sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Arésio, o valente

Adriano de Paula Rabelo


Minha pequena cadela Pituca, um belo pinscher preto, sempre foi bastante dócil e brincalhona em casa, mas freqüentemente deixa as pessoas impressionadas com sua valentia quando sai para as ruas e encontra outros cachorros. Em muitas ocasiões, vi-a partir para cima de cães enormes que, surpreendidos, puseram-se em fuga. Algumas vezes tive de segurá-la para que não avançasse sobre rothweillers, pit bulls, pastores e até são bernardos. Tendo especial antipatia por poodles, quando os vê pelas ruas Pituca, se não for contida em tempo, de imediato lhes oferece como cartão de visitas uma mordida no pescoço. Gatos, então, quando os vê, persegue-os em disparada, caindo estatelada ao tentar subir, tal como os felinos, nos muros e árvores onde eles se refugiam. Não sei de onde vem essa belicosidade pública.

Meu desabusado cachorrinho me faz recordar uma figura impagável que conheci na infância: Arésio. Baixinho e atarracado, de grandes olhos, cabelo desgrenhado e voz rouca, com esse nome raro Arésio era o valente municipal. Ou melhor, o valente de bairro, pois suas estripulias raramente ultrapassavam os limites do nosso canto de subúrbio.

Uma vez, referindo-se a seus arroubos, ouvi-o se autoqualificar como “impulsível”. De fato esse adjetivo lhe caía muito bem, já que ele era um tipo ao mesmo tempo “impulsivo” e “impossível”.

Não sei por que motivo Arésio foi criado apenas pela mãe, uma figura já velhinha e frágil em meus tempos de criança. Em casa e diante da sacrossanta senhora, ele era o mais afável dos cordeiros. Na rua, entretanto, espaço do perigo e da desordem, nosso amigo se transfigurava. Brigador de excepcionais recursos numa época em que ainda eram raríssimas as armas de fogo nas mãos de qualquer um, Arésio humilhava outros valentões – a maioria homens maiores e mais fortes – com sua agilidade e seus golpes. Ainda hoje não faço idéia de como ele arranjava tantos pretextos para se atracar com seus contendores. Em geral isso ocorria a partir de dissensões que iniciadas em bares.

Sempre tive horror às soluções violentas para os conflitos. Poucas vezes na vida, a maioria delas na infância, uma ou outra vez na adolescência, fui às vias de fato com alguém. Quase sempre isso ocorreu por demandas futebolísticas. Hoje mais que nunca, com o Brasil sangrando cotidianamente por causa da violência sem freios, considero desprezíveis e burros os que, diante de qualquer contrariedade, disparam ameaças, palavrões, bofetadas e pontapés, especialmente sobre gente que não conhecem direito.

Mas voltando a nosso personagem, sua valentia provocava nos meninos do bairro um misto de fascínio e repugnância. E nos deixava intrigados a absoluta ascendência da mãe sobre ele. Certa ocasião em que Arésio esmurrava a cara de um certo Baiano, que estava deitado no chão, ela chegou, trôpega, e simplesmente lhe disse: “Arésio, pára com isso e vamo pra casa!” Como um garotinho obediente que a mãe ordena que vá dormir, ele abandonou o oponente, levantou-se, arrumou a roupa e, de maneira patética, tomou o rumo de casa, cabisbaixo. Baiano deu graças a Deus.


Zoinho, menino de rua de dez anos, enfrenta os policiais de São Paulo - foto de Evandro Monteiro


Falei em futebol logo acima. Na única vez em que quebrei algum osso jogando bola, adivinhe quem foi o autor da proeza? Arésio. Eu devia ter uns nove ou dez anos. Não sei por que cargas d’água estava jogando no gol numa pelada com gente grande. A certa altura, Arésio apareceu cara a cara, a pesada bola de couro quicando a dois metros das traves. Ele simplesmente cerrou os dentes e meteu o pé. Arrojado, tentei salvar o gol, jogando os braços e pulando para defender... A bola bateu com toda força no meu punho, e na mesma hora meu braço esquerdo entortou, doendo agudamente e começando a inchar. A cena seguinte foi correr para casa, levar uma tremenda bronca de minha mãe – que, como sempre, imprecava contra o futebol – e ir para o hospital engessar o braço.

