em peladas na praia entraram em suas contas…

Esse mostruário de heróis nacionais parece exprimir em boa medida nossa identidade e nossa psicologia. Os brasileiros sem dúvida preferem a astúcia à força bruta como instrumento de ação política e social. As figuras mais admiradas do nosso panteão são aquelas que transformam seus defeitos ou supostas desvantagens em qualidades especiais, que utilizam muito mais a malícia, a habilidade e a sagacidade do que a arrogância, os punhos e a violência. Quando deixarmos de imitar os centros do ultra-racionalismo e da rapinagem, assumindo nossa sinuosidade essencial, avançaremos como Aleijadinho sobre a pedra, como Garrincha sobre joões: – e enfim nos tornaremos o que somos.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Diferença

Todos os indiferentes são iguais.

Na trilha da mulher fatal

_______________ Adriano de Paula Rabelo


Faz parte dos mitos de quase todas as civilizações alguma figura de mulher sedutora que leva o homem a perder uma situação paradisíaca ou ao menos de harmonia e felicidade. Também no âmbito da história, impressiona a recorrência e a permanência dessa persona, que adquiriu foros de verdadeiro ícone da cultura ocidental. Com o tempo consagrou-se, mesmo em outros idiomas, a referência através da forma francesa da expressão: femme fatale.

A literatura da Antiguidade apresenta exemplos marcantes de mulheres fatais. De imediato podemos lembrar duas delas entre os gregos, uma originária da épica e outra da tragédia: Helena e Medéia, dois perfis muito distintos. A primeira, esposa do chefe militar grego Menelau, famosa por sua beleza incomparável, foi raptada (ou melhor, deixou-se raptar) pelo troiano Páris, provocando uma guerra de dez anos que resultou em sérias perdas entre os gregos e na completa destruição de Tróia. Determinadas versões da continuação do mito dão conta de que posteriormente Helena e Menelau se reconciliaram.

Medéia, por sua vez, é traída por Jasão, que por ambição resolve abandoná-la para se casar com Creúza, filha de Creonte e princesa de Corinto, a fim de herdar o poder. Transbordando ódio, ela utiliza seus poderes mágicos para destruir tanto o ex-marido quanto Creonte, o rei arrogante que desejava expulsá-la da cidade-estado. Mata a princesa com um belo presente enfeitiçado e assassina seus dois filhos com Jasão. Indiretamente, deixa os dois homens que abominava numa espécie de morte em vida ao eliminar aqueles a quem mais amavam.

A mitologia dos gregos antigos é muito rica em mulheres fatais. As sereias, que entre eles eram metade mulher e metade pássaro, tornaram-se legendárias por enfeitiçar os homens com seu canto, fazendo com que os navegantes que passavam pelas imediações da ilha que habitavam se lançarem ao mar em direção a elas, morrendo afogados.

Na Orestéia, famosa trilogia de Ésquilo, após assassinar a própria mãe adúltera e seu amante, Orestes é acossado pelas erínias (“fúrias” entre os romanos), terríveis divindades femininas encarregadas de punir os crimes de sangue contra membros da própria família. Personificações da vingança, elas eram três: Tisífone (Castigo), Megera (Rancor) e Alecto (Interminável). Possuíam asas de morcego e cabelos de serpentes, e de seus olhos escorria sangue. Eram tão pavorosas que a tradição da tragédia grega registra que, durante as representações das peças de Ésquilo, seu aparecimento em cena fazia com que mulheres grávidas que assistiam ao espetáculo dessem à luz na platéia, em pleno teatro. Os homens em especial entravam em pânico à simples menção delas. Por sua marginalidade e necessidade de reconhecimento, acabaram aceitando aplacar sua sede de vingança sob os argumentos persuasivos da deusa Atena, transformando-se em “eumênides” ou “benfazejas” após o julgamento e absolvição de Orestes.


O remorso de Orestes (1862) – William-Adolphe Bouguereau

Já uma tradição greco-romana de origem oriental fala nas harpias, palavra que significa “arrebatadoras”. Nas primeiras versões do mito, eram representadas como seres sedutores, também meio mulher, meio pássaro. Posteriormente passaram a ser interpretadas como horríveis monstros alados que possuíam um rosto de mulher com feições horrorosas, além de garras afiadas e retorcidas. Raptavam os corpos dos mortos, sobretudo jovens, para usufruir de seu amor. Eram esculpidas e pintadas nos cemitérios, como se estivessem a espera de algum morto. Uma maldição fez com que o rei Fineu, da Trácia, fosse atormentado por esses monstros: faminto, iguarias eram colocadas na sua frente, mas elas eram arrebatadas pelas harpias, que inutilizavam com seus excrementos o que não conseguiam carregar. Também eram três: Aelo (Borrasca), Ocípite (Rápida no Vôo) e Celeno (Obscura).

Na tradição judaico-cristã, a mulher fatal também aparece em diversas variações. Os livros sagrados já se iniciam com a perda do paraíso e a queda da humanidade pela ação de Eva, que, sucumbindo à tentação da serpente, introduz o pecado e a morte no mundo. Tentando Adão, por meio de sua beleza e de seus dotes sexuais, a comer do fruto proibido, ela foi diretamente responsável pela queda do companheiro. E Deus pune a transgressão do casal primordial, condenando a mulher à dor durante os trabalhos de parto, bem como à submissão ao homem. Este, por sua vez, é sentenciado a ter de trabalhar penosamente para garantir o sustento da família.

Uma lenda judaica conta que Adão teria tido outra esposa antes de Eva. Se esta foi criada a partir da costela do primeiro homem, o que por si já significa subordinação a ele, Lilith foi feita com barro, tal como o companheiro, sendo, portanto, uma igual. Independente de Adão, Lilith o teria abandonado por incompatibilidade sexual, já que ele sempre praticava o sexo no papel de dominador, e ela não admitia a condição de submissão. Após sua partida, os anjos de Deus saem a sua procura, encontrando-a fazendo sexo com um demônio numa elevação junto ao Mar Vermelho.

Ainda no Antigo Testamento, outra figura encarna perfeitamente o arquétipo da mulher tentadora e destruidora. Trata-se de Dalila, que seduz o poderoso Sansão a ponto de fazê-lo revelar que o segredo de sua força extraordinária residia nos longos cabelos que ele cultivava. Assim, enquanto Sansão dormia, ela corta-lhe as madeixas, extinguindo-lhe o poder e fazendo com que ele caia em mãos inimigas.

Já no plano da história, a nobre egípcia Cleópatra é talvez a personalidade que melhor representa a mulher fatal, por reunir, em grande medida, ambição, poder de encantamento e capacidade de jogar com os favores sexuais. Aos 17 anos casou-se com o próprio irmão, Ptolomeu XII, herdeiro do trono. Mais tarde liderou uma rebelião contra ele, com o auxílio do imperador romano Júlio César. Após novo casamento com outro de seus irmãos, ela se envolveu com o próprio César, que a levou para Roma como sua esposa. No centro do império, Júlio César acabou sendo assassinado, o que provocou o retorno de Cleópatra ao Egito, onde se envolveu com outro imperador romano, Marco Antônio, de quem também se tornou esposa, readquirindo poder e influência. Com o tempo, as mudanças dos ventos políticos fizeram com que o casal se suicidasse para não cair nas mãos de seus inimigos.

O início do século XX, no contexto da Primeira Guerra Mundial, veria surgir outro ícone da mulher fatal: Mata Hari. A dançarina holandesa de traços exóticos que arrebatou a Europa, executando maneirismos de danças sagradas do Oriente, seduziu alguns dos homens mais poderosos da Belle Époque, envolvendo-se com chefes militares dos dois lados do conflito que iria explodir em 1914. Acusada de espionagem, Mata Hari foi executada na França por um pelotão de fuzilamento durante o último ano da guerra.

Desde seu início, o cinema irá explorar bastante o fascínio da femme fatale. Nas telas ela é quase sempre uma personagem ambígua que transita constantemente entre o bem e o mal. Seduz e atormenta o herói, bem como outros homens que se colocam no seu caminho, simultaneamente oferecendo-se e negando-se, o que os leva se tornarem obcecados e incapazes ações racionais, perdendo o controle de suas próprias vidas.

A primeira atriz a fazer fama como “devoradora de homens” foi Theda Bara (1885-1955). Com ela surgiu o termo “vamp”, um sinônimo que também faria história. Os títulos dos filmes protagonizados por Bara já dão uma idéia clara do tipo de personagem que ela encarnava com maestria: Escravo de uma paixão (1915), Pecado (1915), Coração de tigre (1917), Quando a mulher peca (1918), Mulher libertina (1924), Madame Mistério (1925).

Marlene Dietrich, em Anjo Azul (1930), interpreta a cantora Lola Lola, grande atração do cabaré homônimo do filme. No enredo, um severo professor descobre que seus alunos estavam freqüentando a casa, considerada por ele como um antro de perdição. Para puni-los, vai até o local a fim de surpreendê-los, mas acaba envolvido ele mesmo pela sensualidade da cantora, que, pouco a pouco, arruína-lhe a vida.

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Anjo Azul (1930), filme de Josef von Sternberg

Nos anos 1940, a voga do chamado filme noir aconteceu no contexto da liberação feminina durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Em seus enredos policiais com diferentes graus de suspense, envolvendo espionagem, assassinatos misteriosos, sociedades secretas, há quase sempre uma figura de mulher extremamente sensual, dúbia e freqüentemente cruel que por algum tempo controla o protagonista masculino e suga-lhe as energias. Em geral ela rejeita a vida conjugal à maneira burguesa e entrega-se a uma vida de completa independência. Freqüentemente aparece bebendo e fumando como um índice de sua natureza indomável. Alguns filmes noirs, os mais moralistas, costumam terminar com a morte violenta da mulher fatal, punindo-a pelas transgressões das normas sociais e restabelecendo a boa ordem burguesa.

Nas últimas décadas, o cinema comercial americano andou reatualizando o mito em personagens como Alex Forrest, de Atração fatal (1987), e Catherine Tramell, de Instinto selvagem (1992).

A cultura brasileira também apresenta interessantes figurações da mulher fatal. Muito especialmente nossas lendas e mitos retratam-na de variadas formas. Para ficar em apenas dois casos, um amazônico e outro nordestino, pode-se lembrar da Iara e da Alamoa. A Mãe d’Água é uma versão fluvial das sereias. Lindíssima figura feminina – meio mulher, meio peixe –, de vez em quando abandona as águas profundas para vir à tona e cantar belas canções nupciais em língua indígena. Os homens que a ouvem, ainda que não entendam o que ela diz, são vítimas de incontrolável encantamento, atirando-se nos rios profundos e morrendo afogados.

Já a Alamoa – palavra que é uma corruptela de “Alemoa” ou “Alemã” – faz parte da tradição da ilha de Fernando de Noronha e do litoral de Pernambuco, onde em realidade viveram holandeses no século XVII. Conta-se que nas noites de temporal, por volta da meia-noite, costuma aparecer nas praias uma bela figura de mulher, alta e loira, de olhos claros, dançando completamente nua na areia. Quando os homens atraídos por ela se aproximam, a Alamoa se transforma num monstro horrível e desaparece com eles, que nunca mais são vistos.

No candomblé, a entidade denominada Pomba-gira, companheira de Exu, é a protetora dos cassinos, dos prostíbulos e das mulheres, sendo uma personificação da sedução, da vaidade e do amor. Muito sensual, encanta os homens facilmente e resolve os mais intrincados problemas amorosos, envolvendo-se na vida das pessoas. É bastante generosa com quem a agrada e a respeita, mas se mostra extremamente vingativa com aqueles que a desafiam.

Na literatura brasileira, Machado de Assis talvez seja quem nos tenha legado a mais bem acabada personificação da mulher fatal: Capitu. Ao menos na forma como nos é apresentada por seu viúvo Bentinho, ela reúne todas qualidades do mito, em especial por causa de seus “olhos de ressaca”, “de cigana oblíqua e dissimulada”. Após sua morte, deixa o marido atormentado por dúvidas e suposições de que ela o teria traído com o melhor amigo.

Hoje a femme fatale segue marcando presença nas artes. Porém se verifica que ela tem ocupado bastante espaço no jogo social contemporâneo. Todos os dias ela pode ser vista na publicidade, na moda, nas revistas femininas e também nas masculinas, no fait divers dos jornais diários, na política. Muitas de suas características foram encampadas por um certo perfil de “mulher moderna” que vem se consagrando após os movimentos feministas dos anos 1960, recebendo enorme promoção por parte dos meios de comunicação, assim como da indústria e do comércio, que muito freqüentemente associam-na a suas mercadorias. O que é problemático nessa identificação, no entanto, é que a mulher fatal tem se realizado, para usar uma expressão cara aos moderninhos, apenas como uma atitude ready-made, uma fantasia pronta para se vestir. Daí as “ousadias” de encomenda, a independência vivenciada como egoísmo e competição com o companheiro, a postura varonil a imitar os piores equívocos masculinos. A mulher fatal, como se viu, é uma rara persona, vigorosa e sempre original em suas variações, capaz de sacudir meio perversamente toda a sociedade em seu entorno e de, por isso, fazer face às mais graves conseqüências. Ao ser transformada numa pose, numa receita de comportamento ao alcance de todas, o que se vê são figuras de um bonitinho padronizado e vazio, solitárias incapazes de estabelecer vínculos e muito menos de disseminar as paixões e tragédias que resultavam da grandeza esmagadora das grandes femmes fatales do mito e da história.

domingo, 11 de novembro de 2007

Corrente

A vida leva os que levam a vida.

Da obrigação de ser feliz

Adriano de Paula Rabelo


Quem assiste televisão, olha os outdoors que infestam as cidades, repara na avalanche de comerciais que soterram a nossa realidade ou comunga de certa filosofia do senso comum pregada pelos grandes meios de informação pode pensar, tal como Pangloss, que vivemos no melhor dos mundos possíveis. A todo momento somos expostos a imagens de gente – em geral jovem – sorrindo, vibrando, curtindo a vida adoidado, existindo no limite da adrenalina.

O totalitarismo mercadológico em que vivemos atualmente resultou na consagração desse bizarro fenômeno do gozo imperativo, sempre associado ao consumo de alguma quinquilharia, alguma forte sensação, algum símbolo de status. Para a doutrinação da massa consumidora, aí estão os publicitários, sumos sacerdotes do credo de que fora do mercado não há salvação. Portanto, “vá além”, “você pode”, “é isso aí”, “no limits”, “just do it”. Estão abolidas todas as angústias, tudo o que pode resultar em luto e melancolia.

Para além do espetáculo da sociedade chamada “de consumo”, no entanto, a vida prossegue muito mais humanizada com seu peso e seus desafios. Isso porque, é claro, em nossa constante projeção rumo ao futuro, nos defrontaremos sempre com a possibilidade do fracasso e do sofrimento e, no limite, com a inexorabilidade da morte. Óbvio que buscamos todos realizar em tempo e a contento os nossos projetos, mas a frustração de expectativas é inerente à própria condição humana. São a perda e a dor dela decorrentes que proporcionam maturidade e melhor aptidão perante as complexidades da existência.

Entretanto, na sociedade de consumo que se consagrou nas áreas urbanas do Ocidente, o que se vê são permanentes apelos ao narcisismo das pulsões mais infantis com o fito de se mobilizar a todos para a compra de determinados produtos e serviços. Com isso o conceito de cidadão vem sendo cada vez mais esvaziado em prol da consagração do consumidor. Um consumidor que se pode definir fundamentalmente como alguém que é obrigado a ser feliz.


Felicidade de propaganda


Sem discutir a lógica perversa do “pago, logo posso” que suprime limites e freios morais de certa casta dominante que se posiciona acima das leis e dos pressupostos básicos da cidadania, gostaria de me deter um pouco sobre essa ditadura da felicidade.

Aparentemente todos têm total liberdade de escolha quanto ao que fazer de suas vidas. Desde que aproveitem o máximo, desfrutem permanentemente dos acontecimentos, das pessoas e das coisas, em resumo, que não sofram jamais – parece estar implícito nessa filosofia de eternos meninões. Para isso, há fórmulas disponíveis para tudo o que se deseja ser e fazer, códigos sobre o que é ser bonito, o que é ser elegante, como se fazer amável, como se tornar um vencedor.

Este é um tempo que cultiva uma série horrores histéricos que, se possível, não devem ser sequer mencionados: a derrota, a solidão, o medo, o silêncio, o vazio, a imobilidade. Com isso, não admira que vivamos na época mais ansiosa e depressiva da história, já que não há psicologia que suporte por muito tempo a performance do júbilo constante.

A todo momento somos bombardeados pela idéia de que apenas com outro alguém, em geral a nossa cara-metade, podemos ser felizes. É preciso apaixonar-se, amar, se entregar o tempo todo. Mesmo a solidão reparadora e enriquecedora da individualidade costuma ser criticada como egoísmo ou fechamento.

A derrota é outro monstro contemporâneo. Todos têm necessariamente de ter objetivos claros e definidos, sempre relacionados à acumulação de capital, prestígio e bens; e realizá-los, chegando na frente dos “incompetentes” que ficam pelo caminho. Do contrário, lhes restará o escárnio e a segregação.

Enfim, todo mundo tem de possuir uma coleção de certezas, desempenhar ousadias pré-fabricadas, ser agitado, estar sempre envolto por algum ruído, preencher o tempo e o espaço, executar alguma tarefa “produtiva”. Principalmente, todos têm de ser felizes a toda hora, tal como no país das maravilhas da tv e do comércio.

Claro que não defendo o apego à escuridão, à melancolia, ao mau humor, à misantropia. Uma programática falta de entusiasmo com a vida seria tão estúpida quanto a felicidade compulsória. No entanto, não consigo imaginar um bem viver divorciado das experiências mais densas da existência, uma adrenalina desvinculada dos riscos inerentes a nossas escolhas, um orgasmo separado de uma mínima convergência de subjetividades, em suma, uma felicidade pela felicidade, desmotivada e fria. O lado agreste, misterioso e violento da vida, sempre presente dentro e fora de nossas individualidades, nos lança desafios e questionamentos a todo instante. Êxito, ousadia, conteúdo e movimento representam, de fato, encarar esse lado escuro com respeito e dignidade. Somente à possível felicidade daí decorrente se pode qualificar como autêntica.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Cerração

As doutrinas dispensam os olhos.

O nacional no global

Adriano de Paula Rabelo

O advento da era tecnocrática na segunda metade do século XX gerou este fenômeno que agora chamamos de globalização, cujos aspectos essenciais são uma série de dogmas nas esferas política e econômica: um neoliberalismo que preconiza o arrombamento das economias dos países subjugados em prol do vampirismo imperialista, a total liberdade de movimento para as grandes corporações e o capital especulativo (para os quais não existem fronteiras), o encolhimento irresponsável do Estado e a cassação dos direitos dos trabalhadores em benefício do livre mercado e dos extremos de opulência da plutocracia mundial, a prescrição de um único estilo de vida e modelo de civilização para todos os quadrantes da Terra, o monolitismo reacionário de pontos de vista por parte dos grandes meios de informação. Nessa conjuntura, o sufocamento a que os povos do mundo inteiro têm sido submetidos vem provocando um fortalecimento do nacionalismo, fenômeno que se manifesta sobretudo no âmbito cultural. A questão é bastante complexa e, como tudo, deve buscar se resolver através do encontro da justa medida.

