sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Últimas palavras

Adriano de Paula Rabelo


Manuel Bandeira desejou que seu último poema “fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais” e que contivesse “a paixão dos suicidas que se matam sem explicação”. As últimas palavras de alguém que está prestes a deixar a vida sempre provocaram fascínio. Tanto que em muitos lugares onde se praticou ou ainda se pratica a pena capital o réu tem o direito de dizer algo pela última vez. Naturalmente há um interesse especial pelo que as grandes personalidades disseram logo antes de expirar. Algo que funcione como um resumo de suas vidas ou como uma reflexão acerca dos grandes temas humanos, pois no limiar da morte todos os freios da conveniência se desfazem.

Platão conta em seu diálogo Fedro que Sócrates, condenado à morte por ingestão de cicuta, pouco antes de morrer teria dito a seu discípulo Críton: “Devemos um galo a Asclépio. Pague a dívida, não a esqueça.” Asclépio era o deus da Medicina, e o galo era o animal consagrado a ele. Sócrates, que considerava a morte uma libertação, oferecia o sacrifício como forma de agradecimento ao deus pelo obséquio de retirá-lo da vida.

Já na época do domínio Roma sobre a Grécia, o matemático e geômetra Arquimedes, forçado por um soldado a se apresentar ao general romano que tomou a cidade de Siracusa justamente no momento em que ele estava absorto na comprovação de seus teoremas – sentado no chão e desenhando na areia –, teria lhe dito antes de ser degolado: “Não perturbes os meus círculos.”

A tradição latina legou-nos as palavras finais de alguns imperadores romanos, quase todos extremamente soberbos. César Augusto teria mantido a pose de grandeza até o fim, pronunciando uma frase que posteriormente passou a encerrar ritualmente as representações teatrais romanas: Acta est fabula, isto é, “A história terminou”. Júlio César, vítima de uma conspiração na qual tomou parte seu próprio filho, teria exprimido seu estarrecimento ante a natureza humana ao ser apunhalado por ele: “Até tu, Brutus, meu filho!? Com isso, toda a esperança está perdida.” Vespasiano, sentindo-se morrer, foi bem pouco comedido: “Puxa, acho que estou me tornando um deus.” E de fato ele chegou a ser deificado em Roma após sua morte. Calígula, assassinado por seus próprios soldados, teria exclamado: “Eu vivo!” E Nero, que durante sua existência cultivou veleidades de comediante, se auto-avaliou com excessiva pretensão: “Que grande artista morre comigo!”

Os soberanos modernos, por sua vez, menos megalomaníacos e já imbuídos da cosmogonia cristã, muitas vezes exprimiram o peso de sua consciência no instante final. Felipe III voltou-se para um de seus ministros e disse: “Boa conta vamos dar a Deus de nosso governo!” E Carlos IX, da França, atormentado pela lembrança do massacre de milhares de protestantes na Noite de São Bartolomeu de 1572: “Quanto sangue! Quantos crimes! Que Deus me perdoe o mal que fiz!” A rainha Isabel, da Inglaterra, expirou pedindo: “Todos os meus bens por um momento de vida!” E Afonso XII morreu exclamando: “Que conflito! Que conflito!”

Políticos e intelectuais do século XX também foram bastante expressivos na hora derradeira. O ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt pediu simplesmente: “Apague a luz!” Já o economista britânico John Maynard Keynes lembrou uma de suas fontes de prazer: “Eu deveria ter bebido mais champanhe.” E o revolucionário e teórico do marxismo Leon Trotsky disse aos seus guardas, que estavam prestes a executar o homem que o feriu mortalmente a mando de Stálin, em 1940: “Não matem esse homem. Ele tem uma história para contar.” Winston Churchill, antes de entrar em coma e morrer uma semana depois, em 1965, teria dito: “Estou de saco cheio de tudo.” Ethel Rosenberg, assassinada de maneira infame juntamente com o marido Julius nos Estados Unidos, durante a Guerra Fria, sob falsa acusação de espionagem, afirmou logo antes da execução, em 1953: “Somos as primeiras vítimas do fascismo americano.” E Che Guevara, capturado por mercenários do exército boliviano em 1967, próximo à cidadezinha de La Higuera, teria mantido a dignidade de herói até o fim, dizendo a seu executor: “Sei que você vai me matar. Atire, covarde, você vai matar um homem!”


A morte de Sócrates (1787) – Jean-Louis David


Mas talvez sejam os artistas que nos legaram as últimas palavras mais expressivas. François Rabelais escreveu: “Vou em busca de um grande talvez.” E Leonardo da Vinci, encarnação máxima do gênio da Renascença, criador de uma obra universal e inesgotável, na hora de morrer disse algo que deveria estar no horizonte de todos os pretensiosos do mundo: “Ofendi a Deus e à humanidade, pois meu trabalho não alcançou a qualidade que deveria.”