Ainda do futebol vem uma das histórias mais fantásticas de Arésio. Num jogo do Campeonato Mineiro, lá por meados dos anos 1970, o Guarani local jogava contra o Cruzeiro de Belo Horizonte. Ainda hoje as torcidas se misturam quando ocorre esse tipo de partida na cidade. Atleticano de quatro costados, Arésio foi assistir ao jogo com uma camisa do Galo, arqui-rival do Cruzeiro, debaixo de uma camisa comum, sentando-se justamente num local cheio de cruzeirenses, a maioria vinda da capital do estado. Lá pelos quinze minutos do primeiro tempo, ele tira a camisa comum e fica com a alvinegra do Atlético entre as azuis do Cruzeiro. Imediatamente a confusão se estabelece. Queriam dar-lhe tapas, surrá-lo, tirar-lhe a camisa, queimá-la. A certa altura, completamente cercado pela pequena multidão azulada, já quase apanhando, Arésio arranca um revólver da cintura e dispara dois tiros para cima. Ato contínuo, houve a mais espetacular debandada de cruzeirenses, que, atropelando-se uns aos outros, evaporaram-se de suas imediações. Os dois policiais que foram ver o que ocorrera – e que conheciam Arésio – deixaram-no em paz ao verificar que a arma era falsa e que os tiros eram de festim. Com isso, o valente atleticano assistiu tranqüilamente ao resto do jogo, sem ninguém sentado num raio de dez metros de onde ele permanecia com a indefectível camisa do seu time do coração.

Arésio tinha bastante familiaridade com animais perigosos ou peçonhentos. Algumas vezes o vi mexendo em colméias de abelhas sem nenhum tipo de proteção. Costumava criar em casa algumas aranhas, serpentes e mesmo um ouriço. Os mais estimados desses bichinhos tinham até nome próprio. Gostava ainda de se exibir na rua com uma enorme caranguejeira que caminhava por seus braços, ombros e cabeça, causando assombro em nós, meninos, e horror em nossas mães. Houve um dia, no entanto, em que – não me lembro onde nem como – eu e outros garotos pegamos um escorpião amarelo, o mais perigoso de todos. Colocado vivo numa caixa de sapatos, o bicho foi levado até Arésio, que estava em pleno bar, escorado no balcão e rodeados por colegas de etilismo. Já um tanto embriagado, ele devia estar num dos seus dies irae, pois simplesmente abriu a caixa, sacou um canivete e cortou pelo meio o rabo do escorpião, onde fica o ferrão. Seguiu-se, então, uma cena inesquecível: Arésio colocou o animal sobre a mesa, deu-lhe uma forte pancada com a mão, levantou-o no ar, já moribundo, e gritou: “É você que fica machucando os meninos por aí, heim?! Heim?!” Por fim, abriu a boca, engoliu o bicho ainda semivivo e emborcou em seguida meio copo de cachaça, para o estarrecimento de toda a assistência.

E por falar em bar, a última história de que me lembro envolvendo o brutal valentão de província se passou num boteco que ficava de frente para uma casa onde minha família morou por alguns anos. Ali Arésio e seus colegas se reuniam diariamente. Numa noite de sábado, já pelo final da minha adolescência, saí por volta das 21h00. Nessa ocasião os bebedores contumazes deram de cantar todo um vasto repertório de sambas-canção e boleros dos anos 1950 em diante. Repassaram de Nelson Gonçalves a Lupicínio Rodrigues, de Orestes Barbosa a Ataulfo Alves, de Vicente Celestino a Antônio Maria. Quando retornei, já passando das duas da manhã, lá estava o coro de sete ou oito vozes, a esta altura já completamente melodramáticas. Quando me deitei, por volta das 2h30, parece que finalmente todo o repertório havia sido repassado. Sem mais disponibilidade de boleros e sambas-canção, os boêmios dispararam a cantar, como despedida, nada menos que o Hino Nacional...

Pelo fim da adolescência, mudei-me de bairro e, alguns anos depois, de cidade. Contaram-me que Arésio também se mudou, após a morte de sua mãe. Nunca mais o vi. Sua brutalidade valentona e teatral, que tanto me impressionou na meninice, foi para mim não um simples sopro mas uma ventania de vida.

4 comentários:

Jonas C. Gonçalves, Passo Fundo, RS disse...

Esse Arésio mais parece um gaúcho de Passo Fundo, tchê!

Luciene Forjaz, São Paulo, SP disse...

Muito bruto, mas engraçado!

Daniela Fagundes, Campinas disse...

Como você disse, uma ventania de vida, livre das boas maneiras burguesas, principalmente alguém que vive sem ficar filosofando sobre a vida: talvez uma lição para você mesmo...

Dênis Felício de Almeida, Betim disse...

Ventania de vida uma ova: furacão de maluquice!