Por um lado, a valorização de nossas tradições, de nossa cultura popular e do nosso modo de ser e lidar com a realidade jamais poderá admitir a desvalorização da cultura alheia ou o culto às rivalidades nacionais. Por outro, há que se ter bem claro que as grandes obras artísticas, as descobertas científicas que fazem a humanidade dar um salto para uma existência melhor, as invenções que aproximam as pessoas pertencem a todos os povos, a todas as culturas. Sem dúvida, a burrice é sempre nacional; a inteligência, o talento, a sensibilidade maior são sempre universais.

O escritor italiano Italo Calvino, analisando uma série de definições para o termo “clássico” na esfera da literatura, constata que as grandes obras “servem para entender quem somos e aonde chegamos e por isso os italianos são indispensáveis justamente para serem confrontados com os estrangeiros, e os estrangeiros são indispensáveis exatamente para serem confrontados com os italianos”. A esse propósito, vale lembrar que muito daquilo que de melhor a cultura brasileira tem produzido – movimento modernista, Cinema Novo, Bossa Nova, Tropicalismo – tem se realizado pelo diálogo criativo e a confrontação com as culturas estrangeiras.

Contudo, em grande parte o nacionalismo cultural preconiza uma oposição direta ao lixo da indústria cultural de massas, em especial o megavolume de porcarias da música, do cinema, da televisão, da literatura, do jornalismo, do esporte, das redes de comidas rápidas, das seitas protestantes, dos conceitos comerciais, da linguagem e da moda originárias dos Estados Unidos e que representam o pior da cultura americana.


EFCB – Estação de Ferro Central do Brasil (1950) – Tarsila do Amaral


Os meios de comunicação de massas têm assumido cada vez mais a condição de espaço público das sociedades globalizadas. Como tudo, muitas expressões culturais também vão se identificando como mercadoria e buscando na mídia o canal para seu consumo por parte da maioria da população. Para isso, os chamados “produtores culturais” não hesitam em fazer todas as concessões à baixeza e ao popularesco, inundando, por exemplo, a televisão, grande produtora de vigências do nosso tempo. Como resultado, a cultura erudita fica enclausurada em guetos acadêmicos e espaços elitizados nas cidades mais desenvolvidas, e a cultura popular se vê enfraquecida e identificada com os velhos e os marginais das periferias urbanas e zonas rurais. Não por acaso, tudo isso acontece em paralelo ao debilitamento de outros instrumentos de participação política, como os sindicatos, a imprensa pluralista, os partidos e os movimentos sociais.

O salutar diálogo com a cultura estrangeira está longe significar uma redução ao consumo da pasteurização americana. Muito teríamos dizer e a ouvir em intercâmbios com a América Latina, a África e o Oriente, especialmente. Muito teríamos também a dizer aos Estados Unidos e à Europa, e não somente a ouvir e a receber. E muito temos obviamente a nos enriquecer com o acervo cultural que vai além do descartável produzido por esses centros ocidentais.

O fenômeno do sufocamento globalizante atinge mesmo o centro da globalização. Os Estados Unidos são de uma homogeneidade cultural acachapante. E mesmo Estados mais tradicionais e estruturados não estão conseguindo deter a epidemia de mesmice que se alastra pelo mundo e que ameaça tornar-se crônica. Tanto que o delegado francês na reunião do GATT de 1993 disse melancolicamente em seu discurso: “A França pode deixar de produzir batatas e continuar sendo a França, mas se deixarmos de falar francês, de ter um cinema, um teatro e uma literatura própria, nos converteremos em mais um bairro de Chicago.”

Como enfrentar o monstro? Lutando por democracia efetiva através de ações que busquem quebrar o poder da elite tecnológico-econômica que detém os espaços decisórios. No caso do Brasil, a questão passa ainda pela conquista dos mais básicos direitos da cidadania, principalmente o de um sistema de educação pública de qualidade, pois um dos pilares dessa predominância avassaladora da cultura de massas é a decadência do ensino e o desconhecimento dos clássicos de nossa tradição artística e de pensamento. Políticas de Estado devem atuar em defesa das manifestações das culturas popular e erudita. E o espaço público deve ser revitalizado como lugar seguro e propício ao encontro entre as pessoas, ainda mais num país amplo e solar como o nosso. As praças, as ruas, os parques, os espaços públicos virtuais precisam retomar sua função de local onde se constrói uma intersubjetividade e um consenso livres que sejam a verdadeira voz da coletividade. E somente pelo viés da efetiva democracia o nacional e o global se complementarão com harmonia e verdade.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Novíssimo Testamento

Diz-me onde compras, e dir-te-ei quem és.

Quartetos do possível prazer de viver

Adriano de Paula Rabelo

Acabo de fechar o livro Rubáiyát, de Omar Kháyyám, que de vez em quando pego para ler e sempre termino em uma ou duas sentadas. Tenho a tradução de Octavio Tarquínio de Sousa, editada pela José Olympio em 1957. Toda a edição é excelente, com capa dura e papel de ótima qualidade. Cada poema é emoldurado com ornamentos típicos da cultura persa.

Kháyyám nasceu na Pérsia, hoje Irã, em 1048, tendo morrido em 1131. Além de poeta, foi matemático, filósofo e astrônomo. A palavra “rubáiyát”, em persa, significa “quartetos”, e esta é a forma de seus brevíssimos textos. Acredita-se que ele escreveu cerca de mil poemetos de quatro linhas. Sua releitura é, para mim, revitalizadora, não somente pela beleza dos versos mas também pela filosofia que apresentam.

É incrível como seus quartetos, ainda que recebidos em tradução de tradução ou mesmo em recriação de versões livres, mantêm a atualidade e a universalidade. O tempo todo Kháyyám faz uma constatação da precariedade da condição humana, do sem-sentido da vida e da incerteza de nosso destino, posicionando-se frontalmente contra as sabedorias convencionais e as migalhas das religiões. Por isso, reatualizando o tópico do carpe diem, de longa tradição na poesia ocidental, ele nos convida o tempo todo a viver intensamente o presente como forma de fazer face ao que Unamuno chamou de “sentimento trágico da vida”, aproximando-se inclusive da sabedoria de Sileno que costumava encerrar as tragédias gregas:


Se bebes um bom vinho, Kháyyám, és feliz * Se contemplas a tua fresca namorada, és feliz... * Se sonhas que não existes mais, és feliz, pois a morte... é o nada.


Ou ainda:


Toma a resolução de não mais contemplar o céu. * Cerca-te de belas raparigas e deixa que elas te acariciem. * Hesitas ainda? * Tens a tentação de orar a Deus? * Antes de ti, outros homens fizeram súplicas ardentes. * É certo que eles já partiram deste mundo, mas tu ignoras se Deus as escutou.


A morte é desencanto, crueldade, prosaísmo e grotesco diante dos quais todos – ricos e pobres, poderosos e humilhados – se igualam. Isso reforça a necessidade de se viver bem enquanto é possível:


Vi ontem um oleiro sentado diante do seu torno, modelando as alças e os contornos de uma urna. * O barro que ele amassava era feito de crânios de sultões e de mãos de mendigos.


Ou


A roda gira descuidosa dos cálculos dos sábios. * Renuncia à vaidade de contar os astros e medita antes sobre esta certeza: deves morrer, não sonharás mais e os vermes da terra ou os cães vagabundos devorarão o teu cadáver.


Quanto à religião especificamente, o agnosticismo do poeta é coerente com sua visão de um mundo no mínimo abandonado por Deus:


Outrora, quando eu freqüentava as mesquitas, não fazia orações, mas voltava a casa rico de esperanças. * Ainda hoje gosto de sentar-me nas mesquitas. * Nelas, a sombra é propícia ao sono.


Ou


Nas igrejas, nas sinagogas e nas mesquitas buscam refúgio os que temem o inferno. * Mas o homem que conhece os segredos de Deus não cultiva no seu coração as sementes do terror e da súplica.


Omar Kháyyám e seus rubáiyát


Diante do mistério insuperável da vida, pela qual nada temos a agradecer, só nos resta renunciar às escatologias, às grandes explicações, às esperanças e ilusões que se esforçam por dar sentido a um universo sem plano e sem finalidade:


Meu nascimento não trouxe nenhum proveito ao universo. * Minha morte não lhe diminuirá a imensidade nem a beleza. * Ninguém pode explicar-me por que vim, por que me vou embora.


Ou


O imenso mundo: um grão de areia perdido no espaço. * Toda a ciência dos homens: palavras. * Os povos, os animais e as flores dos sete climas: sombras. * O resultado de tua meditação: nada.


Mesmo o amor – que dá aos idealistas a ilusão de poder superar a morte e a brevidade da vida – é frágil e perecível, fechando o seu ciclo e acabando inexoravelmente:


Por que tanta suavidade, tanta ternura, no começo do nosso amor? * Por que tantos carinhos, tantas delícias depois? * E... por que hoje o teu único prazer é dilacerar o meu coração? * Por quê?


Ou


Recebi o golpe que esperava. * Abandonou-me a bem-amada. * Quando eu a possuía, era-me tão fácil desprezar o amor e exaltar todas as renúncias!... * Junto de tua amada, Kháyyám, como estavas só! * Sabes? * Ela se foi para que tu possas refugiar-te nela...


Por fim, no desencantamento universal, resta-nos o encanto das pequenas e frágeis belezas, que só podem ser apreendidas em sua fugacidade:


Mais uma aurora! * Como todas as manhãs, descubro hoje o esplendor do mundo e me aflijo por não poder render graças ao Criador dele... * Mas há tantas rosas que me consolo, e tantos lábios que se oferecem aos meus!... * Deixa tua cítara, ó minha bem-amada: os pássaros estão cantando...

Omar Kháyyám nos propõe que simplesmente vivamos, sem exaltar nem maldizer a existência, apenas aceitando-a em suas contingências, despreocupados da morte. Se é que Deus existe, Ele haverá de ter compaixão de nossa miserável condição e perdoar as nossas fraquezas, pois, como alguém já disse, essa é a Sua profissão. Portanto, apresentando uma concepção religiosa – ou a-religiosa – muito distante das vertentes populares de todos os credos, o poeta também não se mostra um ateu. Apenas está convencido de que forças divinas não intervêm neste mundo e não acredita num Juízo Final nem em punições e recompensas após a morte. Para ele, as leis da natureza, que é indiferente aos dramas humanos, é que explicam os fenômenos da vida. Será que não viveríamos com muito mais paz e harmonia se, como Kháyyám, nos livrássemos de todos esses fardos da religião, do sufocamento das grandes sabedorias, da cobiça por ser ou ter sempre mais?

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Trovões

A Coca-cola é o prelúdio do arroto.

Conga, Kichute e Bamba

Adriano de Paula Rabelo


De vez em quando, passeando pelo passado, não resisto a escrever alguma crônica de memória. Não sou saudosista nem tenho qualquer simpatia pela postura nostálgica e retrô. Como tudo, a vida segue para frente. Meu olhar para o passado é simplesmente uma busca por dar sentido ao presente, criticá-lo, elogiá-lo, rir dele, compreendê-lo.

Ontem à noite, coloquei para tocar o disco Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, lançado em 1972. Enquanto ouvia as canções desse clássico da MPB, fiquei por algum tempo contemplando a capa, que estampa dois meninos muito parecidos com os cantores – um negro como Milton Nascimento e outro branco, a cara de Lô Borges. Ambos estão sentados num chão de terra batida, numa paisagem interiorana e mesmo rural. Logo atrás se vêem um mato, um grosso tronco de árvore e um fio de arame farpado que atravessa a cena. Os garotos estão sujinhos, vestem roupas meio esfarrapadas e fazem pose de grandes parceiros de travessuras. Um está descalço, e o outro, o negro, traz nos pés um indefectível e surrado Conga azul. Esse calçado é que, como verdadeira madeleine, desencadeou em mim todo um processo proustiano de memória. “Podomemórias”, algum aficcionado de neologismos poderia dizer.

Fui menino interiorano durante os anos 70 do século passado. Recordo-me de que, como para toda a minha geração, três espécies de tênis compuseram a história de meus pés durante a infância: Conga, Kichute e Bamba. Os três eram horrorosos mas baratos e duráveis. Desapareceram no início dos anos 80, com o surgimento dos tênis aeróbicos, mais confortáveis, mais bonitos, com desenhos, cores e formas variadas, acessíveis e multiuso.

O Conga parecia um sapo. Levíssimo, de borracha e lona, ambas finas e pouco resistentes. Havia duas opções: ou todo branco ou azul com sola e ponta branca. Era o mais barato e mais ordinário dos três. Usei-o bastante para passear, ir para a escola, jogar bola.


Capa de Clube da Esquina (1972), de Milton Nascimento e Lô Borges


O Kichute, por sua vez, era todo preto, de lona mais grossa e resistente, sola e bico de borracha, grandes travas quadradas e longos cadarços com os quais se dava um laço logo acima do tornozelo ou uma volta por baixo da sola. Havia quem cortasse os cadarços para pudessem ser amarrados normalmente. E havia quem engraxasse as partes de borracha do calçado, para exibi-lo bem lustroso na escola. Todo fechado, escuro e usado indiscriminadamente, não raro acumulava suor dos pés e passava a exalar um cheirinho pouco convidativo. Duravam muito – um ano e meio a dois anos –, ainda que utilizado dia após dia para o futebol em campinhos de terra.

Já o Bamba era caracterizado como “monobloco”, já que sola, ponta e calcanhar compunham uma única peça de borracha branca, sem travas. O resto também era feito de lona muito resistente. Lembro que havia umas duas ou três variações de cores, mas o mais popular era o Bamba todo branco. Machucava muito no início e levava algum tempo para amaciar. Eram ótimos para o futebol de salão nas aulas de educação física, pois a ponta de borracha era dura e excelente para os chutes fortes de bico. Se não me engano, era do Bamba uma propaganda de televisão em que um carro perdia os freios, e o motorista – calçado de Bamba, claro – freava o veículo com o pé esquerdo no chão, a poucos centímetros de um desfiladeiro!

Quando se chegava na escola com algum desses tênis recém-comprados, usados ali pela primeira vez, quase todos os colegas vinham “estreá-lo”, ou seja, pisavam em cima deles e os sujavam. E ai de quem reclamasse ou se indispusesse contra os que faziam isso. Era derrubado no chão e vítima de um “bolinho”, quando todos os outros garotos saltavam-lhe em cima, formando sobre ele um amontoado humano. Não só o tênis, mas toda roupa lhe ficava suja, além da possibilidade de alguns arranhões e hematomas.

Verdadeiros heróis da resistência, Conga, Kichute e Bamba suportavam até mesmo peladas no pátio de cimento da escola, na hora do recreio, com pedras, tampinhas de garrafa ou um fruto duro e redondo chamado lobeira, que nunca mais vi.

Fui um menino provinciano. Não sei se nas cidades grandes os garotos da minha geração viveram essas mesmas experiências com esses calçados que hoje parecem ter existido não décadas atrás, mas há centenas de anos, tão completamente desaparecidos eles foram.

Os anos correram, vieram a adolescência e a idade adulta. Outros calçados – mais bonitos, mais caros e menos duráveis – fizeram a história de meus pés. Foram-se os calçados, ficaram os pés. Assim como passou a cidade pequena de interior, vieram as metrópoles importantes, outros países, outras experiências, mais complexidade, os pesos da vida... Certa vez, conversando com um amigo paulistano num bar da avenida Paulista, este símbolo brasileiro do cosmopolitismo, disse-lhe que continuo sendo, para sempre, para meu bem e meu mal, apenas um menino do interior de Minas.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Caldeirão

O maior delito do homem é ter nascido no Brasil.

Qual democracia?

Adriano de Paula Rabelo


Winston Churchill dizia que “a democracia é a pior forma de governo, excetuando-se todas a demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. De fato, a despeito de todos os seus enormes defeitos, do rebaixamento geral que ela proporciona e de todas as possibilidades de ascensão que ela abre para os maiores energúmenos, ainda assim nada se criou como alternativa viável para o regime democrático.

Onde a democracia é suprimida, a história é sempre a mesma: o governo é tomado de assalto por uma oligarquia que tudo decide sem dar nenhuma satisfação aos desprivilegiados e sem admitir qualquer visão alternativa da administração do bem público e das pessoas que não seja a sua própria. Na democracia, as oligarquias continuam no poder, já que estabelecem as regras e a prática relacionadas a quem de fato pode assumir os cargos políticos – além de possuírem e controlarem os meios de persuasão –, mas têm de se haver constantemente com aqueles que legitimaram seu poder através do voto. Assim, elas se defrontarão o tempo todo com as mazelas da plebe e serão pressionadas a lhes dar uma resposta, o que quase sempre resultará em repressão ou paliativos.

Até aqui tratamos do aspecto meramente formal da democracia, que se expressa nas eleições, no voto e no governo representativo. No entanto, a experiência nos mostra de forma evidente que a simples salvaguarda dos processos democráticos formais não basta para garantir um mínimo de justiça social e um Estado minimamente eficaz como verdadeiro guardião dos direitos da cidadania. Portanto, já passa da hora de se estabelecer uma melhor definição para o termo.

Se o regime democrático, numa definição aperfeiçoada, é aquele em que os direitos humanos estão garantidos antes pela práxis da sociedade que pelas leis, em que todos os cidadãos possuem um mínimo de condições materiais, de educação e de saúde para poderem desenvolver suas potencialidades, em que os vampiros do Estado são punidos com rigor e inflexibilidade, pode-se concluir que uma sociedade como a brasileira jamais foi democrática em nenhum momento de sua história.

Como se poderá falar em democracia no Brasil após um simples passeio pela periferia de nossas grandes e médias cidades? E em face do distinto peso das leis conforme a condição econômico-social daqueles que as violam? E diante da manipulação da vontade das massas pelos grandes veículos de comunicação?


A Liberdade conduzindo o povo (1830) – Eugène Delacroix

Atualmente, discute-se muito o papel da educação como panacéia para a resolução de todas as iniqüidades nacionais. Em geral, quando se fala nisso, a idéia se reduz apenas à máxima inclusão da população, em especial crianças e adolescentes, no sistema escolar. Com todo mundo atravessando a escola ao menos do primário ao ensino médio, ampliando-se como for possível o acesso dos recém-adultos à universidade, acredita-se que o país caminhará a passos largos para o desenvolvimento e que os miseráveis serão redimidos pela inclusão social. Estatísticas e exemplos de países asiáticos – evadidos de suas circunstâncias históricas e das reformas sociais que promoveram – sempre vêm à tona em apoio dessa idéia.

Sem deixar de reconhecer o papel fundamental da educação como forma de se pavimentar o caminho para a democracia, acredito que o argumento da educação-panacéia é míope e desfocado. Em primeiro lugar porque só se fala na extensão das possibilidades de escolarização, pouco ou nada se discutindo a qualidade do ensino a ser oferecido e a relevância de seus conteúdos no mundo contemporâneo. Em segundo lugar – e este é o ponto crucial –, um sistema de educação extensivo e de boa qualidade não é a maior conquista a ser obtida pela sociedade brasileira para que ela comece enfim a se democratizar. Muito mais importante e urgente é se pensar em políticas que possibilitem uma radical melhora na distribuição de renda. Curiosamente este ponto é pouquíssimo citado e discutido como aspecto democratizador.

