sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O desfocamento do estrangeirismo

Adriano de Paula Rabelo


No último dia 12 de dezembro, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou o projeto de lei do deputado Aldo Rebelo que visa “proteger” e “defender” a “língua portuguesa”. Apresentado em 1999, somente neste ano o projeto, que já foi aprovado no Senado, vai para a última votação no plenário, devendo entrar em vigor em breve. Ironicamente o texto de Rebelo baseia-se em duas leis estrangeiras, sancionadas na França nos anos de 1975 e 1994, cuja pretensão era proteger a latinidade da língua.

Nestes quase dez anos de tramitação do projeto do deputado alagoano, uma acirrada polêmica tem sido travada entre lingüistas e um variado contingente de pessoas que acreditam que a proteção da língua nacional corresponde à salvaguarda de nossa soberania. Os cientistas da linguagem em geral atacam toda tentativa de se legislar sobre o idioma, pois ele é uma entidade viva, que se modifica constantemente e, como parte desse processo, entra em contato com outras línguas, assimilando vocábulos e expressões que o enriquecem expressivamente. Para eles, o estrangeirismo excessivo e sem respaldo no espírito do idioma nacional não passará de um modismo e será descartado naturalmente. Já os paladinos da nossa soberania e da pureza de nossa língua consideram – não sem razão – que há um emprego excessivo de estrangeirismos no Brasil, que eles exprimem em geral um precário domínio da variante chamada “culta” do idioma e freqüentemente se compõem de termos apenas pescados no dicionário de inglês; duas faces, portanto, da ignorância. Além disso, o emprego de termos na língua de George Bush, além de representar subserviência ao imperialismo, tem também um aspecto classista, pois todos sabemos que, por exemplo, teen não é qualquer adolescente, mas aquele de classe média para cima, que reside em área urbana, rato de shopping centers e lan houses, estudante de escolas particulares e beneficiário de mesadas dos pais. Por isso, em nome de nossos valores mais caros e do politicamente correto, o legislativo deveria intervir para expulsar esses corpos estranhos do organismo da língua.

Certamente a lei Aldo Rebelo será mais uma dessas que já nascem mortas neste país da ilegalidade triunfante. Sem dúvida a língua brasileira seguirá seu curso histórico para muito além da lei dos homens, gerando ela mesma suas próprias normas. Entretanto, o projeto do deputado do PCdoB tem tido no mínimo a virtude de provocar um amplo debate sobre um tema que obviamente merece ser discutido. Acontece que a discussão, tal como tem se realizado, me parece bastante fora de foco.


Uma língua e muitas contribuições


A língua brasileira, mesmo em suas vertentes mais castiças, constitui, sobre a base latina e lusitana, um amálgama de contribuições de línguas indígenas e africanas, do grego antigo, do francês, do espanhol, do árabe e, em graus menores, de outras línguas. Com os muitos contatos culturais proporcionados pelos meios de comunicação e de transporte atuais, nenhuma língua viva está isenta da incorporação de estrangeirismos. Esse fenômeno, quando assimilado com naturalidade para suprir uma falta, nomear uma nova realidade ou simplesmente pelo uso generalizado, aprimora a língua e lhe proporciona novas expressividades. Por outro lado, sempre foi uma das mais evidentes manifestações do imperialismo a imposição da cultura metropolitana. Quase todos os idiomas contemporâneos naturalmente sofrem influências da língua inglesa devido ao fato de os Estados Unidos serem não apenas a sede mas os comandantes e os grandes beneficiários da chamada “globalização”, controlando todo um vasto sistema midiático de massas do qual sua música popular, seu cinema, suas agências noticiosas e, hoje em dia, seus canais de tv a cabo são as principais expressões. Inevitavelmente, com quase um século de preponderância e rapinagem americana no mundo, com as conquistas tecnológicas originárias daquele país, com o triunfo do estilo de vida americano em todo o Ocidente, a língua brasileira não haveria de ficar isenta de anglicismos. Até aí tudo bem. O questionável abuso de termos ingleses entre nós, no entanto, ponto nodal da polêmica ora travada, se é que merece a celeuma que tem provocado, deveria remeter a uma discussão bem mais profunda e anterior à questão da linguagem. O teor da lei Aldo Rebelo e das discussões geradas por ela corresponde a combater um sintoma dos mais evidentes e deixar a doença intocada.