Outro gênio, Mozart, teria dito: “Sinto o gosto da morte nos lábios... É algo que não pertence a este mundo.” E conforme a esposa de Gustav Mahler, este compositor terminou seus dias numa exaltação a seu ideal na música: “Mozart! Mozart!” Já Beethoven saiu de cena evocando a fórmula ritual pela qual eram finalizados os espetáculos da Commedia dell’Arte: Paudite, amici, comedia finita est, ou seja, “Aplaudam, amigos, a comédia terminou”.

Voltaire, instado por um padre a rejeitar Satanás, respondeu-lhe: “E isso lá são horas de fazer novos inimigos!” O já iluminado Goethe expirou pedindo: “Mais luz! Mais luz!” Heine, ao ser lembrado de sua vida pouco cristã, foi irônico: “Deus me perdoará, é a sua profissão.” Emily Dickinson percebeu que “a névoa está ficando casa vez mais cerrada”. Nosso Olavo Bilac pediu apenas: “Dêem-me café, vou escrever.” E Dylan Thomas, beberrão contumaz, teve uma preocupação bastante original: “Acabo de tomar dezoito doses de uísque seguidas. Acho que sem dúvida é um novo recorde.”

Henry David Thoreau teve o seguinte diálogo com uma tia no leito de morte: “Você fez as pazes com seu Deus?” “Eu nunca briguei com meu Deus.” “Mas você não está preocupado com o outro mundo?” “Um mundo de cada vez.”

Oscar Wilde pediu uma garrafa do champanhe mais caro do hotel onde estava hospedado. Enquanto expirava, tomando a bebida, disse: “Estou morrendo além das minhas possibilidades.” Outro que não apenas morreu, como também nasceu num hotel foi o dramaturgo Eugene O’Neill, que na hora fatal amaldiçoou seu destino: “Nascido num quarto de hotel e, maldito seja, morto num quarto de hotel!” Já o romancista Theodore Dreiser disparou: “Shakespeare, aí vou eu!”

Van Gogh morreu como viveu – melancolicamente. Suas últimas palavras teriam sido: “A tristeza vai durar para sempre.” Frida Kahlo, que também sofreu muito em vida, deixou as seguintes palavras como as últimas em seu diário: “Espero que a caminhada seja feliz e espero não retornar jamais.” E Pablo Picasso pediu aos que ficavam: “Bebam a mim.”

A dançarina Isadora Duncan se despediu como a grande artista que foi: “Adeus, meus amigos, vou para a glória!” Outro astro, o ator John Barrymore, sem perder a pose nem no instante iniludível, indignou-se: “Morrer? Eu deveria dizer não, camarada. Nenhum Barrymore permitiria que algo tão convencional acontecesse com ele.” Já James Dean, logo antes da batida do automóvel em que em pereceu, teria gritado: “Meus dias de diversão estão acabados.” Já Charlie Chaplin, quando o sacerdote que o assistia lhe disse: “Possa o Senhor ter compaixão de sua alma.”, teria respondido: “Por que não? Afinal de contas, ela pertence a Ele.”

Por fim, Elvis Presley, que ao final de sua última conferência de imprensa disse modestamente aos jornalistas: “Espero não ter aborrecido vocês.” Quantos milhões e milhões de pessoas neste mundo poderíamos responder: “Jamais!”

Certamente muitas dessas últimas palavras são lendárias. Quem morre doente, senil ou desesperado, por exemplo, não tem espírito para fazer estilo ou pingar gênio em frases de efeito. Quem morre de maneira rápida ou inesperada não dispõe de tempo nem de agilidade mental para elaborar obras-primas de concisão derradeira. Mas isso não importa. A lenda, por colar-se com perfeição a suas personalidades, tornou-se mais real que a realidade.

5 comentários:

Érica Campofirito, São Paulo, SP disse...

Que legal saber dessas últimas palavras!! Aí tem gente soberba e gente humilde. O último momento realmente refletiu e resumiu suas vidas...

Clara Wolf, Jaraguá do Sul disse...

Essa frase final do Elvis Presley é demais. Sou completamente fã dele, como minha mãe e meu pai; realmente ele não nos aborrecerá jamais.

Pedro Mosquera, Paranaguá, PR disse...

Quanta soberba dos imperadores romanos e quanto peso na consciência dos reis europeus!

Ana Lívia Barbosa, Rio de Janeiro, RJ disse...

E se vc pudesse dizer algumas palavras pouco antes de morrer, o que diria?

André Minuzzi, Ibirité, MG disse...

Gostei da selecao de frases. Muito variadas e pessoais as reacoes de cada um diante da morte.