Onde estão as políticas de inclusão da juventude no mercado de trabalho? Ou de elevação do nosso vergonhoso salário mínimo? Ou os incentivos para que pequenas e médias empresas se instalem em localidades com altos índices de desemprego? E o aumento da carga tributária sobre os mais ricos, acompanhado de sua diminuição entre os mais pobres? Como a maioria da população brasileira poderá adquirir de fato a condição de cidadania sem um padrão econômico mínimo para a dignidade humana? Como o descalabro de violência, destruição ambiental e degradação do nível de vida a que chegamos poderá ser revertido se não se modificar nossa brutal concentração das riquezas? Por que não se tornar a corrupção um crime hediondo e inafiançável, com penas correspondentes àquelas prescritas para homicídio doloso, já que sem dúvida escroques da laia de um Paulo Maluf ou um Jader Barbalho são criminosos que causam muito mais danos à sociedade que um assaltante, traficante ou seqüestrador de periferia?

Claro que todos esses anseios situam-se no plano da utopia. O próprio James Madison, um dos mais reverenciados ideólogos da democracia americana, considerava que a principal responsabilidade do governo é “proteger a minoria opulenta da maioria”. E de fato até hoje esse tem sido o princípio que vem orientando o sistema democrático limitado às formalidades. Daí esse fosso gigantesco que se criou entre as preferências do público e as políticas públicas. Daí os governos completamente divorciados da vontade das maiorias, cujo papel se resume a simplesmente comparecer às urnas de tempos em tempos para legitimá-los.

As estruturas de dominação, porém, são criações humanas e podem ser desmontadas. Somente a organização e mobilização dos desprivilegiados, ou seja, o fortalecimento dos movimentos sociais e entidades da sociedade civil, será capaz de transformar esse quadro. O caos em que vivemos pode estar prestes a fazer com que a sociedade entre em colapso e explodam revoltas de gravíssimas conseqüências. Quem sabe inclusive – como no movimento de 1789, na França – algumas cabeças graúdas não venham a rolar?

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Velha

A juventude: a mais antiga das entidades.

Etimologia dos apelidos

Adriano de Paula Rabelo


Sérgio Buarque de Holanda interpretou o brasileiro como um “homem cordial”, aquele que age pelo coração, que se sente muito pouco à vontade em situações que exigem formalismo e distanciamento. Por isso teríamos enorme dificuldade em montar um Estado eficiente, realizando de modo mais aprimorado os valores da vida pública. Em contrapartida, distinguimo-nos pelo desenvolvimento dos valores da família e das relações interpessoais. Nesse contexto, uma das expressões mais características de nosso modo de ser é a tendência não somente à omissão do nome de família no tratamento social e mesmo na vida pública, mas muitas vezes o emprego desenfreado de apelidos. Estes são talvez a expressão mais profunda de nosso constante movimento para abolir distâncias e formalismos no trato social.

Numa Copa do Mundo, por exemplo, nossos jogadores são os únicos que exibem para o todo o planeta, inscritos em suas camisas, os nomes pelos quais são conhecidos, quase sempre apelidos ou o primeiro nome. Até mesmo Lula, o atual presidente da República, mesmo em determinados cerimoniais é chamado pelo apelido com o qual construiu sua carreira na política. O maior herói brasileiro, Tiradentes, celebrizou-se através do apelido. E mesmo os santos da tradição católica são tratados no diminutivo, como Santa Terezinha; ou aproximados no mínimo por meio de um possessivo, como “minha Nossa Senhora”. Quem nunca se deparou com o cúmulo de ouvir alguém fazer invocações a “meu Jesus Cristinho”?

Ainda está por ser feito todo um amplo estudo sociológico sobre o apelido na cultura brasileira. Nenhum de nós atravessou a vida familiar, a escolarização, os campos de futebol ou os salões de beleza sem um apelido. Pelo interior do país há até mesmo certas cidades que chegam ao fastígio de editar sua lista telefônica não com os nomes de cartório dos assinantes, mas com seus apelidos.

Em geral esses nomes que fundamentam a identidade social profunda das pessoas no Brasil vêm da infância, estão muito relacionados a aspectos culturais de cada região e podem mesmo variar de lugar para lugar e de tempos em tempos. Assim, um indivíduo poderá ter um apelido em família, outro entre seus amigos, outro no ambiente de trabalho e ainda outro no trato conjugal. Pode ter tido um apelido durante a infância ou a adolescência que foi se perdendo ou se modificando com o tempo, na medida em que suas relações sociais foram se alterando. Há quem se identifique de forma tão profunda com um apelido que praticamente desliga-se do nome verdadeiro, seja por não gostar deste, seja por uma natural sobreposição daquele pelo uso constante.


Amácio Mazzaroppi em As aventuras de Pedro Malasartes (1959)


O fenômeno é tão marcante no Brasil que muitas de nossas figuras lendárias e assombrações celebrizaram-se através de seus apelidos: Pedro Malasartes, João Grilo, Cuca, Papa-Figo, Barba Ruiva, Romãozinho, Cabeça-de-Cuia, Corpo Seco, Mão-de-Cabelo.

Já no âmbito de nossa construção social, um dos principais formadores de apelido é o diminutivo, que normalmente possui uma conotação carinhosa. Daí tantas Glorinhas, Vaninhas, Paulinhos, Marcinhos, Cicinhos. A redução de nomes próprios, quase sempre centrada na sílaba tônica, também é muito recorrente: Guga, Zeca, Tôim, Lu, Vi, Digo, Lena, Bia. E também a repetição de sílabas com veementes vogais tônicas: Lilico, Leleco, Cacá, Bibi, Lili, Dedé. Esses os apelidos derivados diretamente dos nomes próprios.

Já os apodos, num sentido mais estrito, estabelecem uma comparação espirituosa ou ultrajante em função de alguma característica física ou moral. São muito comuns em nossas ruas, botecos e praças, não possuindo uma clara regra de formação. Todavia, freqüentemente recorrem ao mundo natural, transferindo para as pessoas os nomes de animais, frutas, legumes e fenômenos. Daí os inúmeros Ratos, Jibóias, Bananas, Batatas, Cebolas e Trovões do mundo popular. Na adolescência, me lembro de haver jogado num time de futebol que tinha, ao mesmo tempo, no esquadrão titular, um Ratinho, um Jacaré, um Vaca e um Canário. Em outras ocasiões, cheguei a jogar com um Calango e um Barata!

Os defeitos ou ao menos os aspectos físicos mais destacados inevitavelmente fazem proliferar apelidos como Dentinho, Bola, Mancha, Tampinha, Bocão, Cabelo, Prancha, Ferrugem, Gamela, Fofão... Certa vez conheci um certo Umbigo, não me lembro por quê; e um certo Alfinete, alto e magrelão.

E aqueles que são parecidos com personalidades famosas não escaparão de que elas os persigam involuntariamente na ferina língua do povo. Houve um tempo em que todo negro era chamado de Pelé. Mais recentemente muitos barbudos passaram a ser Bin Laden. Me lembro de um colega de colégio que tinha o santo apelido de São Francisco, às vezes Carinha de São Francisco. Absolutamente perfeito, pois a semelhança era tamanha que, dizíamos, quando ele saía na rua os passarinhos lhe pousavam no ombro.

Por fim, apenas mais três processos de formação de apelido mais comuns no Brasil: o decorrente da profissão do sujeito (Mané Carreteiro, Maria Doceira, Juca Pintor); aquele de teor étnico, às vezes com uma pincelada de racismo (Azul ou Alemão, para negros; Leitinho ou novamente Alemão, para louros; Japonês, para qualquer um de olhos puxados; Judeu, para avarentos); e os de teor comportamental (Matraca, para pessoa muito falante; Bíblia, para protestantes).

O apelido é talvez a expressão maior de nossa tendência ao informalismo e à máxima aproximação com o outro, ainda que as barreiras sociais sejam quebradas através do singular costume brasileiro de rir dos defeitos físicos e morais próprios e alheios. Há quem veja com bons olhos essa nossa idiossincrasia, uma das marcas mais vigorosas de nossa singularidade, de nossa falta de sisudez; e há quem a deteste e a condene. De todo modo, o importante é ter sempre presente que o apelido tem seu lugar, sua hora e determinado grupo de pessoas autorizadas a utilizá-lo. Mesmo a entonação em que ele é pronunciado denuncia a intenção carinhosa, simplesmente jocosa ou ultrajante de quem o emite, provocando reações específicas por parte de quem o recebe. Quando se fizer um amplo estudo sociológico de seus usos, muito será revelado sobre quem são os brasileiros.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Leviatã

O Estado é um estado.

Vetusta juventude

Adriano de Paula Rabelo


Décadas atrás, um grupo de arqueólogos encontrou, na região da antiga Mesopotâmia, hoje Iraque, uma placa de pedra do século III a.C. com a seguinte inscrição: “O adolescente considera tudo o que é mais antigo do que ele como arcaico e obsoleto. Ao passo que tudo seu é novo e criativo, algo que sem dúvida dará certo. Essa praga só pensa em sexo e contestação.”

Rolaram-se os séculos, e os adolescentes nunca foram levados muito a sério, sendo deixados para amadurecer – sob os auspícios do dinheiro dos pais – em decorrência de muitas tolices cometidas daí até os vinte e poucos anos, no máximo, quando se casavam, adquiriam ares circunspectos e iam tocar a vida como respeitáveis pais de família.

Dois mil e trezentos anos depois, a obtusidade juvenil continua a mesma. Porém, vivemos um fenômeno inédito na história da cultura: agora são os adultos, e mesmo os velhos, que estão se convertendo à adolescência.

Em nossa época, ser jovem se tornou um imperativo. Com isso a maturidade e a velhice, antes sinônimos de serenidade e sabedoria, nunca conheceram tamanho desprestígio. Pais e filhos se comportam como colegas de geração em aventuras de mocidade, indivíduos já grisalhos exibem-se socialmente na companhia amantes semi-adolescentes, senhoras e senhores à beira dos cinqüenta anos submetem-se a cirurgias plásticas e tratamentos que lhes extirpem rugas e cabelos brancos, anciãos se vestem à moda dos astros de rock. No embalo da onda jovem, a indústria lança toda sorte de mercadoria associada ao “frescor”, à “radicalidade”, ao “vigor”, à “renovação”, à “esportividade” que geralmente se associam à cultura juvenil.

Há que se reconhecer que as melhorias das condições de vida e os avanços das técnicas para se cuidar do corpo modificaram as referências etárias. Se Balzac fosse nosso contemporâneo, sua famosa mulher de trinta anos teria hoje uns quarenta e cinco, talvez cinqüenta. Há que se reconhecer ainda que a passagem do tempo realmente não deve significar uma progressiva retirada da vida social e produtiva para os confins dos quartinhos nos fundos das casas dos filhos, levando-se uma existência estagnada, plena de achaques, entregando-se à nostalgia e à melancolia. Porém uma vida alternativa a essa pasmaceira está longe de passar pela integração acrítica ao mundo adolescente. A indefinição de papéis, o esvaziamento da experiência, o anacronismo dos comportamentos freqüentemente descambam para o grotesco e o ridículo.


A inépcia da idade valorizada


A mim me parece que as veleidades juvenis incompatíveis com senhoras e senhores cujas idades tradicionalmente os qualificariam para a maturidade constituem muito mais uma pose, uma atitude prêt-à-porter numa época que supervaloriza a juventude. E o que se evidencia nessa supervalorização é uma entidade supostamente em plena disponibilidade para o gozo permanente, quase sempre associado ao consumo roupas, cremes, acessórios e estilos de vida que compõem a receita para ser jovem. Aceita essa alienação, tanto por parte de indivíduos de escassa experiência como por parte de seus imitadores de idade mais avançada, nada mais se vislumbra além da velha estagnação, em geral enfrentada à base do consumismo. Onde se perderam os impulsos criativos e a ação contestatória dos jovens, agora engajados apenas em lutas de feição individual, no máximo familiar? Onde foi parar a profunda significação da experiência e da memória como fundamentos de uma intersubjetividade que proporcionava coesão social e sentido para as lutas de caráter político?

O desprezo pelo passado e a indiferença pelo futuro estão diretamente relacionados ao esvaziamento do presente. Nesse transcurso sem utopias nem valores universais, em que cada um pretende utilizar a relatividade das coisas em seu próprio favor, o vácuo existencial tem sido enfrentado, em geral, através da ilusão da eterna juventude. Que sentido terá a busca de caminhos na barafunda contemporânea sem a iluminação da lucidez, da ponderação e do conhecimento vivido pelas pessoas maduras? Sob todos os aspectos, esta cultura da juventude compulsória é tão esclerosada quanto seria a de uma civilização enrijecida que sacralizasse a velhice e nos coagisse a todos para que assumíssemos a pose de velhotes venerandos como um valor em si mesmo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Parlamentaríssimo

A língua transborda numa reunião de mulheres.

Falar brasileiro, escrever português

Adriano de Paula Rabelo


A certa altura da famosa rapsódia de Mário de Andrade, seu Macunaíma menciona a existência de duas línguas utilizadas paralelamente no país: o brasileiro falado e o português escrito. Lá se vão quase oitenta anos desde a publicação das peripécias do herói sem nenhum caráter, e a distorção apontada por ele permanece intacta como um dos mais graves instrumentos de preconceito e segregação social.

Como no Brasil tudo muda apenas para permanecer como sempre foi, está para entrar em vigor, no início do ano que vem, mais uma reforma ortográfica de nossa língua, a quarta em menos de cem anos. A justificativa desta vez é a unificação da escrita em oito países que falam “português”.

Tramada por diplomatas no âmbito de uma insignificante organização denominada Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a reforma que nos será impingida desconsidera alguns aspectos fundamentais: falamos uma língua estruturalmente diferente do idioma dos portugueses, mais de 80% dos falantes chamados “lusófonos” vivem no Brasil, nos países africanos e asiáticos que têm o português como língua oficial somente uma diminuta elite realmente o conhece e o emprega, o quinto idioma mais falado no mundo é este utilizado diariamente por cerca de 200 milhões de brasileiros. Nessas circunstâncias, reformar nossa ortografia para ajustá-la à língua de nações extremamente distintas da nossa soa como uma inaceitável capitulação cultural, ainda mais pelo fato de tal reforma servir muito mais a interesses portugueses.

Já no início do século passado, o filólogo e historiador João Ribeiro escrevia estas palavras atualíssimas: “A nossa gramática não pode ser inteiramente a mesma dos portugueses. As diferenciações regionais reclamam estilo e método diversos. A verdade é que, corrigindo-nos, estamos de fato a mutilar idéias e sentimentos que nos são pessoais. Já não é a língua que apuramos, é o nosso espírito que sujeitamos a servilismo inexplicável. Falar diferentemente não é falar errado. A fisionomia dos filhos não é a aberração teratológica da fisionomia paterna. Na linguagem como na natureza, não há igualdades absolutas; não há, pois, expressões diferentes que não correspondam também a idéias ou a sentimentos diferentes. Trocar um vocábulo, uma inflexão nossa por outra de Coimbra é alterar o valor de ambos a preço de uniformidades artificiosas e enganadoras.”

Há alguns anos temos assistido a uma invasão dos meios de comunicação por professores de português apresentando programinhas normativistas em que os usos lingüísticos caracteristicamente brasileiros são vilipendiados. Tais “mestres”, que parecem jamais ter tido aulas de Lingüística em seus cursos de Letras, preconizam como única vertente válida uma língua inexistente, virtual, com muitas doses de arcaísmo, lusismo e beletrismo. O problema é que essa língua por eles preconizada – jamais falada em lugar algum – tem sido um dos mais eficientes instrumentos de separação e distinção de classes no Brasil, um dos principais suportes da manutenção de nosso status quo e sua iniqüidade recorde. Ela é produto de uma ideologia lingüística que desqualifica a cultura popular e os falares de determinadas regiões do país em nome do prestígio de um único modo de viver e de uma única visão de mundo. Daí ouvirmos com freqüência, em geral por parte de quem não tem voz em nossa sociedade, tolices colossais do tipo “Português é muito difícil”, “Não sei português”, “Não entendi o que ele disse, mas como falou bonito!”.


Macunaíma (1982) – Aldemir Martins


Essa reforma ortográfica, como tantas coisas no Brasil, se fará de forma autoritária, elitista e colonizada. Seria interessante se pensar numa reforma ortográfica que nos permitisse escrever como brasileiros, que aproximasse a escrita dos usos efetivos língua brasileira, levando em especial consideração sua sintaxe e sua fonética, rompendo definitivamente com o idioma dos portugueses – que tem uma destinação histórica distinta e sustenta uma cultura muito diversa da nossa.

Outro aspecto nunca mencionado nas políticas lingüísticas é o da qualidade do ensino. Enquanto a escola pública permanecer esse lixo que conhecemos, enquanto seus currículos continuarem teóricos demais, distanciados da realidade do país e alheios à diversidade que caracteriza a sociedade contemporânea, enquanto os professores continuarem ensinando esse “português” virtual, o ensino da língua fracassará.

Esta quarta reforma ortográfica em cerca de noventa anos vem aí para nos infernizar a vida, desatualizar da noite para o dia nosso patrimônio escrito, espalhar ainda mais confusão nesse pindorama onde a comunicação entre as pessoas já vai tão mal.

Dá para se prever que dentro de mais algumas décadas lá virão os burocratas reformar a ortografia mais uma vez. Obviamente o povo mal escolarizado, os adolescentes interneteiros e os jovens criadores de modas lingüísticas continuarão escrevendo fora de qualquer padrão imposto por lei, mas conforme sua intuição de como se fazer entender apropriadamente. E os escritores que verdadeiramente vão além do “instinto de nacionalidade” – para usar os termos clássicos de Machado de Assis –, possuindo “sentimento íntimo” do país e estilo próprio, continuarão transbordando os limites da ortografia do “português”.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Alarme

O relógio, esse medidor da morte.

A velha nova mulher

Adriano de Paula Rabelo


No último fim de semana, num salão, enquanto esperava vez para cortar o cabelo, coloquei a mão no cesto de revistas típicas nesses estabelecimentos e puxei uma delas a esmo. Tratava-se de Nova. O título da publicação já é bastante programático: pretende-se apresentar – e ter como público-alvo – a mulher dos novos tempos, sintonizada com todas as liberdades e emancipações pós-revolução sexual. Entretanto, pelo que as páginas da revista oferecem, me pareceu que a nova mulher de Nova é apenas a reatualização de uma senhora velhíssima e esclerosada já bastante conhecida de todos na sociedade patriarcal. Apenas seus comportamentos “ousados” seriam supostamente mais adequados aos tempos contemporâneos.

Lá estão os temas e seções clássicos desse tipo de revista: sexo, amor, beleza, moda, saúde, aconselhamento, etiqueta, decoração, trabalho, horóscopo, culinária, cartas das leitoras. E a linguagem meio coloquial, carregada de imperativos sugestivos e pretensos “femininismos”. Os testemunhos pessoais e o parecer incontestável de especialistas também lá estão para garantir a identificação da leitora e sua persuasão.

