sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Garrincha na cara do mundo

Adriano de Paula Rabelo


“Feliz do povo que pode esfregar um Garrincha na cara do mundo!”. Assim escreveu Nelson Rodrigues numa crônica logo após a semifinal da Copa do Mundo de 1962, em que o grande jogador realizou uma de suas maravilhosas exibições. Já escrevi aqui sobre Garrincha como expressão da brasilidade profunda, como encarnação do anti-herói torto que povoa os nossos arquétipos: aquele que, em vez da força e dos poderes físicos superiores, utiliza-se da malícia e da sagacidade para superar obstáculos, muitas vezes transformando suas próprias deficiências físicas em qualidades especiais. Isso não somente por suas pernas tortas – uma bem mais curta que a outra – e a bacia deslocada, a pequena estatura de quem cresceu mal alimentado nos grotões do interior do Brasil, os olhos ligeiramente estrábicos, o corpo cheinho de quem só veio a fazer ginástica pela primeira vez já próximo dos vinte anos. Sua forma de jogar também contrariava todos os princípios do esporte, subvertia todas as táticas, porém alcançando os melhores resultados.

Seu biógrafo Ruy Castro conta que, num amistoso do Botafogo na França, em 1955, faltando cerca de cinco minutos para o fim da partida e com o time carioca aplicando uma goleada, o técnico pediu para que os jogadores prendessem a bola e se poupassem. Eis a descrição do que então se passou: [Garrincha] “Começou a driblar sem soltar a bola para ninguém, a enfiá-la entre as pernas dos beques e a fazê-los trombar uns nos outros, como se estivesse nas peladas de Pau Grande [sua cidade natal]. Ficou tantos minutos com a bola que os adversários já não se atreviam a ir tentar tomá-la. O estádio inteiro levantou-se para aplaudir. (...) Garrincha então partia para cima deles e, às vezes, voltava para driblar em direção ao gol do próprio Botafogo. O jogo terminou com a bola aos seus pés.”

Na final do Campeonato Carioca de 1957, já no começo do segundo tempo, com o Botafogo goleando o Fluminense por 4x1, Telê Santana pediu a Didi, entregando os pontos: “Vocês já são campeões. Diga ao Garrincha para parar de desmoralizar o Clóvis e o Altair. Vamos ficar por aqui.”

Era comum que laterais adversários se aproximassem dele antes do jogo e implorassem: “Mané, quebra meu galho. Estou pra me casar e meu contrato está no fim. Vê se não judia muito de mim, senão eu fico mal.”

Na biografia de Castro há uma foto de um jogo entre Brasil x México pela Copa de 1962, em que Garrincha, com a bola nos pés, está cercado por nada menos que oito adversários – alguns já caídos – que tentam em vão tirá-la.


Garrincha driblando oito de uma vez


Foi esse jogador com nome de passarinho que, nos anos 1950 e 60, passou a ser conhecido como “alegria do povo”. Como um Carlitos de Chaplin, ele conseguiu, com sua arte, suavizar os graves problemas enfrentados pela grande maioria de pobres em nosso país, fazendo com que eles pudessem sonhar com a possibilidade de as coisas serem diferentes. Sobre isso escreveu Carlos Drummond de Andrade numa crônica por ocasião da morte do excepcional futebolista: “Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.”

Por outro lado, um país que produziu um Aleijadinho, um Machado de Assis, um Santos Dumont e um Garrincha – essas figuras que se tornaram gloriosas a despeito de ou por causa de suas faltas – já deveria ter superado os seus complexos nacionais. Talvez o povo já tenha feito isso. Nossa casta dominante é que – viúva da chic Paris, separada da snob Londres, distante da cosmopolitan Nova York –, encharcada de provincianismo, prossegue cada vez mais vira-lata.

Mas voltando a Garrincha, como todos sabem, ele teve um triste fim, encerrando a carreira bem cedo por causa de médicos inescrupulosos que lhe aplicavam anestésicos nos joelhos machucados, a fim de que o Botafogo pudesse cumprir contratos em excursões pelo exterior e também para que ele pudesse jogar partidas importantes. Após abandonar o futebol profissional, perdendo seus referenciais, Garrincha se entregou ao alcoolismo, que já vinha de longa data, e passou a ser destruído lentamente. Até que a morte o colheu, praticamente na indigência, no início de 1983. O templo no qual foi velado não poderia ser outro: o estádio do Maracanã, palco maior de seus espetáculos.

Nasci pouco depois do encerramento da carreira profissional de Garrincha. Mas tive a felicidade e a frustração de vê-lo jogar. É que, no final dos anos 1970, ele percorria o Brasil com um time de exibição. Houve uma ocasião em que esse time foi parar em Divinópolis, minha cidade natal, para um amistoso contra o Guarani local. Eu devia ter uns oito ou nove anos, e meu pai me levou para ver o gênio. Garrincha estava gordo, lento, com péssimo condicionamento físico e mau de saúde, já esmagado pelo álcool. Mal conseguia dar uma arrancada de dez metros. Uma turma de peladeiros completava a paisagem na sua equipe. Nosso Guarani não somente venceu a partida como por vários anos tivemos de agüentar Coca, o lateral esquerdo divinopolitano, jactando-se de que marcou Garrincha e não o deixou fazer nada em campo! Retrucávamos que, naquelas condições, até nossas bisavós, até os cones de treinamento marcariam Garrincha, e ele não faria nada em campo... De todo modo, terminado o jogo, a meninada e seus pais entraram no gramado para tirar fotos com o ídolo. Eu e meu pai tiramos uma abraçados com ele, um de cada lado, sorridentes. Como lamento hoje que essa foto haja se perdido entre os desorganizados álbuns e sacos de fotografias deixados por meu pai, que também já não está entre nós!

7 comentários:

Um botafoguense, Rio de Janeiro, RJ disse...

Eterno Garrincha!

César A. Nogueira, Araraquara, SP disse...

Essa foto mostra o quanto Garrincha foi o mais espetacular, talvez o maior, jogador de todos os tempos. Nunca houve nenhum outro que necessitava de oito para marcá-lo (e eram driblados). Hilária a história do lateral Coca, melancólica pelo lado de Garrincha, uma lenda do futebol de final tão trágico.

Marcelo Dias, Campinas disse...

Muito bom.

Manuel Lara Vasconcelos, Brasília disse...

Suas lembranças fazem parte do anedotário típico de Garrincha, vítima do destino, filho da tragédia.

Jonas Valadão disse...

Jamais haverá outro Garrincha!

Marília Magalhães, Niterói, RJ disse...

"Esfregar um Garrincha na cara do mundo!!!" Somente nós temos esse possibilidade. E os vira-latas de plantão que gostam de considerar o Brasil um país de terceira categoria!

Anônimo disse...

Adriano, eu me lembro desse jogo do time do Garrincha contra o nosso Guarani de Divinópolis,foi um jogo beneficente né!
Quanto ao coca, eu o conheci tb,ele era realmente bom jogador, mas é preciso distinguir se era uma jactância covarde ou se era apenas uma forma de o coca dizer que já pisou na mesma grama que o deus do futebol pisou.
Vanderlei Capanema, Divinópolis-MG.