Necessitamos de um debate mais amplo sobre nossa ultravalorização do estrangeiro prestigioso, em especial do anglo-saxão, quase sempre acompanhada de autodepreciação. Antes da sobra de palavras inglesas em nossa língua, estabeleceu-se entre nós uma sobra do modo de vida americano, assimilada acriticamente por nossa casta dominante logo após a decadência francesa e a ascensão dos Estados Unidos, que assumiram a condição de paradigma de modernidade e qualidade de vida aos olhos colonizados de nossa elite. A partir dela, atingiu-se a massificação e o senso comum. Continuamos colonizados e seguiremos colonizados enquanto o país estiver à mercê dessa oligarquia espertalhona que nunca foi apeada de quase todas as instâncias de poder e cuja última grande jogada foi transformar Lula em feitor do horror econômico de fundamento especulativo. O Brasil oficial nunca foi o que realmente é, tal como o Brasil dos grandes meios de informação do eixo Rio-São Paulo. Só o será quando a democracia efetiva – que jamais existiu no país – se realizar através de uma ampla conquista dos mais básicos direitos da cidadania para todos e os espaços decisórios estiverem de fato abertos à participação direta do eleitorado. Obviamente um sistema público educação de boa qualidade – o que também não temos – é fundamental nesse processo. Com isso poderemos conquistar maior liberdade para sermos o que somos com muito mais naturalidade, inclusive nos enriquecendo com a contribuição lingüística e cultural estrangeira sem macaquice, tal como fizeram importantes movimentos da cultura brasileira no século passado, como o Modernismo, que dialogou criativamente com as vanguardas européias; a Bossa Nova, com o cool jazz americano; o Cinema Novo, com o neo-realismo italiano; o Tropicalismo, com a cultura de massas e a contracultura internacional.

8 comentários:

José Paulo Serra Gomes, Osasco, disse...

Vc tem um posicionamento interessante sobre a relação entre o nacional e o global, que já explicitou num outro texto. Valoriza o nacional sem se fechar nele e se relacionar com preconceito contra o estrangeiro. Seus textos são lúcidos e claros. Parabéns!

Hugo Laureano, Londrina, PR disse...

O problema do brasileiro é que ele nao gosta do brasileiro. E' ridículo ficar valorizando tanto os estados Unidos; e vc que defende tanto o Brasil devia criticar mais os Estados Unidos; parece que gosta tanto dos americanos como d

Marcela R. Seixas, Curitiba disse...

Você toca num ponto crucial - a discussão do problema vai muito além da questão da linguagem, é caso de postura. Nem execrar nem endeusar a influência estrangeira, mas dialogar com ela da igual para igual.

Ruy Simões, Goiânia disse...

Vc que ataca tanto a nossa elite não percebe que é parte dela e também muito americanizado como todos nós!!!!!!!

Ronaldo P. Lins, Poços de Caldas, MG disse...

Lúcido artigo. Essa elite brega e vagabunda nunca teve realmente nenhum compromisso com o Brasil e há séculos está com a cabeça nos Estados Unidos e na Europa. A cultura brasileira não deve nada a esses países.

Paulo M. Silva, Ribeirão Preto, SP disse...

Adriano vá para os Estados Unidos e veja o que é um país sério um grande e valoroso país e deixe de escrever essas bobagens!

Gilda M. Avelar, Magé, RJ disse...

Se antes da globalização nossa língua já assimilou tantas palavras e expressões estrangeiras, com a globalização é inevitável que assimilemos cada vez mais palavras do idioma dominante, que tem o peso da política dominante. A lei Aldo Rebelo realmente já nascerá como letra morta. Mas tem o mérito de botar fogo numa discussão interessante, que é realmente mais ampla e mais profunda que a questão linguística.

Carine S. Kehl, Serra Gaúcha, disse...

"...última grande jogada foi transformar Lula em feitor do horror econômico de fundamento especulativo."

É complicado não prestar atenção neste trecho. Enquanto sigo estudando a língua portuguesa e as causas do excesso de estrangeirismos, mantenho a televisão desligada, pois nos tornamos marionetes na mão de seja lá quem for. Realmente são poucos os que se questionam sobre o porquê de tanto alvoroço, e eu, cansada de questionar, decidi esquecer de COMO nosso país está sendo governado.

Parabéns pelo texto, Adriano. Já sou sua fã!