Pode-se constatar, pelo conteúdo dos textos, uma proposta básica de que a mulher atual deve se modernizar, abandonando o âmbito doméstico e ganhando o mundo, trabalhando fora e exercitando seu direito ao máximo de prazer. A mulher tradicional e submissa ao marido é transfigurada, tornando-se autônoma, sensual, dinâmica, alguém que sabe o que quer. O sexo associado à reprodução é substituído pelo sexo como fonte de inefáveis delícias, estando agora associado à obrigação de gozar.


Escravas da fórmula de mulher


Pelo que se pode depreender, no entanto, o fulcro da existência da nova mulher de Nova continua sendo o seu homem, aquele que deve ser conquistado ou mantido através de determinados procedimentos de sedução, de surpresas para apimentar o cotidiano, de tratamentos de beleza e organização do ambiente que alimentem o desejo e o interesse masculino. Assim, essa nova mulher não mudou em sua essência, permanecendo um ser-para-o-seu-homem. A despeito da ditadura do prazer a qualquer custo, que a leva mesmo à “ousadia” dos relacionamentos fortuitos, ela parece agir diante de um pano de fundo romântico em que a realização maior é o grande amor, a chegada do homem com quem enfim encontrará a plenitude, seja transitória, seja permanente.

Claro que a revista feminina não é a criadora da mulher que preconiza. Seu corpo editorial apenas detecta tendências em voga e organiza um sistema de prescrições sobre como ser a mulher “moderna”, transformando-a num produto comercialmente bem sucedido que tem como público consumidor justamente aquelas que se identificam com seu ideário.

Mas não somente nas revistas femininas podem ser encontrados os avatares da nova mulher. Eles estão, por exemplo, nas novelas, nas canções popularescas e nos filminhos digestivos nos quais uma figura feminina bela, atualizada, dinâmica, “independente”, arrojada e sensual tem como finalidade última de sua existência agradar seu parceiro através de sua aparência e seu comportamento. Se as mulheres consideradas modernas – autoproclamadas herdeiras máximas dos movimentos de emancipação ocorridos no século passado – são isso aí, resta-lhes agora uma emancipação talvez mais difícil que a do jugo patriarcalista: falta-lhes se emanciparem de si mesmas.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Empurra

A sociedade são os outros.

Ginecófago e misógino

Adriano de Paula Rabelo

Nesta terra de apaixonados e veementes, considero que nossos melhores representantes são os radicais, os que vão ao fundo das coisas ou tocam os extremos da vida. Há vários anos encontrei, na cidade de São Paulo, duas figuras cujas personalidades se localizavam em dois extremos opostos mas talvez curiosamente próximos.

Quando conheci Sérgio e Anselmo, ambos já andavam lá pelos seus quarenta e tantos anos. Todas as tardes de sábado os encontrava nas quadras de futebol de salão da universidade, onde uma turma de uns vinte a trinta jogadores se reunia para o esporte de fim de semana. Enquanto dois times de cinco jogavam, duas ou três outras equipes aguardavam sua vez do lado de fora. Essa espera sempre foi tão fascinante quanto o próprio jogo. Enquanto os de fora ficavam na expectativa de entrar em quadra, a conversa corria solta, ocasião em que vinham à tona as mais esdrúxulas filosofias, as histórias mais pitorescas, o humorismo mais brasileiro. Nessas sessões da tarde, ficamos conhecendo as histórias e o pensamento vivo das duas figuras excepcionais de que tratarei aqui.

Sérgio vivia assombrando a todos com seu recorde excepcional e insuperável: conforme sua contabilidade, já havia ido para a cama com nada menos que 1778 mulheres. Os mais impressionados com esse número astronômico faziam as contas: caso nosso Casanova levasse para a cama uma única mulher por dia, sem repetir nenhuma, levaria quase cinco anos ininterruptos para completar suas 1778 parceiras sexuais. Todo o grupo ficava de queixo caído. Se somássemos os números de todos os quase trinta colegas ali presentes, não chegaríamos nem à metade desse incrível montante. Nem o sublime Pelé, com seus 1281 gols, conseguiu assinalar tantos “tentos” quanto Sérgio.

A reação inicial de todo mundo era de incredulidade. Porém nosso Valmont paulistano afirmou que tinha como comprovar seu recorde. Passados alguns dias, ele nos chega com pilhas de álbuns de fotografias em que registrara suas aventuras ao longo da vida. Sérgio, que durante a juventude tinha boa situação econômica e disponibilidade para as conquistas, dedicou a vida a estar com uma sucessão inconcebível de mulheres de todo tipo durante os anos 60 e 70, quando a aids ainda não existia. A rua Augusta, o parque Ibirapuera, os bares e clubes noturnos foram seu habitat. O apartamento onde morava sozinho foi seu “abatedouro”. Nele, o fauno paulista mantinha sempre uma câmera fotográfica automática num tripé, registrando para a posteridade cada um de seus encontros fortuitos.

Conforme suas explicações para vida que levou, em relação à qual sentia um misto de orgulho e melancolia, em todas essas mulheres Sérgio buscou o Amor, a Beleza, a Sensualidade, a Inteligência, a Paixão, a Pureza, a Compreensão, a Aventura, a Força... Enfim, o absoluto. Como jamais encontrou todos esses atributos numa única mulher, tentou reuni-los juntando os pedaços que encontrava em cada amante isoladamente. Já próximo dos cinqüenta anos, casado e pai de família, nosso Fausto ainda afirmava não haver desistido de conseguir abarcar a totalidade do universo feminino.


Sonho de Sérgio, pesadelo de Anselmo

A outra figura extremada de que aqui me recordo é Anselmo, que dizia detestar as mulheres “não por viadagem, mas por misoginia”. Alto, sério, grisalho e magrelão, no final do segundo ano de faculdade, aos dezenove anos, ele conheceu uma polonesa que viera para uma temporada de pesquisas na universidade. Em pouco mais de um mês eles se encontraram, se apaixonaram, namoraram, casaram-se e partiram para o distante país do leste europeu, ainda nos últimos anos antes da queda do Muro de Berlim. Lá Anselmo viveu cerca de três anos, sofrendo com o frio, a língua absurdamente difícil de aprender e principalmente a degradação dos sonhos e planos do mês em que viveu sua eterna paixão no Brasil. Por fim, tudo acabou da pior forma, com bate-bocas e violências físicas. Um abajur arremessado na cabeça de nosso amigo foi a gota d’água. Bufando sua fúria, ele abandonou tudo e partiu de volta para São Paulo, carregando profunda desilusão e raiva da mulher, ou melhor, de todas as mulheres, às quais estendeu seu desencanto. Apenas nos últimos anos havia se tornado amigo e confidente de uma lésbica, talvez por essa condição lhe dar certa segurança de que os dois jamais se envolveriam.

Tendo feito voto de nunca mais voltar a se relacionar amorosamente com mulher alguma, Anselmo não perdia a chance de exibir seus arroubos misóginos, alardeando aos quatro ventos os males da confiança nas palavras das mulheres, criticando artimanhas femininas e atacando o casamento, instituição que, segundo ele, é uma inequívoca invenção do belo sexo. Para seu horror, parecia-lhe que este mundo está prestes a ser completamente dominado por elas, que estariam muito próximas de assumir o poder e o controle de todos os campos da atividade humana. Por isso, Anselmo clamava pela urgência um movimento “masculinista”.

Essas duas trajetórias incríveis se aproximam pela tentativa de encontrar um ideal de mulher que obviamente não existe. Talvez se possa considerar seus imaginários como duas variantes opostas de um pigmalionismo falhado. Em As metamorfoses, o poeta romano Ovídio conta a história de Pigmalião, rei de Chipre e escultor lendário que se apaixonou por uma estátua de mulher esculpida por ele mesmo, a que deu o nome de Galatéia. Com isso, pediu a Afrodite que lhe desse uma mulher tão perfeita como a sua escultura. A deusa foi além, dando vida à própria estátua. Pigmalião, então, casou-se com sua obra e foi eternamente feliz sob a proteção da deusa do amor e da beleza. Os modelos ideais de vida, no entanto, só se realizam no âmbito das lendas e mitos, que freqüentemente dão forma a pulsões de nossa psicologia profunda.

Sérgio tentou construir sua Galatéia através da busca de incorporação de todas as variantes positivas do feminino, e Anselmo, frustrados precocemente os ideais do amor romântico, descambou para a aversão à mulher, cultivando em seu horizonte uma anti-Galatéia. Entre esses dois extremos, é claro, situa-se a maturidade, que consiste em saber lidar com a frustração e elaborar a perda. A mulher real, ou melhor, o ser humano real, é uma unidade muito complexa de grandeza e miséria, talento e inépcia, clarividência e cegueira. Principalmente, é alguém marcado irremissivelmente pela incompletude e pela finitude. Ainda assim, seus defeitos e qualidades podem compor uma individualidade amável, e no amor duas individualidades podem realizar juntas uma experiência de completude e eternidade. No fundo nossas duas extraordinárias figuras talvez nunca tenham conseguido superar um apego narcísico a si mesmos.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Da necessidade

Cuspir no prato em que se comeu comida ruim.

Frases para a eternidade

Adriano de Paula Rabelo


Sou um colecionador de frases, especialmente aquelas cheias de verve, demolidoras de lugares-comuns e juízos massificados. O filósofo Ludwig Wittgenstein, profundo estudioso da linguagem, dizia que muito mais importante que a verdade ou a mentira de um enunciado é o efeito por ele provocado. Isso pode ser comprovado facilmente pelo êxito de políticos, advogados e comerciantes em nossa sociedade. Numa outra frente, que seria de todos os don juans do mundo sem a exuberância de sua lábia a serviço do efeito?

O fascínio da boa frase está em condensar o máximo de sentido no mínimo de suporte. Freud, em O chiste e sua relação com o inconsciente, apresenta um diálogo que atinge o fastígio da concisão e da espirituosidade, não pelo significado das sentenças isoladamente, mas pelos personagens envolvidos na conversação: “Como tem andado?”, perguntou um cego a um paralítico. “Como você está vendo”, respondeu o paralítico.

Paula Nei, boêmio e escritor bissexto do final do século XIX, ficou famoso pelo anedotário em torno de alguns de seus ditos, em geral surgidos de improviso ao sabor de sua vida desregrada. Conta-se que, numa Sexta-feira da Paixão, ele foi repreendido por um amigo que o encontrou embriagado pelas ruas. O boêmio, em tom hierático, teria respondido: “Quando a divindade sucumbe, a humanidade cambaleia”.

O calor de situações conflituosas é sempre propício a produzir frases rudes de grande efeito. É conhecido o contra-ataque do sempre ferino Winston Churchill, primeiro-ministro britânico, ao confrontar certa vez uma parlamentar que lhe havia dito que se fosse sua mulher lhe envenenaria o chá: “E se eu fosse seu marido, beberia esse chá”.


Um mestre da frase reproduzido na parede


Na literatura se poderiam colher inúmeros exemplos de frases que mereceriam ser escritas no mármore, com pedestal e descerramento de placa. Para ficar apenas na brasileira, as lavras de autores como Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa, Otto Lara Resende e Clarice Lispector, por exemplo, são muito profícuas. De Machado me lembro logo da suprema auto-ironia de “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. De Guimarães Rosa, da reviravolta cômico-sonora de “Pão ou pães, é questão de opiniães”.

Por falar no incomparável escritor de Cordisburgo, que transfigurou a linguagem do sertanejo do noroeste de Minas, me ocorrem algumas preciosidades ouvidas na boca do povo, principal guardião do tesouro da língua.

Minha mãe, que possui pouca ilustração mas bastante sabedoria, sempre me pareceu uma figura saída das páginas de Grande sertão: veredas ou de Primeiras histórias. Eu e minhas irmãs crescemos ouvindo-a pronunciar, ao longo dos anos, frases perfeitamente dignas de Guimarães Rosa. Uma delas é “Neste mundo não há o que não haja”. Toda vez que ela tem notícia de alguma invenção esdrúxula, algum dos inúmeros absurdos que povoam o nosso cotidiano, alguma extravagância ou declaração que a incomode, lá vem frase indefectível. Outra: “Fulano(a) tem cabelo estizicado”. Através da palavra lapidar, que não existe em nenhum dicionário, fica plenamente expresso o que ela quer dizer.

Certa ocasião, uma amiga que possuía namorado muito ciumento, ao me contar suas agruras, filosofou: “O barulho do ciúme desperta a curiosidade”. E numa roda de amigos alguém se lembrou de um provérbio originário não sei de onde, enfatizando a eloqüência feminina: “Um homem, uma palavra; uma mulher, um dicionário”. E, num velório, um parente do morto, olhando compungido para o protagonista do acontecimento: “Se morrer fosse bom, todos viríamos correndo e pularíamos de finquete ali dentro [no caixão]”. E num jogo informal de futebol que caminhava para o final num renhido empate: “Quem fazê ganha!”.

A propósito do futebol, esse reino de declarações espetaculares a jornalistas ávidos de sensação, circula por aí uma preciosa antologia de frases, algumas fruto do mais puro gênio, outras resultado de bobagens ditas genialmente. Lembrarei aqui apenas duas delas, pronunciadas por dois goleadores. O primeiro é Dadá Maravilha, uma das melhores figuras de nossa civilização, que, retrucando ao pernosticismo de alguns repórteres, disparou: “Não me venham com problemática, que eu tenho a solucionática”. E Jardel, ex-centroavante do Grêmio, logo antes de um jogo contra o maior rival, o Internacional, ao ser perguntado sobre a emoção de se jogar um clássico: “Clássico é clássico e vice-versa”.

A frase concisa e muito expressiva vale por todo um tratado acerca do assunto de que versa. Frases em latim costumam ser o lema de respeitáveis instituições nacionais. O mais belo livro da Bíblia, o Eclesiastes, é basicamente uma coleção de sentenças excepcionais. Há quem cultue certas frases como verdadeiros mantras ou guias de ação. Nos epitáfios, frases costumam resumir todo o sentido de uma existência. E o povo continua fornecendo ao idioma expressividades insuspeitas com sua inesgotável criatividade verbal.

Nesta época de correrias, excesso de informação desqualificada e de sensibilidades telegráficas, mais que nunca a frase bem dita tem seu lugar neste mundo, reino das palavras.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Vigor

As histórias nutrem.

Meu filho dormindo

Adriano de Paula Rabelo


Deitado a seu lado nestes seus dois anos, penso nas sinuosidades da vida, no vaivém tormentoso e sem sentido de êxitos, perdas, mortes, ressurreições, saltos, recuos, estagnações e renascimentos que compõem este estar-aqui. O que lhe estará reservado? Que determinações e que escolhas constituirão seu destino?

Fecho os olhos e vejo-o refinado escritor, centroavante do Galo e craque absoluto das Copas de 2026 a 2038, polêmico diretor de cinema, intelectual influente... alguns de meus eus gloriosos que foram caindo pelo caminho. No fim das contas, não importará tanto o que você for, desde que não se desumanize.

Que cultive para sempre o sagrado horror à vidinha burguesa, às satisfações puramente argentárias, à prosperidade barriguda e aos valores massificados. Que afronte a injustiça onde quer que você atue. Que tenha respeito pelos humilhados e ofendidos e com eles se solidarize. Que possua olhos e coração para amar a beleza, ainda quando ela se apresentar em suas formas terríveis. Que aprenda a ser brasileiro antes de girar o mundo e enriquecer-se com a cultura diversa.


Canção dos anjos (1881) – William-Adolphe Bouguereau


Dentro de mais alguns anos recordarei com um sorriso seus passeios no meu ombro, quando íamos sem rumo pelas ruas, conversando. Seus infindáveis, surpreendentes porquês jamais ficavam sem respostas, ainda que mirabolantes. Recordarei nosso futebol no campinho, onde eu o ensinava a chutar, cabecear, controlar a bola parada no pé, pedalar sobre ela para driblar o adversário. E as beiras de rios, lagoas, córregos e poças d’água onde você ia jogar pedrinhas e assistir ao movimento das ondulações. E as inúmeras fotografias que eu tirava de suas pequenas grandes aventuras. E as histórias de meninos curiosos e passarinhos falantes que lhe contava. E suas despedidas da Lua e das estrelas antes de ir dormir.

Esta insólita saudade do presente chega-me do limbo do futuro, fazendo lembrar que os anos correm e cada um toma seu rumo. Você tomará o seu com suas próprias pernas. Personalidade forte, caráter assertivo, meu varão de dois anos dorme indiferente a essas elucubrações de pai diante da selva escura deste mundo. Dum vivimus vivamus.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Vida fácil

As mulheres públicas têm feito coisas melhores que os homens públicos.

O vira-latismo nacional

Adriano de Paula Rabelo


Em suas crônicas de futebol, Nelson Rodrigues discutia obsessivamente aspectos relacionados ao caráter nacional. O escritor identificava em nossos jogadores e também no brasileiro em geral um sentimento de inferioridade e uma postura de humildade em relação ao estrangeiro, em especial àquele proveniente do chamado Primeiro Mundo, e mais especialmente ainda ao anglo-saxão. A esse fenômeno, qualificado como abjeto, o cronista dava o nome de “complexo de vira-latas”, definindo o brasileiro como um “Narciso às avessas, que cospe na própria imagem”.

Nisso, como em tantas outras coisas, Nelson foi lúcido e profético. A reverência pelo estrangeiro, acompanhada pela autodepreciação, tem persistido como uma doença crônica de nossa psicologia coletiva.

No senso comum, por exemplo, é muito freqüente que se diga, quando algo dá errado ou do qual não se gosta, que tal coisa é possível “só no Brasil mesmo”. Como se fôssemos depositários de tudo de ruim que há no mundo, estivéssemos condenados irrevogavelmente ao fracasso como nação e o idealizado exterior fosse uma espécie de País da Cocanha.

Credita-se do jornalista Márcio Moreira Alves uma frase que é um primor de vira-latismo: “Tudo o que existe só no Brasil e não é jabuticaba é ruim”.

Henfil, em seu excelente Diário de um cucaracha, conta o seguinte (triste) episódio ocorrido numa reunião de emigrados brasileiros de que participou nos Estados Unidos: “E aí, brasileiro é muito animado, alguém bem de leve, assim meio envergonhado, tira da bolsa uma maquininha fotográfica daquelas que não precisa fazer nada. É só apertar e pronto. ‘Detesto botões.’ Quanto custou? Baratíssimo! Onde? Rua 46. E outro diz que tem uma igual, mas que comprou (orgulho) foi na Macy’s, bem mais caro. Acha ele, sem se importar com a indelicadeza, que estas butiques brasileiras vendem barato porque tá tudo com defeito de fábrica. Por isso, arremata seguro: só compro na Macy’s ou na Blumendalles (sei lá cumé que escreve isto)!”

Se se der uma corrida de olhos numa série de filmes nacionais lançados recentemente, lá estará nossa humildade exibicionista diante do personagem anglo-saxão, que é sempre um raisonneur, alguém que pondera sobre a esculhambação e a incompetência desfilam diante dos seus olhos. Para se comprovar isso, assista-se Carlota Joaquina: Princesa do Brazil (1995), de Carla Camurati, Jenipapo (1995), de Monique Gardenberg, Como nascem os anjos (1996), de Murilo Salles, O que é isso, companheiro (1997), de Bruno Barreto, Orfeu (1999), de Cacá Diegues, Bossa nova (2000), de Bruno Barreto...

Interessante o alvoroço que se faz quando alguma das grandes agências noticiosas ou algum dos periódicos mais bem sucedidos comercialmente dos Estados Unidos ou da Europa noticia alguma coisa sobre o Brasil, quase sempre algum dos nossos horrores sociais ou alguma catástrofe. O terem dado a notícia é notícia aqui!!! Sair alguma coisa no New York Times, então, é a glória suprema, a chancela máxima do indefectível mundo anglo-saxão.


Um dos nossos maiores críticos sociais, inimigo do “complexo de vira-latas”


Retornando ao futebol e a Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico deve estar se revirando no túmulo. Há alguns meses, por três times da Inglaterra terem chegado às semifinais da Liga dos Campeões da Europa, nosso jornalismo esportivo, em sua quase unanimidade, passou a exaltar o famigerado futebol inglês – com seus chutões, suas correrias desabaladas e seus carrinhos – como o melhor do mundo. Babou-se muito elogio vira-lata ao jogo coletivo, à velocidade, ao preparo físico, à organização tática dos ingleses. Ao mesmo tempo, criticou-se o baixo nível técnico do Campeonato Brasileiro deste ano, o nivelamento dos times etc., etc. Parece que havíamos retornado ao tempo das crônicas de Nelson, com todos os ingredientes da abjeção que motivou seus textos. Para usar uma imagem cara ao grande escritor, até um paralelepípedo reconhece a superioridade ululante do futebol brasileiro sobre o europeu. Menos os “entendidos” em futebol.

Curioso como é muito comum ouvir de estrangeiros que imigraram para o Brasil, mesmo dos impolutos anglo-saxões, a opinião de que se sentem privilegiados por viver aqui. Curiosíssimo como a crônica esportiva européia não se cansa de exaltar permanentemente o futebol brasileiro, que obviamente nada mais precisa provar a ninguém.

Quem já viveu em qualquer país do exterior e possui um mínimo de capacidade de observação e análise, sempre retorna com uma visão mais equilibrada das coisas. Enfrentamos problemas gravíssimos, muitos deles ainda relacionados às questões mais básicas dos direitos da cidadania. Nossa sociedade civil é, de fato, bastante frágil. Muitas de nossas instituições funcionam precariamente. Nossa casta dominante segue cada vez mais desabusada. Porém, temos uma cultura original que nada fica a dever às do mundo imperialista, possuímos densidade histórica, uma identidade e valores próprios. Por isso, é de uma indignidade absoluta a postura humilde diante de outros povos, a ansiedade pelas bênçãos dos centros rapinadores.

O complexo de vira-latas vem exercendo, no Brasil, um papel político importante. Nossa casta dominante – e seus imitadores da classe média – sempre viveu espiritualmente em certas metrópoles do exterior, as quais, em seu “universo” de pensamento, monopolizariam tudo de bom que há no mundo. De lá sempre importaram seus códigos de diferenciação e prestígio: a língua estrangeira, a moda, as tecnologias, os nomes de seus filhos, o estilo de vida. De resto, nossa gente, nossa organização, nossas tradições e nossas coisas são “de baixo nível”, “uma bagunça”, “um atraso de vida”, “não tem nada a ver”, “brega”, “coisa de negro, de nordestino, de índio”, “só no Brasil mesmo”. Por força da repetição pelos seus aparelhos ideológicos, conseguiram que até mesmo uma parte da plebe saia babando essas tolices por aí. E os inferiores que se recolham ao seu devido (e imutável) lugar.

Sem dúvida que, para se mudar esse estado de coisas com o qual a enorme maioria das pessoas está profundamente insatisfeita no Brasil, é fundamental que se reconheçam os nossos valores, que tenhamos orgulho genuíno de sermos o que somos, que dialoguemos com o exterior de cabeça erguida, em determinadas ocasiões até mesmo com soberba. O maior obstáculo que temos a superar para construir um país melhor está em nós mesmos.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Causa

Criminoso é um sujeito sem advogado.

Fundamentalismo democrático

Adriano de Paula Rabelo


Vivemos num tempo em que praticamente não se encontra mais quem não defenda o regime democrático. Após a derrota dos totalitarismos de direita e de esquerda, que tanta desumanização e tantos horrores espalharam pelo século XX, a democracia como sinônimo de soberania da vontade das maiorias se tornou ponto pacífico. Todavia, parece evidente que essa laboriosa, sofrida e necessária conquista da tradição política ocidental encontra-se em profunda crise. Por toda parte a democracia se degenerou no mais vulgar democratismo.

Vejamos: campanhas eleitorais são manipuladas pelos neocoronéis dos grandes meios de informação, governantes divorciados dos reais interesses da maioria sobem ao poder massivamente, legisladores vampirizam o Estado em sua promiscuidade com o poder econômico, juízes dão retaguarda a negociatas ou realizam-nas diretamente, energúmenos assumem postos de comando, movimentos sociais têm de se haver permanentemente com torturas e balas da polícia...

Num contexto como este, a economia está subordinada aos números, jamais à qualidade efetiva de vida das classes desprivilegiadas. Quando se diz que ela vai bem, isso significa que banqueiros e especuladores nacionais e estrangeiros estão ganhando quantias astronômicas. E as maiorias permanecem de fato deserdadas pelo poder público.

Sem dúvida é preciso repensar o conceito de democracia, que deve ir muito além da mera formalidade do processo eleitoral, do simples governo representativo, de ser uma emanação da demência das maiorias. Não se pode falar em democracia enquanto não estiver garantido o espaço para a consagração de indivíduos e grupos por suas reais qualificações e seus méritos, enquanto o povo não usufruir efetivamente da riqueza da nação.


O fundamentalismo democrático é um rebento deste nefando casalzinho


O fundamentalismo democrático, no entanto, talvez encontre sua expressão mais enfática no plano internacional. Em nome da democracia ao pé da letra, os bárbaros, os radicais, os extremistas ocidentais seguem violentando os povos subjugados. Neste momento de América Latina docilizada, de Bálcãs pacificados, de África ao deus-dará, de Arábia aliciada, as garras do imperialismo estão postas sobre o Iraque e o Afeganistão, a fim de se garantir o suprimento de petróleo a baixo custo para o conforto da pós-modernidade americana e européia. O democratismo lá está, arrasando os dois países rebeldes, cometendo diariamente toda sorte de crimes contra a humanidade por detrás da fumaça das explosões dos carros-bombas da resistência, alardeadas pelas agências noticiosas “globalitárias”.

A propósito, o geógrafo Milton Santos chamava de globalitarismo o sistema implantado nas últimas décadas pelo fundamentalismo democrático. O feliz achado vocabular, que vai muito além da dominação violenta das nações periféricas, define com precisão uma doutrina bastante integrada de políticas que só toleram uma única forma de viver, de pensar, de se organizar, subordinando todas as instituições. Se os totalitarismos do século XX exigiam a completa subserviência dos cidadãos ao Estado, a doutrina da totalidade contemporânea preconiza a vassalagem de todos em relação ao Mercado e ao modo de vida americano. Como tudo isso está distante de um conceito minimamente aceitável de democracia.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

A gaia ciência

Toda verdade tem seu fundo de brincadeira.

Futebol-prosa, futebol-poesia

Adriano de Paula Rabelo


Pouco depois da partida final da Copa de 1970, o cineasta e poeta italiano Pier Paolo Pasolini – ele mesmo um bom e apaixonado meio-campista amador – publicou, no jornal Il Giorno, um artigo em que apresenta uma visão bastante original do futebol como uma linguagem que, em sua expressão mais refinada, produz seus poetas e seus prosadores.

O “sistema de signos” futebolístico, para Pasolini, reúne todas as características de uma linguagem, possuindo como unidade mínima o que ele chama de “podema” (do grego podos, pés), que corresponde a um jogador que utiliza os pés para chutar a bola. Os vinte e dois jogadores estão em analogia com as letras do alfabeto, combinando-se em infinitas possibilidades para a formação das “palavras futebolísticas” através de suas trocas de passes. Tais palavras, combinadas, formam um discurso regulado por normas sintáticas próprias, que se exprime nas características da partida. Esta se realiza como um verdadeiro discurso dramático. Os emissores da linguagem futebolística, portanto, são os jogadores, e seus decifradores, os torcedores. Ambos possuem um código comum, isto é, um repertório de fundamentos, tais como o chute, o passe, a marcação, o cabeceio, o lançamento, o combate e os esquemas táticos que exprimem o jogo elementar levado a cabo por todo time em campo. É como se fosse a linguagem instrumental, falada no dia-a-dia em situações marcadas pelo pragmatismo.

No entanto, o futebol atinge sua melhor expressão quando assume todas as características de um objeto estético por meio de seus subcódigos, tornando-se uma linguagem fundamentalmente prosaica ou poética. Tal distinção entre prosa e poesia, para Pasolini, é exclusivamente técnica, não havendo nenhum reconhecimento de superioridade de uma sobre a outra, mas adequando-se cada uma às inclinações próprias de cada jogador e de cada equipe. Está construída aí toda uma poética do futebol.

Esse interessante sistema teórico se aplica para classificar estilos de atuação de jogadores e países. Um jogador-prosador seria o cerebral, o que possui boa visão de jogo, controle de bola e passe excelente, participando do jogo o tempo todo, liderando o time e chamando a responsabilidade para si, adequando-se com mais facilidade aos esquemas táticos e navegando neles com eficácia. O futebol-prosa, para Pasolini, “baseia-se na sintaxe, no jogo coletivo e organizado, na execução racional do código”. Na tradição do futebol brasileiro, jogadores como Zizinho, Bellini, Nilton Santos, Didi, Gerson, Toninho Cerezo, Falcão, Dunga e atualmente Gilberto Silva e Kaká poderiam ser classificados como prosadores futebolísticos, vários deles, mais exatamente, praticantes de uma prosa poética. Já o jogador-poeta seria o solista, o talento individual, o mestre do drible, da jogada de efeito e do gol, isto é, aquele que, amparado por uma boa organização do jogo coletivo, subverte o sistema e a organização coletiva, reinventando o código em formas inesperadas e sublimes. A quintessência do futebol-poesia seriam, em nossa tradição, Pelé e Garrincha, mas muitas outras de nossas maiores glórias poderiam ser classificadas aqui: Friedenreich, Leônidas, Domingos da Guia, Jairzinho, Rivelino, Zico, Reinaldo, Romário e atualmente Ronaldinho Gaúcho e Robinho.


Pelé, sem tocar na bola, dribla o goleiro uruguaio Mazurkiewcz na semifinal da Copa de 1970


Pasolini considera que, por motivos históricos e culturais, o futebol praticado por certos países é essencialmente prosa, seja ela realista (como a da Inglaterra ou da Alemanha) ou estetizante (como a da Itália ou da França). Outros, por sua vez, praticam um futebol cuja essência é poesia, e a epítome do jogo poético, para o cineasta, é o futebol praticado pelos jogadores brasileiros, que “são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gol”. Em geral o futebol europeu possuiria um caráter mais prosaico, e o sul-americano, um caráter mais poético.

Ampliando essa instigante classificação, talvez se poderia dizer que historicamente o futebol também tenha tido uma era fundamentalmente poética e outra fundamentalmente prosaica. O marco do final do primeiro desses períodos é justamente a Copa do Mundo de 1970, no México, em que o Brasil apresentou um futebol espetacular no qual se sobressaíram várias individualidades fulgurantes praticando um jogo cheio de lances de efeito. A partir da primeira metade da década de 70, podendo ser tomado como marco do início da nova era a Copa de 1974, na Alemanha, vencida pela anfitriã, o futebol tornou-se marcadamente prosaico. Tal revolução se realizou dentro e fora dos campos. De um lado, a evolução das técnicas de preparação física e dos esquemas táticos de forte apelo coletivista que propugnavam a marcação forte, a ocupação dos espaços e a saída rápida em contra-ataque conheceram enorme prestígio entre os treinadores de todo o mundo como sinônimo de futebol moderno, diminuindo sensivelmente o campo de ação do craque genial. De outro lado, o futebol se tornou um grande business, movimentando cifras astronômicas e eliminando espaços para o improviso e as ações de caráter romântico.


Garrincha prepara-se para driblar toda uma coletividade


Nesse novo contexto, muito haveria a dizer sobre o futebol brasileiro, que inicialmente teve dificuldade para se adaptar aos novos paradigmas, fracassando nas Copas de 74 e 78 como se jogasse de forma contrária a sua natureza. Uma tentativa de recuperar o futebol-poesia foi feita na Copa de 1982, na Espanha, em que o Brasil apresentou um jogo espetacular, de enorme apelo estético, mas foi derrotado nas quartas-de-final pela mesma prosaica Itália da final de 70. A partir de então, o futebol-prosa foi adquirindo cada vez mais defensores no país, a despeito de fracassos clamorosos nas duas copas seguintes. O futebol brasileiro prosaico, conhecido como “de resultados”, só se tornou vencedor quando abriu espaço para que a individualidade improvisadora resolvesse as partidas nos momentos difíceis, jogando muito em função dela. Assim foi com Romário em 1994 e com Ronaldo em 2002.

A trajetória do futebol brasileiro, ainda mais após a revolução futebolística dos anos 1970, tem mostrado que estamos condenados ao fracasso quando renunciamos ao nosso caráter personalista e macunaímico em nome da eficiência impessoal e prosaica que está na base de outras formações históricas e culturais. O espírito picaresco, o subdesenvolvimento criativo, o samba, a capoeira e a molecagem são aspectos inerentes ao nosso estilo de jogo e de vida. Por isso, os times que marcaram época e constituíram boa parte da mitologia dos grandes clubes brasileiros são aqueles que resultaram da junção feliz de várias individualidades excepcionais. Por exemplo: o Expresso da Vitória do Vasco da Gama na segunda metade dos anos 40, com Ademir e Heleno de Freitas; o Santos de Pelé, Coutinho e Dorval, e o Botafogo de Garrincha, Didi e Amarildo, nos anos 60; o Palmeiras da Academia de Futebol, com Ademir da Guia e Leivinha, e o Internacional de Falcão e Figueroa, nos anos 70; o Atlético Mineiro de Toninho Cerezo e Reinaldo, o Flamengo de Zico e Júnior, e o Corinthians de Sócrates e Vladimir, nos anos 80; o São Paulo de Müller e Raí no início dos anos 90.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Littera

Cada escritor tem os admiradores que merece.

Personagens da minha infância

Adriano de Paula Rabelo

Minha infância, passada no interior de Minas, foi povoada por algumas figuras muito especiais de loucos, desamparados, cândidos, excêntricos e velhinhos pelos quais mantenho, ao longo da vida, uma fecunda ternura retroativa. Tive sempre um fascínio por esses personagens meio grotescos meio angelicais com quem acho que aprendi a olhar as pessoas para além da casca das roupas, do corpo, das caras, vozes e opiniões com que navegam socialmente.

Lembro-me de Carrico, velhinho de um metro e pouco de altura, com seu chapéu e o eterno cachimbinho, a fala mansa e arrastada de caipira num espaço já urbanizado de cidade pequena em acelerado crescimento. Eu e outros meninos nos reuníamos a sua volta para ouvir histórias de seus encontros com onças pintadas e o Saci-Pererê, toda sorte de contos exagerados e ingênuos envolvendo sua experiência na roça, a familiaridade com o mundo dos bois, cães e pássaros, suas matanças de cobras e teiús. Tudo contado com vivacidade num dialeto que não existe mais. Carrico viveu lentamente, simplesmente, sem ambições. Neste momento em que fecho os olhos diante do computador e rememoro a imagem de seu rosto, a maior evidência da discrição com que esse misto de Jeca Tatu e Pedro Malasartes passou pela vida é o fato de que me esforço para lembrar ao menos o ano em que ele morreu – possivelmente em fins dos anos 1970 – e em que circunstâncias, e não o consigo.

Maria Vilela, por sua vez, era uma vizinha que vivia duas casas acima da de meus pais, numa rua que possuía o poético nome de Passa Tempo. Sua imagem era, sem tirar nem pôr, a de uma bruxa de contos de fadas. Velha e encurvada, o nariz adunco, a cara com fundos vincos e a papada no pescoço, o cabelo desalinhado, a voz rouca, as roupas andrajosas e ensebadas, um péssimo humor. Todos os meninos tinham horror dos folclóricos poderes malignos de Maria Vilela, jamais ousando uma gracinha ou uma fanfarronada quando ela descia a rua de terra onde fomos criados na mais solta liberdade.

Já Nilo da Peroba era uma lenda viva da cidade por seu tamanho monumental. Possivelmente era vítima de alguma disfunção hormonal, pois, em minha lembrança, ele alcançava mais de dois metros de altura, tinha braços muito longos e mãos enormes, uma queixada protuberante e um caminhar desengonçado, sempre de botas sete-léguas, calças curtas e um chapelão na cabeça. Estava sempre em andanças infindáveis pelas ruas.


Gigante judeu em casa com seus pais no Bronx, NY (1970) - Diane Arbus


Boneca era o apelido de uma estranha senhora que sempre passava à porta de casa com seu ruidoso séquito de vira-latas, uns trinta. Baixinha e gordinha, o porte digno, sempre de manhã bem cedo lá vinha ela e seu pelotão de cachorros, que a respeitava militarmente. Quando algum menino mais gaiato gritava-lhe em alto e bom som o apelido, escondido atrás de algum muro, Boneca se irritava e disparava pedras na direção do ofensor. E sua cachorrada disparava a latir. Isso durava uns cinco a dez minutos. Até que todos partiam novamente em sua caminhada de todos os dias.

Ainda no campo dos apelidos insultuosos, me recordo de Geraldo Cagão e Lico Mazzaroppi. Ambos velhinhos cheios de achaques sensacionais que também se ofendiam quando se lhes gritava as alcunhas pelas quais eram conhecidos. Quando algum moleque sem mais o que fazer ou algum bêbado em busca de sensação faziam isso, lá vinham os mais cabeludos palavrões, muitas vezes acompanhados de pedras e ameaças de morte, escandalizando a vizinhança. Geraldo Cagão só encerrava sua torrencial expectoração de impropérios quando ficava exausto e já não tinha mais forças para gritar. Mazzaroppi, cópia do clássico personagem ítalo-caipira do cinema brasileiro, costumava arrancar um canivete e urrar da janela de sua casa: “Vou te capar! Vou te capar, vagabundo!”

Por falar em bêbados – naturalmente evadindo-me da tragédia do alcoolismo, que matou quase todos –, eu poderia relacionar aqui toda uma antologia de paus-d’água fenomenais que estão fixados em minha memória. Dentre eles, dois se destacam: Jorginho e Naná. O primeiro, baixinho de bigodinho fino à Clark Gable, eterna aparência de alguém entre os seus 30 e 40 anos, bochechas vermelhas e inchadas por longos anos de etilismo à base da cachaça mais ordinária, passava sempre em direção ao bar do Jacó, onde se encharcava. Certa ocasião, não me lembro mais por que motivo, Jorginho, com seu bafo crônico, me ofendeu a genitora num final de tarde no campinho de futebol. Para sua infelicidade, a própria vinha chegando para me chamar para tomar banho e jantar, ouvindo o xingamento a ela endereçado. O que então se passou figura ainda hoje no folclore do bairro. Minha mãe tirou o chinelo do pé e partiu para cima de Jorginho, exigindo-lhe que repetisse o que acabara de dizer. Metido em tais apuros, só lhe restou uma saída: dar no pé.


Sem título 6 (1970-71) - Diane Arbus


Naná vivia pelas ruas, sempre de copo em punho, dormindo ao relento, eventualmente acompanhada por algum cachorro, esse animal com inapelável vocação para a santidade. Estava sempre junto a bares e aglomerados públicos de pessoas. Sempre cantando e dançando, às vezes no meio de ruas com muito movimento de veículos, correndo o risco iminente de atropelamento. Mas seu santo e sua resistência são realmente fortes, pois tive notícia de que ainda hoje Naná está em plena forma, bebendo e vagando pelas ruas com seu canto e suas danças, eventualmente com seu cachorro.

Tureba, que já conheci velhinho, foi meu primeiro treinador de futebol. Vivia num quartinho no campo do bairro, abandonado que fora pelos filhos. Com ele, muitas gerações de meninos aprenderam as primeiras noções de jogo, formaram equipes e disputaram campeonatos. Manco de uma perna, sempre com um chapéu de palha na cabeça, era disciplinador mas afável, respeitando e fazendo respeitar os menos dotados para o esporte. Com outros garotos, atravessei uns dez anos sob seu comando nos campos de futebol, aprendendo muito sobre o esporte e sobre a natureza humana. Quando ele morreu, eu já havia deixado a cidade e não pude ir vê-lo. Para mim sua figura se aviva cada vez que piso num campo, ainda que seja para jogar a pelada mais informal.

Outra velhinha que vive em minha memória é D. Alzira, avó de um amigo de colégio e vizinho, que o havia criado. Sempre de lenço na cabeça e descalça, meio desdentada, a voz mansa, o espírito dos mansos, tinha especial carinho e consideração por mim. Lembro-me de que ela também morreu quando eu já me mudara da cidade natal, mas numa temporada em que eu estava de férias em casa de minha mãe. Fui visitá-la uns quatro dias antes da hora final. Um câncer a deixou irreconhecível. Era a própria imagem do sofrimento e da morte. Fui a seu velório simples e despojado. Era como o passamento de um anjo.

Poderia ficar aqui longamente a esboçar perfis destas minhas celebridades. Mas não o farei. Apenas citarei nomes de mais algumas dessas figuras comoventes, que por si sós já dizem tudo: Chuchu, Venerando, Lúcia Muda, Gilberto Garçom, Belchior, Tomba-lobo, Pamonheiro...

Neste momento vêm-me à lembrança alguns trabalhos da fotógrafa americana Diane Arbus, que girava seu país fotografando pessoas consideradas aleijões naquela sociedade tão materialista-competitiva, os chamados freaks. Seu talento com a câmera produziu imagens de perturbadora beleza ao ressaltar a humanidade dessas pessoas que a lei da selva capitalista descartou mas de quem não conseguiu roubar a dignidade. Sobre eles, Arbus disse algo para a eternidade: “a maioria das pessoas passa a vida temendo uma experiência traumática. Os freaks nasceram banhados pelo trauma. Com isso passaram no teste da vida. São aristocratas”.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Privada

A opinião pública é uma coisa muito particular.

Sobre temas cruéis na literatura

Adriano de Paula Rabelo


Às vezes somos surpreendidos por alguma mentalidade de Poliana que reclama contra as obras de arte que apresentam uma visão pouco açucarada da vida. Dizem que esta já possui muito sofrimento e atribulação. Sendo assim, por que chafurdar em sangue e ignomínia?

Em primeiro lugar, já se disse que não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos. De fato, veja-se o imenso manancial de ódios que fervilham nas obras de Shakespeare, compreenda-se a ética da virtù em Maquiavel ou a necessidade de às vezes se ter de “baixar o pau” para vencer nos gramados e se constatará que isso é a pura verdade.

Nesta cultura da aparência, da mercadoria e do espetáculo há um permanente esforço para se banir a tristeza como dimensão natural de certos processos vitais. Isso é, no mínimo, uma tremenda alienação. Obviamente estamos muito longe de viver no melhor dos mundos possíveis, a normalidade entre o rebanho humano infelizmente é a estupidez, e a violência é praticada em extensão e grau cada vez mais inacreditáveis. Numa realidade assim, como se recusar a tomar consciência da dor? Ademais, as derrotas, as frustrações e a tristeza não são justamente contingências que todos nós, em maior ou menor intensidade, temos de enfrentar inclusive como forma de autoconhecimento, como meio de aprender e valorizar o triunfo e a glória?

Os personagens da literatura nos fascinam tanto porque são vidas incandescentes, vividas em suas últimas conseqüências. Eles realizam tudo o que não podemos diante das convenções, da segurança, das tradições, das pressões do trabalho, das limitações físicas e culturais. Édipo vai fundo na investigação de sua sórdida origem, Antígona se contrapõe sozinha às leis do Estado em nome das sagradas e anteriores leis da família, Dante adentra no Inferno para ascender até o Paraíso e reverenciar Beatriz, Otelo inunda-se do ciúme provocado pelo sórdido Iago e mata sua amada Desdêmona, D. Quixote perambula pela Espanha pleno de nobreza e ridículo, Raskólnikov assassina uma velha usurária na crença de que se tratava de uma inútil e é perseguido pela necessidade de redenção por sua miserável condição humana, Madame Bovary sufoca-se com a mediocridade do marido e o trai em busca de romantismo e sensação, Brás Cubas confessa cinicamente todo o vazio de sua vida e imoralidade de sua classe. Todas essas figuras magníficas ultrapassam em muito os limites em que se enquadram nossas vidas domesticadas e tributáveis, realizando, com sua expressividade referencial, todo ímpeto de absoluto, egoísmo, aventura, graça, ódio, pureza, violência, infinitude e escândalo que se agitam no espírito de cada um de nós e que tanto medo provoca nos mais frívolos.


Ulisses e as sereias, episódio da Odisséia, de Homero

A grande literatura não se recusa à crueldade justamente porque, sendo uma recriação da vida, tem como objeto algo que está longe de ser um parque de diversões, assim como nossa psicologia profunda está muito distante de ser um repositório de gracinhas e pulsões edificantes. E a beleza é, muitas vezes, aterradora e desnorteante.

Claro que qualquer um tem o direito de cultivar coisas como as historinhas cor-de-rosa, o divertimento novelesco ou a superficialidade pragmática da auto-ajuda. Nesta época de extensivo analfabetismo funcional, isso já é alguma coisa. Mas o problema está em permanecer apenas na banalidade divertida e recusar-se ao empenho pela fruição de uma imitação mais profunda da vida. Seria como eleger o laguinho do parque da cidade como a paisagem aquática dos nossos horizontes, criticando o oceano por sua excessiva grandeza, profundidade, violência e mistério.

A literatura, como qualquer outra forma de arte, não tem nenhum compromisso com o agradável, o bonitinho, o álbum de moça, o politicamente correto, a receita de bem viver. Quando ela tenta ser conveniente, geralmente falha e se torna leitura descartável. O escritor que mexe com a gente e atravessa gerações é sempre aquele que, expressivo e original, revolve o caudal das paixões humanas consciente de que temos uma complexidade psicológica muito maior que a de Papai Noel e um destino muito mais rico de possibilidades que o do Coelhinho da Páscoa.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Dúctil

Os homens são meninos esticados.

Onde estás que não respondes?

Adriano de Paula Rabelo


Diante do galope triunfante de tanta brutalidade, corrupção e injustiça neste mundo, talvez hoje, quando somos confrontados com a possibilidade concreta de destruição da humanidade, mais que em outras épocas uma pergunta se imponha: Onde está Deus?

De imediato devo dizer que, apesar de não encontrar nada neste mundo que nos permita afirmar ou negar Sua existência, considero-a desejável, talvez até necessária. O sem-sentido desta vida será absurdamente agravado pela falta, por exemplo, de uma justiça final do universo. No entanto, a história e o cotidiano nos têm revelado sobejamente que Deus tem sido no mínimo um omisso. Se é que Ele existe, por certo ficou enfarado de nossos desmandos e nos abandonou, refugiando-Se em não sei que confins do cosmos.

Lembro-me de que num Natal, quando era criança, rezei com muita fé pedindo-Lhe uma bola de futebol que não veio. Em outras ocasiões, outros pedidos ecoaram no vazio. Mais tarde, na adolescência, minha esperança contentava-se com uma clara manifestação Sua através de um milagre, de um sonho, de um chamado. Nada.

Hoje prezo as orações de minha mãe para eu esteja protegido dos perigos do mundo e alcance meus objetivos. De vez em quando até entro numa igreja vazia para, no silêncio, talvez sentir alguma forma religação com planos espirituais superiores. Nada acontece, entretanto. Observo a “harmonia” deste mundo e sinceramente nada encontro que possa denotar qualquer manifestação divina. Aos simplórios e aos piegas que citam a beleza de uma flor, de um pôr-do-sol ou do sorriso de uma criança como manifestação divina costumo contrapor-lhes a feiúra de um câncer, de um preconceito ou de um Paulo Maluf. Aos que colocam ex-votos em salas de milagres, pergunto por todos aqueles que, a despeito de inúmeras orações fervorosas e dos mais variados descabelamentos espirituais, sofreram atrozmente e morreram. Há alguns anos me perguntei pelo sentido da morte estúpida de um primo aos dezoito anos, prestes a tornar-se pai. Onde estava Deus?

Quando se abriram os campos de concentração nazistas ao final da Segunda Guerra e montanhas de cadáveres de gente que sofreu as mais infames atrocidades foram expostos, um judeu que assistiu de perto àquelas cenas abomináveis disse: “Diante disso, Deus não pode existir.” De fato, com tanta maldade grassando em todas as escalas, em todos os quadrantes da Terra, com tantos maus apropriando-se do poder, empanturrando-se de riqueza material e levando vidas felicíssimas, como justificar a existência de um ser onipotente, onisciente e, acima de tudo, bom? Estará Ele perdendo a batalha para os anjos decaídos de sua própria corte no princípio dos tempos míticos? Mas quem são tais anjos diante de Seu poder supremo? Terá Ele realmente nos abandonado?


Civis alemães em Buchenwald (1945), foto de Margaret Burke-White


Claro que neste mundo há também as maravilhas da natureza e da cultura, a dignidade e a nobreza, as profundas experiências de beleza. Mas por que jamais prevalecem a ponto de tornar possível uma existência mais digna para a humanidade, pautada em preceitos verdadeiramente humanistas de respeito pela alteridade, seja no plano interpessoal, seja no plano dos grupos sociais, seja no plano internacional?

Admiro a figura Cristo, mas considero uma extrema e estúpida arrogância etnocêntrica pretender que ele seja o único caminho de redenção. Sou leitor entusiasmado de hagiografias, tendo fascínio pela vida dos santos, pessoas originais cujas trajetórias foram modelos de honradez e bondade. Acredito com vigor que o desafio constante do ser humano continua o de ser bom num mundo mal. Mas abomino a imagem do cordeiro como símbolo da bondade. A docilidade, a humildade e a pobreza de espírito não passam de disfarces da pior vaidade. Conforme as circunstâncias, ser bom pode significar revoltar-se, combater e até matar.

Neste contexto de ausência ou omissão de Deus no mundo, a religião institucionalizada não tem mais nada a dizer. O mosaico de igrejas e seitas que se proliferam como mais uma praga do capitalismo contemporâneo não passa de uma espécie de supermercado da fé, que se tornou ela própria mais uma mercadoria. Terá o mercado assumido definitivamente o Seu lugar? Onde está Deus que não expulsa do templo os novos vendilhões? Como é inautêntica, como é vazia a fé maria-vai-com-as-outras, a fé vendida pelos histriões de terninho com seus pregões, a fé esclerosada que se recusa a acompanhar a transformação dos costumes.

Apesar de Deus nunca haver se manifestado na história, continuamos, em nossa finitude e em nossa precariedade, a necessitar da eternidade e do absoluto. Mas a ausência sem fim de algo muito desejado acaba por matar o desejo. Talvez cheguemos a um ponto em que ou Ele se comunica diretamente conosco, tal como nas fábulas do Antigo Testamento, intervindo no mar de iniqüidades em que estamos jogados, ou morrerá de vez, tal como decretou Nietzsche. Ou melhor, suicidará.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Bichos brancos

Alguns são podres de ricos, muitos são ricos de podres.

Triunfo dos imbecis

Adriano de Paula Rabelo


Se se fizesse um levantamento dos homens que estão no poder em todo o planeta, ou das celebridades mais festejadas do mundo das artes e do entretenimento, ou dos empresários que estão ganhando montanhas de dinheiro, ou dos dragões da mídia que constroem a opinião pública, ou dos verborréicos que estão pastoreando hordas e hordas de fiéis, chegaríamos à irrefutável constatação de que os imbecis conseguiram dominar este mundo. Tal assertiva será imediatamente comprovada se colocarmos foco, por exemplo, sobre o homem mais poderoso do planeta neste momento. Aí está o inenarrável presidente da maior potência imperialista já há quase oito anos no poder. George W. Bush, com sua ignorância monumental, sua grossura e seu plebeísmo astronômicos representa o supra-sumo da bestialidade planetária de que ora nos ocupamos.

Apenas a título de suplemento, para não disseminar a náusea, vamos dar um pulinho no mundo das “artes” e do entretenimento. Aqui transbordam Madonnas, Elton Johns, Tom Cruises, Faustões, bonitinhas da vez, intelectuais de café filosófico, grupelhos rock-pop-rap-axé-pagode-brega-vulgar-sentimentalóide.

Por certo a humanidade seria irrespirável com um gênio em cada canto. Ninguém suportaria a densidade de um Ésquilo num namoro de portão ou a profundidade de um Alberto Caeiro num bate-papo de boteco. Seria absurdo ser sublime retornando para casa num ônibus lotado, heróico revolvendo a papelada cotidiana de um escritório, santo jogado numa penitenciária brasileira. Se o talento e o valor fossem a norma entre os humanos, o iniciador de novas eras, o cultuado em monumentos e efemérides seria justamente o imbecil, por sua obtusidade original. Do jeito que as coisas são, desde que o homem se separou dos outros macacos que para cada Péricles há milhões de Fernando Henriques; para cada Tolstoi, milhões de J.K. Rowlings; para cada Moisés, milhões Edir Macedos; para cada Mozart, milhões de Michael Jacksons. O gênio, que aparece de séculos em séculos, talvez exista justamente para resgatar a humanidade de sua natural bestice, a fim de que ela não sucumba na própria demência.


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Parábola dos cegos (1568) – Pieter Bruegel

Mas o fato é que nunca o poder, o prestígio, a riqueza, a celebridade foi prerrogativa de tantos idiotas chapados, que já nem fazem mais questão de esconder sua ignóbil condição. Antes esbanjam-na com despudor. Dê-se uma olhada no jet set internacional, nos vips nacionais, nos best sellers da cultura de massas, nos camarotes de qualquer evento, nos três poderes da República, em simples câmaras de vereadores ou prefeituras de cidades do interior. Fracassada sociedade e degenerada democracia essas que permitiram tal gentalha no topo do mundo.

Daqui a uns quinhentos anos, quando um estudioso se debruçar sobre nossa época, ficará escandalizado com a qualidade dos que conduzem a nossa civilização. E constatará de forma implacável: “Naquela idade das trevas, vermes corroíam o poder, babões eram imitados e invejados, incapazes faziam fortuna.”

Não tive intenção de reatualizar aqui o velho tópico do mundo carnavalizado, de pernas para o ar. Até porque, com o triunfo dos imbecis, tais vigências já conseguiram se estabilizar a ponto de atingir o status de normalidade. Os que ainda se revoltam com a monstruosidade das estruturas do nosso tempo talvez se consolem com saber que foi do misterioso limbo da podridão corrupta, da burrice demoníaca, da ferocidade egoísta e da banalidade universal que outras épocas gestaram seu Platão, seu Dante, seu Michelangelo, seu Bach, seu Dostoiévski, seu Che Guevara. Aí está um fiapo de esperança.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

As relações perigosas

O homem possui dois ouvidos porque tem uma boca.

Personalismo, informalidade e destino

Adriano de Paula Rabelo

Estou convencido de que neste país onde campeiam todos os horrores e onde somos feitos de palhaços cotidianamente só não enlouquecemos todos ou nos suicidamos coletivamente por causa de nossa forma de encarar a vida e de nos relacionar. Sérgio Buarque de Holanda tornou-se célebre por sua teoria do brasileiro como um “homem cordial”, aquele que se sente muito pouco à vontade ao entabular relações impessoais e muito formais com os outros e que age pelo sentimento e pela emoção (“cordial” vem do latim cor, “coração”). O famoso historiador via com grande pessimismo esse traço fundamental de nosso caráter, que está na base de muitas de nossas grandes mazelas, como a confusão entre o público e o privado, a aplicação das leis conforme a qualidade de seus infratores, o populismo, a péssima representação das camadas sociais desfavorecidas no governo. No entanto, como tudo tem ao menos dois lados, nosso personalismo e nossa informalidade também fundamentam o melhor daquilo que nossa civilização tem produzido.

Historicamente temos resolvido nossos conflitos de forma carnavalizada, recusando-nos a cultivar ódios, rancores e traumas seculares. Com isso, a despeito de as grandes transformações de nossa sociedade terem se processado a partir de acordos para reacomodar as coisas conforme os interesses das elites, acredito que, sem desprezar o passado, somos uma coletividade voltada para o presente e o que podemos nos tornar no futuro. Produzimos uma cultura ímpar que nada tem de inferior à do Velho Mundo. Temos unidade lingüística e de sentimento nacional num território muito vasto. Nossa visão de mundo tende à ironia e ao picaresco. E inventamos o “jeitinho brasileiro” como forma de navegação na burocracia dos donos do poder.

De fato, buscamos sempre lidar com pessoas e não com funções, não com terninhos e gravatinhas, não com batinas, fardas ou decotes. Claro que vivemos numa sociedade rigidamente hierarquizada e supremamente injusta. Só não saímos por aí cortando cabeças e chupando o sangue de nossa oligarquia brega, que pensa que o povo é para ser gasto como combustível, porque até mesmo nela enxergamos o ser humano com todas as suas contradições. Mas ela que tome cuidado!

Nossa forma de relacionamento, diferentemente das culturas imperialistas, é a que reconhece no outro um nome e uma história. Preservamos uma delicadeza e uma receptividade no trato que o Velho Mundo, por exemplo, em sua esclerose e em sua burrice, já perdeu há muito tempo. Por isso, talvez nunca nos sintamos tão brasileiros como quando estamos no exterior, especialmente no chamado Primeiro Mundo. Lembro da história de uma amiga paulistana de formas exuberantes que foi passar uma temporada de estudos na Alemanha. Certo dia em que a saudade do Brasil apertava, ela caminhava devagarinho, olhando para o lado de forma furtiva, perto de uma construção onde umas duas dúzias de homens trabalhavam. Não lhe fizeram nenhum gracejo, não lhe concederam nem a esmola de um olhar. Que fez ela? Sentou-se num meio-fio e chorou copiosamente.



Operários (1933) – Tarsila do Amaral


Vejam os nomes dos jogadores da Seleção Brasileira. Os de outros países são conhecidos publicamente por um imponente nome de família. Os nossos por apelidos ou pelo primeiro nome. Nossas maiores glórias se tornaram conhecidas não somente por apelidos como por seus nomes dos tempos de criança: Pelé, Garrincha, Zizinho, Didi, Vavá, Jairzinho, Dadá, Ronaldinho, Kaká.

Veja a qualidade da nossa ironia: pessoas que se amam se insultam ironicamente. Assim, quando dois amigos se encontram é quase certo que se “agredirão”, um xingando de forma cordial as origens, a sexualidade ou o caráter do outro. Logo depois se abraçarão estrepitosamente e iniciarão a conversa. Nosso senso de humor freqüentemente é autodepreciativo, na base de “o brasileiro não tem jeito mesmo” ou “só no Brasil mesmo”, o que faz do brasileiro e do Brasil entidades excepcionais. Um estrangeiro que visse e ouvisse tais coisas por certo ficaria muito intrigado ou até mesmo chocado. Mas talvez seja por essa auto-ironia que nossa história é relativamente isenta de nacionalismos infames.

Lembro-me de uma ocasião, há alguns anos, num ponto de ônibus. Era fim de tarde. As pessoas retornavam do trabalho com ar sério e cansado. A presença, entre outros, de um anão dava um tom de excepcionalidade ao pequeno aglomerado. Até que chegou, meio cambaleante, a figura destemperada de um bêbado. Ao ver o anão, o ébrio apontou-lhe de repente o dedo e disparou: “O que é que você vai ser quando crescer?” Por mais politicamente corretas que fossem as pessoas ali, todos, inclusive o anão, dispararam a rir daquela impertinência tão tipicamente brasileira.

Quem nunca ouviu, numa fila qualquer, duas senhoras a conversar longa e prazerosamente sobre suas diversas doenças e achaques, numa competição de sofrimentos? E nossa incapacidade de dizer não? E nossa mania de nos despedir e continuar no ambiente, tomando parte na conversa e na ação? E nosso convite retórico para que outrem passe por nossa casa “qualquer dia desses”? E nossa arte marcial dançada?

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Soltando balão – Ailton das Neves


Paulo Prado considerava que somos um povo triste. Os estrangeiros, por sua vez, invariavelmente nos vêem como alegres viscerais. Por certo nos situamos em algum lugar entre tais extremos, ou os sintetizamos. Falei acima da ironia, esse humor dos tristes, e do picaresco, esse humor troppo allegro, como fundamentos de nossa visão de mundo. Nosso lado triste advém de nossa histórica incapacidade de, numa natureza muito generosa, proporcionar dignidade de condições de vida e cidadania efetiva para a maior parte da população. Nossa porção alegre decorre da consciência de havermos construído todo um sistema civilizatório original e único, amalgamando distintos e conflitantes universos de cultura. A fecundidade daí resultante nos dá esse sentimento permanente de que, apesar de todos os horrores e das palhaçadas nacionais, temos uma muito melhor destinação histórica a realizar.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Tempos

Os números não mentem já.

Pungência e força de Frida Kahlo

Adriano de Paula Rabelo

No próximo dia 6 de julho, fará cem que nasceu, na periferia da Cidade do México, uma artista e uma personalidade das mais fascinantes da história da pintura: Frida Kahlo. Sua vida e sua obra foram profundamente marcadas pelo acidente que ela sofreu aos dezoito anos e também por seu relacionamento amoroso com o pintor Diego Rivera. Grande parte da obra de Frida é composta por auto-retratos em que ela reelabora expressivamente seu sofrimento e sua paixão.

Gostaria de me deter aqui num quadro da pintora, obra inesgotável que sintetiza a sua história. Trata-se de “O Hospital Henry Ford ou A cama voadora”, de 1932.

Como se sabe, em 1925, no choque entre o ônibus em que viajava e um bonde, Frida Kahlo teve a região da pélvis trespassada por uma barra de ferro que rompeu-lhe a coluna vertebral em três lugares na região lombar, além de fraturar-lhe vários outros ossos. Essa fatalidade mudou completamente o curso de sua existência, fazendo com que fosse abandonado seu projeto de tornar-se médica. Como agravante, ela foi informada de que jamais poderia ter filhos através de parto normal, recebendo a recomendação de não engravidar.

Cinco anos depois, no entanto, já casada com Rivera, Frida engravidou e teve de realizar um aborto por razões médicas. Em 1932, por ocasião de uma temporada de trabalho do pintor nos Estados Unidos, ela ficou grávida novamente. A despeito das recomendações dos médicos e da oposição de Diego, Frida resolveu levar adiante a gestação e ter o filho. Foi uma tremenda frustração quando, poucos meses depois, ela perdeu a criança que tanto desejava. Essa experiência traumática foi retratada posteriormente pela pintora no quadro a ser brevemente analisado aqui.


O Hospital Henry Ford ou A cama voadora (1932) – Frida Kahlo


A obra mostra Frida Kahlo completamente sozinha, deitada no leito do hospital, localizado na cidade de Detroit, no momento em que ocorre a perda do filho. A cama é bastante grande em relação a seu corpo, como a ressaltar sua pequenez, fragilidade e desamparo. A completa nudez da artista – bem como sua solidão – remete a um momento essencial, de encontro com seu eu profundo, em que todas as máscaras sociais caíram. Inscrições na frente e na lateral do leito situam com precisão o acontecimento no tempo e no espaço: “Julho de 1932, FK”, “Hospital Henry Ford, Detroit”.

Frida está bem à beira da cama, significativamente bastante próxima de uma queda. Tem a barriga protuberante de sua gravidez de três meses. O lençol branco sob seu corpo está muito ensangüentado, não somente indicando a perda física do bebê, mas sugerindo o esvair-se da própria vida da artista. De seu olho esquerdo escorre uma enorme lágrima, o que por si só representa a imensa dor de uma mãe pela perda do filho. O rosto escuro e sombrio exprime toda a desesperança que ela traz na alma.

Pela mão esquerda da pintora – também representada em grande tamanho – passam três fitas vermelhas que lembram veias ou artérias, ligando três objetos que flutuam no ar a outros três posicionados no chão, todos eles símbolos de sua gravidez falhada e de sua impossibilidade de ser mãe. No ar está um modelo anatômico da parte inferior da coluna vertebral e do sistema reprodutor feminino que se liga a uma pélvis óssea no chão, à direita, testemunhos da causa corporal do aborto sofrido. Em seguida, um feto do sexo masculino, também de enorme tamanho, como a representar sua importância no universo afetivo da mãe, está ligado a uma flor violeta murcha no chão. O bebê morto e a flor sem nenhuma vitalidade são imagens eloqüentes da perda sofrida pela artista. Por fim, um caramujo, animal que nas culturas indígenas mexicanas representa a concepção, a gravidez e o nascimento, liga-se a um esterilizador a vapor tal como os que eram utilizados em hospitais nos anos 1930 para selar tanques de gás ou de ar comprimido. Provavelmente Frida fez uma associação entre o mecanismo de selar e seu próprio sistema reprodutor defeituoso, que não lhe permitia completar com êxito uma gravidez.

Note-se ainda que ela está deitada no lado esquerdo da cama e que toda a cena é vista em referência à esquerda da personagem central. Essa insistência no lado esquerdo denota a natureza gauche de Frida, muito especialmente no que tange a sua impossibilidade de levar uma vida “normal”.

A solidão, a vulnerabilidade e a desolação da pintora são levadas ao paroxismo quando se observa a paisagem em que ela está inserida. No primeiro plano, à parte do horizonte industrial e desprovido de qualquer referência humana representado ao fundo, está uma planície desértica em completa aridez. Nessa planície, que reflete o estado de espírito de Frida, a cama aparenta flutuar, razão do título do quadro. Já o complexo industrial, reino do progresso tecnológico e da competição capitalista, em sua frieza, contrasta grandemente com a tragédia da artista, com sua destinação humana. O céu nublado e cinzento parece anunciar a iminência de chuva.

Com a passagem dos anos, aumenta sempre mais a minha admiração por Frida Kahlo, que é minha pintora favorita. Como poucos artistas, ela foi uma poeta das tintas e uma poeta da vida. Ultrapassou grandes dores e grandes perdas, amou superiormente seu homem e por ele foi amada, realizou uma obra de arte original e eterna através do diálogo com seus traumas, juntou expressionismo e cultura indígena mexicana num amálgama perfeito, atuou politicamente contra todas as formas do totalitarismo, foi uma precursora do alargamento dos horizontes da mulher. Acima de tudo, foi uma artista e um ser humano excepcional que superou graves limitações por meio de uma sensibilidade superior e um imenso amor pela vida.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Lábios e lábias

Uma bela boca vale mais que belos ditos.

Saudades de Montevidéu

Adriano de Paula Rabelo

Nos anos de 2005 e 2006, um tanto por acaso, fui trabalhar em Montevidéu, ensinando Português e Cultura Brasileira na Universidad de la República. Quando cheguei, conhecia muito pouco sobre o Uruguai e sua capital, onde vive a metade dos habitantes do país. As primeiras impressões foram boas, apesar de haver encontrado um país muito mais empobrecido do que eu imaginava.

Fui morar no bairro de Pocitos, a uma quadra das margens do Rio da Prata e da Rambla, a avenida que contorna a orla do colossal volume de água que separa o Uruguai da Argentina. Com o correr dos dias, fui me ambientando, fazendo longas caminhadas pelas ruas, visitando seus museus e parques, transitando por sua periferia, ouvindo sua música. E com o início de minhas atividades na universidade, fui conhecendo as pessoas.

Muitas coisas me marcaram na passagem por Montevidéu. Primeiramente a paisagem, tanto a urbana como a humana. A cidade se divide em duas, bem delimitadas geograficamente: a moderna e a “velha”. Esta, com suas construções de séculos passados, plena de história, concentra boa parte do roteiro turístico e noturno da capital uruguaia; aquela, a despeito de ainda incluir em diversos pontos construções antigas, possui todas as características das metrópoles contemporâneas, com seus arranha-céus e sua agitação nas vias mais movimentadas. Quase que uma mesma árvore – alta, imponente, que solta umas pluminhas no verão – decora todas as ruas da parte moderna. Contornando a Cidade Velha, o centro e alguns dos bairros de classe média e alta, está a Rambla, ao longo da qual há sempre grande concentração de pessoas se encontrando, praticando esportes e se divertindo diante do majestoso rio-mar.


Uma região antiga na área central de Montevidéu

Na região onde morei, marcaram-me as corridas de fim de tarde na Rambla, quase sempre muito agasalhado para enfrentar o vento gelado que vem do rio; o belo busto de Tolstoi próximo à embaixada da Rússia, onde eu sempre passava para reverenciar o grande escritor; e um amplo gramado junto à baía de Pocitos, onde eu sempre ia jogar futebol.

Quanto às pessoas, considero que elas são sem dúvida a grande riqueza do país. Os uruguaios são, em geral, bem diferentes do estereótipo que se consagrou do brasileiro. Mais silenciosos, o cenho mais fechado, extremamente orgulhosos, cordiais, firmes e gentis. Sua forma de falar a língua espanhola é muito peculiar à região platina, com uma musicalidade própria, mas macia e harmônica que a fala dos espanhóis, por exemplo. Claro que estou sendo um tanto superficial e impressionista nestas generalizações, mas aqui estou apenas esboçando os traços mais fortes que me ficaram da convivência com eles.

Em boa parte do ano, o tempo em Montevidéu anda meio cinzento, sopra um vento cortante e chegam frentes frias muito mais intensas que as enfrentadas no sudeste brasileiro de maio a agosto. Por isso, a longa seqüência de dias muito frios foi sofrida para alguém como eu. Mas essas condições climáticas me parecem combinar perfeitamente com o aspecto e o espírito da cidade. O correr dos meses teve o efeito de ir me adaptando e, por fim, não me incomodando com as baixas temperaturas e as especificidades climáticas de lá. Mas, em agosto de 2005, a entrada de um ciclone na cidade foi assustadora. A tormenta quase me apanhou na rua, num fim de tarde. Uma ventania de quase duzentos quilômetros por hora causou mortes e muita destruição. Em casa, fiquei ouvindo o assobio dos ventos, o estrondo das águas do Rio da Prata contra os paredões, os grandes pingos da chuva, a eletricidade que fugia...

A comida uruguaia é sempre uma orgia de carnes de todo tipo com alguns acompanhamentos mais leves. Apesar de em geral não muito saudável, é muito saborosa, fazendo parte da tradição gauchesca, que é vigorosa inclusive em seus sabores.

A qualidade de vida na capital me pareceu excepcional para os padrões de uma metrópole latino-americana. Os níveis de violência são baixos, o acesso das pessoas à educação e à saúde é bastante amplo. Porém o desemprego entre os jovens é enorme, muita gente emigrou ou pretende emigrar, o setor industrial do país não vai bem. Os mais velhos sempre mencionam um tempo de vacas gordas – nos anos 50 e 60 especialmente – em que o Uruguai foi uma espécie de paraíso fiscal. Muito dinheiro circulava pelo país e havia abundância. Entretanto, o capital especulativo acabou indo embora e, como sempre acontece, deixou alguns ricos e muitos deserdados.


A baía de Pocitos

Foi nesses tempos de bonança que o Uruguai venceu o Brasil na final da Copa do Mundo de 1950, fato que ainda hoje marca profundamente o caráter nacional uruguaio. Como ficou comprovado pelos ajustes de contas feitos após a partida, naquele dia 16 de julho o Brasil entrou em campo como apenas um time; já o Uruguai entrou como uma nação. Sob a liderança do gran capitán Obdulio Varela, com os brios eriçados pelo desrespeito com que foram tratados pela imprensa brasileira, os uruguaios nos venceram numa reatualização do mito de Davi e Golias. Em sua mitologia, a épica atuação de seus jogadores naquele dia lhes deu uma promissora perspectiva: se puderam derrotar um gigante favoritíssimo, do que mais não seriam capazes?

A vida noturna em Montevidéu me impressionou vivamente. Todos os programas noturnos começam muito tarde. Alta madrugada ainda há sempre grande movimento nas ruas centrais e nos bairros onde se concentram restaurantes, cinemas e casas noturnas. Uma vez cheguei de viagem às três da manhã. Muitos estabelecimentos estavam abertos, igrejas regurgitavam em plena missa e até crianças brincavam, ainda acordadas. Eu, que não sou de varar noites, não aproveitei muito dessa euforia noturna.

Lembro-me de que, quando deixei o Uruguai, muitos ex-alunos e amigos foram se despedir de mim. Foi um momento de emoção. Senti-me valorizado e recompensado. Depois disso, retornei várias vezes para cursos intensivos. Os amigos sempre se reuniam e conversávamos sobre nossos projetos, sobre tudo e sobre nada. Era o prazer do reencontro.

Senti hoje saudades de Montevidéu ao folhear um álbum de fotografias.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Da impiedade

Para que se libertem, os humilhados e ofendidos precisam aprender a humilhar e a ofender.

Canalhice naturalizada

Adriano de Paula Rabelo


Nas últimas décadas uma avalanche cotidiana de corrupção nos três poderes vem conseguindo insensibilizar as pessoas em relação ao problema, que talvez seja o mais grave enfrentado pelo Brasil contemporâneo, uma vez que afeta diretamente as questões mais essenciais ligadas à educação, à saúde, à segurança pública, à capacidade de investimento do país em sua infra-estrutura. Pior, a canalhice vem passando por uma espécie de naturalização, sendo reconhecida pelo senso comum como válida e como parte do jogo político. Como nossa Justiça jamais conseguiu punir os donos do poder econômico, dissemina-se entre a população um sentimento de impotência e uma perigosa tolerância em relação à corrupção, abrindo espaço para que o cinismo se institua em larga escala, tanto na esfera pública quanto na privada. A partir daí, vem se consagrando cada vez mais uma concepção de que, embora as coisas devessem ser diferentes, elas são assim mesmo. Por isso, escolado pelos dráculas de Brasília, o cidadão comum passa a acreditar que todo mundo tem seu preço e que “a ocasião faz o ladrão”, que certos usos e costumes escusos estão consagrados e não há como escapar deles para se atingir objetivos no campo do empreendedorismo político e econômico.

Na peça Otto Lara Resende ou Bonitinha mas ordinária, de Nelson Rodrigues, o personagem Peixoto, ele mesmo um crápula, exprime bem a naturalização do mau-caratismo no senso comum, chegando ao ponto de identificar a canalhice como um traço distintivo do caráter nacional ao dizer que “no Brasil quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte”. Mais interessante ainda é outro personagem de Nelson, figura muito freqüente em suas crônicas, “Palhares, o canalha”, cujo maior feito, alardeado orgulhosamente por ele próprio entre os amigos, foi beijar o pescoço da cunhada num corredor da casa em que habitava com toda a sua família. A partir de então, Palhares passa a ser conhecido como “o que não respeita nem cunhada”, é invejado por muitos e promovido no emprego.

Tais personalidades e acontecimentos típicos do mundo criado por Nelson Rodrigues nunca estiveram tão em evidência neste país em que os maiores disparates são possíveis. Um exemplo entre centenas que poderiam ser aqui arrolados: em 1997, o deputado federal José Gomes da Rocha, do Partido Social Democrático de Goiás, legenda posteriormente incorporada ao PTB, utilizou sua verba de gabinete para contratar sete jogadores de futebol e um supervisor para o Itumbiara Esporte Clube, time que disputava a primeira divisão do campeonato daquele estado. Um jornalista do Correio Braziliense, Lúcio Vaz, publicou uma reportagem-denúncia sobre o caso, provocando a suspensão do deputado pelo período de um mês. Passada a suspensão, no entanto, José Gomes da Rocha encontrou o mesmo jornalista no café da Câmara. O que então se passou é digno de “Palhares, o canalha”: o deputado foi na direção de Lúcio Vaz, levantou a mão como se fosse agredi-lo, mas subitamente abaixou-a para cumprimentá-lo, dizendo com efusão: “Muito obrigado, você garantiu a minha reeleição”. Explicou, então, que várias enquetes feitas pelas rádios de Itumbiara indicaram que cerca de 90% da população aprovava o que ele havia feito. E, de fato, na eleição do ano seguinte o deputado foi reeleito com mais de 20 mil votos a mais que na eleição anterior.

Esse carisma do canalha, bem como a tolerância em relação aos meios escusos para se atingir os fins da ambição individual, é um fenômeno que está clamando por estudos mais acurados da nossa sociologia. A concepção do sucesso como um acúmulo cada vez maior de dinheiro, poder e influência tem feito com que, num país onde quase todos acreditam nos fundamentos da ética cristã e gostam de se exibir como seus paladinos, regras mais pragmáticas que desconhecem a culpa e autonomizam o livre-arbítrio sustentem a ação efetiva de muita gente.


A outra face da canalhice naturalizada


O canalha nacional, muito especialmente aquele que vampiriza o Estado, serve-se de toda uma estrutura montada para facilitar-lhe a ação e para que ele escape de condenações judiciais nos casos que chegam a ser investigados e em que processos chegam a ser abertos. Servem-se de suas abomináveis imunidades, fazem um silêncio estratégico até que abaixe a poeira ou tentam explicar o inexplicável com sua aura de simpatia e cordialidade, negam tudo ou ficam indignados com o maior dos descaramentos, escalam seus advogados para pedir seus providenciais habeas corpus... Com o correr dos dias e dos novos escândalos que vêm para o proscênio do noticiário, tudo se esquece e o pulha vai viver a mais regalada e feliz das existências. Como contrapartida, aumenta-se a carga tributária, decai ainda mais a qualidade de vida das classes desprotegidas, a saúde e a educação públicas mergulham na indigência, dissemina-se a delinqüência, mais e mais excluídos povoam as ruas.

Há décadas as vozes da demagogia vêm fazendo uso da palavra “reforma”. Mas o máximo que conseguem promover – com o habitual estardalhaço – é o já consagrado “mudar para ficar tudo como está”. No caso específico da corrupção, se houvesse um mínimo de dignidade em nossa vida pública, ela seria considerada como crime hediondo e imprescritível, com penas similares às correspondentes a homicídio doloso. Tudo que foi furtado ao patrimônio público ou empregado em benefício de indivíduos ou quadrilhas teria de ser restituído com altos juros. Mas essas formas de coerção talvez jamais se tornem realidade num país de tão brutal diferenciação de classes, em que a casta senhorial legisla em causa própria, aplica as leis e as executa de forma a perpetuar-se como proprietária do Estado.

Lembramos acima a peça Bonitinha mas ordinária, que gira toda em torno de uma frase atribuída por Nelson Rodrigues ao escritor Otto Lara Resende: “O mineiro só é solidário no câncer”, ou seja, somente no limiar da morte o ser humano é capaz de comover-se com o sofrimento alheio a ponto de solidarizar-se com seu infortúnio. Pelo volume e a qualidade da corrupção que nos bombardeia diariamente – e que já se manifesta tranqüilamente nos níveis mais rasteiros –, talvez pudéssemos concluir que o mineiro não é solidário nem no câncer. Mas o canalha, como o próprio Nelson reconhecia, “é sempre um cordial, um ameno, um amorável”. Ninguém é integralmente calhorda. Dizem que Maluf é bom marido, que Fernando Henrique possui respeitabilidade intelectual, que José Dirceu é bom pai, que Collor era um bonitinho com pose de super-herói. Antônio Carlos Magalhães chorou como uma mamma siciliana na morte de seu filho deputado. Essas qualidades, cujas manifestações situam-se no âmbito individual e familiar, recebem alta promoção por parte da grande imprensa reacionária, humanizando os canalhas e aproximando-os da pessoa comum. Daí para sua absolvição moral é um pulinho. E daí para uma assimilação da canalhice como coisa aceitável é quase automático. E os vermes proliferam-se.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Nós

É necessário continuar lançando pérolas aos porcos, nem que seja só para machucá-los.

Uma modinha do século XIX

Adriano de Paula Rabelo
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A canção de amor de apelo popular pressupõe quase sempre que o sujeito lírico assuma uma postura de certa ingenuidade. Na tradição musical brasileira, um gênero marcou profundamente todo o século XIX e os primeiros anos do XX: a modinha. Tal gênero, cujas origens remontam ao século XVIII, conheceu grande voga tanto nos salões bem comportados das classes abastadas, executado em saraus, quanto nas ruas, composto e cantado em especial por mulatos, sendo por muito tempo executado em serenatas. O auge da modinha ocorreu durante a época do Império, período com que ela se identifica bastante.

Na segunda década do século XX, as transformações urbanas e o avanço da tecnologia de reprodução dos sons acabou por modificar profundamente o ambiente em que a modinha se desenvolveu e se estabeleceu. Além disso, o advento do samba e das primeiras gravações representou o fim da modinha e dos eventos que proporcionavam a sua performance.

Os títulos de clássicas modinhas, alguns de um saboroso pitoresco, dão uma boa idéia de seu universo e de seus temas recorrentes, sempre temperados por muito lirismo, sentimentalidade e, às vezes, humor: “Tão longe, de mim distante”, “Quis debalde varrer-te da memória”, “Lembranças do nosso amor”, “Belas baianas”, “Vai cruel em braços doutros”, “Prazeres que eu não sonhava”, “Cozinheiro art nouveau”. Uma simples atenção ao léxico desses títulos basta para nos remeter de imediato a um tempo antigo, em que as formas de expressar os sentimentos eram diversas daquelas consagradas pela vertente predominante do Modernismo, movimento que renovou todo fazer artístico no Brasil.

Dentre todas as modinhas, talvez a mais célebre seja “Casinha pequenina”, de autor desconhecido, composta no final do século XIX e gravada em disco pela primeira vez em 1906, por Mário Pinheiro. Posteriormente ela faria parte do repertório de um variado número de intérpretes, como Bidu Sayão, Beniamino Gigli, Paraguassu, Sílvio Caldas, Radamés Gnatalli, Cascatinha e Inhana, Nara Leão e Rogério Duprat. Recentemente tive acesso a uma bela interpretação da dupla belo-horizontina Renato Motta e Patrícia Lobato. Detenhamo-nos brevemente sobre a letra:

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Tu não te lembras da casinha pequenina
Onde o nosso amor nasceu?
Tu não te lembras da casinha pequenina
Onde o nosso amor nasceu?
Tinha um coqueiro do lado, que coitado
De saudade já morreu.
Tinha um coqueiro do lado, que coitado
De saudade já morreu.

Tu não te lembras das juras e perjuras
Que fizeste com fervor?
Tu não te lembras das juras e perjuras
Que fizeste com fervor?
Daquele beijo demorado, prolongado
Que selou o nosso amor.
Daquele beijo demorado, prolongado

Que selou o nosso amor.

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Construída com o emprego de diversos topoi do romantismo, a canção possui como que ambientação e clima de romance de José de Alencar, transportando-nos para o reino da pessoalidade, do subjetivismo, do emocionalismo. Dois elementos paisagísticos se destacam em “Casinha pequenina”: a própria casinha e o coqueiro. Temos aí o refúgio da civilização e a integração na natureza. Desligando-se da sociedade e voltando-se para a própria interioridade, o sujeito da canção se coloca praticamente na condição de centro do universo. Os dois elementos que marcam a paisagem remetem de imediato à geografia brasileira, valorizando a cor local, os aspectos pitorescos de nossa nacionalidade.


“Idílio” – Tarsila do Amaral (1886-1973)

Estabelecido o local onde os dois amantes vivenciaram seus grandes momentos – um verdadeiro mundo particular –, a emoção transborda num apelo à lembrança dos eventos que marcaram seu relacionamento: as “juras e perjuras” feitas com “fervor” e, principalmente, o “beijo demorado, prolongado” que sacramentou seu amor, sentimento que é exaltado e elevado à condição suprema de quintessência da vida.

A simplicidade do vocabulário e da construção dos versos, bem como o tom menor da dicção poética, aproxima o texto da linguagem coloquial. Tais elementos, juntamente com a dupla métrica, denotam uma grande liberdade de criação e uma recusa a padrões consagrados de construção textual.

Como se viu, o sujeito da canção apela para a memória da pessoa amada, referindo-se a elementos paisagísticos e a acontecimentos localizados no passado. Por certo estamos diante de um amor que não se realizou na continuidade e na felicidade prometida. A corroborar essa interpretação estão a necessidade de se apelar para a lembrança do que passou e, em especial, o triste destino do coqueiro, que significativamente morreu de saudade. Ademais, alguém que apela à lembrança de juras e perjuras, só o faz porque elas não foram cumpridas. Temos aí uma materialização do chamado mal-do-século, ou seja, a impossibilidade de realização de nossas mais puras aspirações neste mundo hostil. Por isso um tom de melancolia perpassa toda a canção.

Mário de Andrade certa vez definiu a modinha como “um suspiro de amor”. Esse que foi historicamente o primeiro gênero a se definir na música popular brasileira, como se viu, deixou de existir no início do século XX, mas deixou larga influência em nossa música, seja nos transbordamentos românticos do samba-canção, seja no lirismo mais comedido da bossa nova, seja no estabelecimento de posturas e temas que se tornaram clássicos na canção de amor brasileira.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Dinossauro

O sono é a lagartixa da morte.

Diante da morte

Adriano de Paula Rabelo

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No dia 8 de dezembro de 1980, todos os diários da cidade de São Paulo publicaram o seguinte anúncio fúnebre:

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Ainda que muito bem assessorado

pelos “Homens de avental branco”,

foi impossível obter uma prorrogação do prazo.

Eu, SWIATOSLAW SLAVO SIRKS,

Encerrei, em 08 de dezembro de 1980, minha

única negociação infrutífera.

Despeço-me de todos os amigos importantes

e humildes, igualmente queridos por mim.

No próximo dia 15 de dezembro, segunda-

feira, às 20:00 horas, na Igreja do Colégio

Santo Agostinho, à Praça Santo Agostinho,

nº 79, meus pais, minha esposa Rosa Lia e

meus filhos Rosana e Paulo, farão celebrar

em minha intenção um ato religioso, ao qual

serão todos muitíssimo bem-vindos.

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Admirável a postura não convencional e bem-humorada do próprio morto no momento final e definitivo.

Nossa cultura, tão imbuída de valores e comportamentos adolescentes, bem como nosso tempo, que tanto cultua a juventude pela juventude e a saúde de quem está na flor dos hormônios, têm horror à morte. Por isso a ignoram, tentando cassar-lhe a existência por meio de sua não-nomeação. Paradoxalmente, no turbilhão de violência em que vivemos, os que mais estão expostos a fins horrendos são justamente os jovens na faixa entre os quinze e os vinte e cinco anos, cujas mortes são agravadas pela sensação de desperdício de vidas que muito tinham a realizar.

Nesta cultura e neste tempo que tão desesperadamente valorizam a produtividade e a necessidade de deixar uma obra, um nome e uma fama, a morte só pode mesmo ser percebida como algo desesperador para o qual ninguém está preparado. Assim, agarramo-nos à vida por pior que ela seja, por mais sofrimento e desilusão que ela nos obrigue a enfrentar.



A dança da Morte - Hans Holbein

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Curioso como isso se processa no âmbito cultura cristã, que se construiu toda em torno de um assassinato bárbaro, precedido de torturas atrozes. A morte, ponto de partida para a ressurreição, a vida eterna e a bem-aventurança, acabou por se converter, ao invés de num ponto de partida, num ponto final de uma existência de apego a conquistas materiais e prestígio social. Na incerteza sobre o que vem depois – pode ser simplesmente o nada –, na incapacidade das religiões em oferecer um discurso escatológico menos estereotipado, menos simplista e mais claro, no abandono a que este mundo foi evidentemente relegado por qualquer possível divindade, sobraram o discurso e o anseio do gozo permanente. No entanto, essa filosofia do prazer, que já realizou sob formas muito fecundas do carpe diem, atualmente está reduzida a uma miserável, uma avarenta compulsão pela posse de determinadas mercadorias como ilusão de preenchimento do vazio interior. Assim, não é de se estranhar o terror causado pela “iniludível”, que nos arrancará, de forma inexorável, dos castelos de areia que construímos como sentido para nossas vidas num mundo que cada vez mais parece ter perdido completamente o sentido.

Não tenho nenhuma receita sobre como viver ou como enfrentar a morte quando chegar o momento crucial. Apenas verifico que talvez nossa cultura e nosso tempo não estejam agindo muito sabiamente ao lançá-la para debaixo do tapete existencial. Ao seu constante exorcismo por parte daqueles que forçam juventudes eternas, que refugam o sofrimento ou que pretendem reduzir a vida a um parque de diversões, prefiro a postura bem-humorada e a irreverência desse senhor Swiatoslaw, que anuncia ele mesmo seu passamento com a galhardia e a serenidade de quem realmente viveu e por isso pode morrer sorrindo.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Push

Um puxa-saco acaba sempre encontrando um empurra-saco.

Doc

Adriano de Paula Rabelo

Pouco tempo depois de ter ido viver na cidade de São Paulo, em meados dos anos 90, conheci Doc no centro de práticas esportivas da universidade. Talvez o enorme contraste de nossos temperamentos, visões de mundo e opiniões nos tenha aproximado. Seu anticonvencionalismo e senso de humor sempre surpreendente, ao lado de minha seriedade, certa contenção e temperamento propenso ao satírico, acabaram por nos fazer em pouco tempo grandes amigos. Doc é uma das pessoas mais originais, mais honestas e mais imprevisíveis que tenho encontrado. Dele guardo uma antologia de histórias hilariantes.

Transbordante de tensões edipianas, obsessões sexuais e complexos ululantes, Doc, que pertence à segunda geração de uma família de imigrantes do sul da Itália, tem uma atração inexorável por “japonesas”, ou seja, toda e qualquer oriental de olho puxado, etnia tão comum na Paulicéia. Sua explicação para o fenômeno: quando era criança, o pai teria tido uma amante “japonesa”. Sua mãe, ao tomar conhecimento do affair, aprontou um escarcéu, dizendo horrores das orientais. Ao crescer, desejando compreender os motivos da traição paterna, nosso amigo quis possuir o máximo de “japonesas” possível.

Devo acrescentar ainda que Doc é palmeirense e deprimido. A propósito, me vem à lembrança duas outras histórias suas. Certa vez, tendo conhecido uma “japonesa” em Santos, marcou encontro com ela em São Paulo, na tarde do domingo seguinte, tendo arranjado tudo para levá-la a um motel. Encontraram-se após o almoço, namoraram brevemente e foram para o dito estabelecimento, lá chegando um pouco antes das 16h00. Acontece que o Palmeiras jogaria exatamente às 16h00, pelo Campeonato Brasileiro, com transmissão ao vivo pela televisão. O que fez o conquistador? Ligou a tv, sentou-se com a consorte na cabeceira da cama e assistiu a todo o jogo, vibrando com as jogadas de seu time. Somente após o apito final é que ele tomou as devidas providências. Resultado: a “japonesa” nunca mais quis vê-lo.

Quando o Palmeiras foi campeão da Copa Libertadores da América, em 1999, fui com Doc ao Parque Antártica, assistir à final, que foi eletrizante: um 2x2, com disputa de pênaltis. Ao lado de uma linda torcedora de seu time, que nunca tínhamos visto antes, ele vibrava. A cada gol, os dois se abraçavam e se beijavam. Ao final, lá estavam eles atracados num beijo de língua, para festejar o título.

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“Arlequim”, ilustração de Napoléon Aubin publicada no periódico canadense Le Fantasque em agosto de 1837

Dono de uma boneca inflável a que deu o nome de Dóris, com ela Doc vivia um tórrido relacionamento. Tendo cursado três cursos de graduação e deixado mais um pela metade, sempre que conhecia uma garota e iniciava a corte, ele costumava dizer que exercia a profissão de coveiro, pela qual dizia ter absoluta vocação e na qual se realizava plenamente como profissional. Perguntado por que mentia, nosso amigo dizia que era para ter certeza de que o possível amor que a cortejada viesse a desenvolver por ele era verdadeiro. Certa ocasião, tendo encontrado uma moça evangélica que muito falava na Bíblia, conseguiu convencê-la a se entregar a ele analisando o Cântico dos cânticos e o “crescei o multiplicai-vos”. Numa outra oportunidade, estávamos numa praia do Guarujá, conversando com duas moças que ali conhecemos, quando chegou um rapaz com pose de valente, perguntando-nos se estávamos incomodando as meninas, que provavelmente eram de seu círculo afetivo. Doc olhou ferozmente para o garotão, apontou-lhe dedo e soltou o vozeirão: “Aí, mano, toma cuidado, que eu sou inguinorante, tá ligado?!” O intrépido mancebo esbugalhou os olhos, pediu desculpas e deu no pé.

Nunca tendo tido a experiência um namoro, Doc mantinha uma vida afetiva que era uma interminável sucessão de brevíssimos casos com mulheres que “caçava” no metrô, no parque Ibirapuera, em clubes de provectas viúvas ou em “casas de massagem”. Contava sempre que sua maior fantasia sexual – magnífica experiência que o realizaria plenamente – seria estar debaixo de uma mulher de trezentos quilos, com celulites de oito centímetros e banhas entornando para os lados. Essa bem amada deveria aplicar-lhe sonoras bofetadas enquanto humilhava-o, gritando: “Você não é de nada!!! Você não é de nada!!!”

As depressões e agitações psicológicas de Doc são responsáveis por algumas de suas melhores histórias. Certa feita, profundamente deprimido e vítima de grande agitação interior, ele caminhava sozinho e sem rumo pelo perigoso centro de São Paulo, às 3h00 da madrugada. Só encontrou uma forma de lidar com seu drama: pegou um telefone público e ligou para um número qualquer. Do outro lado, o aparelho tocou doze vezes sem ser atendido. Até desligar. Doc não se deu por vencido. Ligou de novo para o mesmo número. Finalmente, após mais uns seis toques, alguém atendeu a chamada com voz sonolenta:

- Alô...

E Doc gritou a plenos pulmões: “Vá se foder, seu filho de uma puta!!!”

Feito isso, passaram por completo sua agitação interior e sua depressão.

De outra feita, caminhávamos pelo campus da universidade, e Doc sentia sua cíclica agitação interior de fundo um tanto neurótico. Por isso buscava um meio de dar vazão a sua aflição. Até que viu ao longe um grande tronco de árvore caído. Extremamente forte, Doc correu até lá, levantou o tronco no ar, correu com ele até uma elevação e, gritando a plenos pulmões, arremessou-o a uns quatro ou cinco metros de distância. O baque fez com que um grupo de cachorros vadios que ficava nas imediações saísse em disparada, em pânico. E Doc respirou fundo e reencontrou a paz interior.

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Buster Keaton em Nossa hospitalidade (1923)
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Por falar em cachorro, vivia pelo campus um bom número de vira-latas, em geral tratados com simpatia pela comunidade universitária. O líder desses animais era um grandalhão a quem todos os outros cães prestavam verdadeira vassalagem. Chamava-se Adão e era tão velho que se dizia ter sido ele que surgiu no mundo quando Deus pronunciou o “Faça-se o cachorro!”. Num final de tarde, Adão latia alto e forte. Seus súditos se recolhiam respeitosamente para um canto. Até que Doc, com seu vozeirão, começou a latir na direção do cachorro. Surpreso, o animal passou a latir mais alto e agressivamente, caminhando, por sua vez, na direção do humano. Este não se fez de rogado: também passou a latir mais alto e a ir no rumo de Adão. Todo mundo que passava pelo local parava para contemplar o original duelo, de tal modo que em pouco tempo formou-se uma pequena multidão. A contenda durou uns dois minutos. Resultado: após os litigantes se aproximarem latindo até mais ou menos um metro de distância, Adão, vergonhosamente batido em seu próprio campo de atuação, colocou o rabo entre as pernas, abaixou a cabeça e saiu de fininho, indo juntar-se aos de sua espécie. Os humanos espectadores, por sua vez, rebentaram em gargalhadas e aplausos para o seu brioso representante.

Esses mesmos cachorros costumavam dormir espalhados diante da portaria do prédio dos estudantes. De manhã, quando saíamos para nossas atividades, lá estavam eles. Até que Doc implicou com aquilo e resolveu acabar com a folga dos bichos. Pé ante pé, ele se colocou entre o grupo. De repente disparou a dar altos, agressivos e assustadores latidos de cachorrão bravo. O pânico foi tamanho entre a cachorrada que um deles, desorientado, se viu cercado num beco e tentou até subir pela parede. Desnecessário dizer que nunca mais voltaram a dormir na entrada do edifício. Mas, apesar de episódios como esse, nosso amigo era muito popular entre os cães, que o respeitavam e o adoravam.

Muitas vezes tive de espetar o dedo na cara de Doc e mandá-lo para os piores lugares, quando jogávamos fu