sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O nacional no global

Adriano de Paula Rabelo

O advento da era tecnocrática na segunda metade do século XX gerou este fenômeno que agora chamamos de globalização, cujos aspectos essenciais são uma série de dogmas nas esferas política e econômica: um neoliberalismo que preconiza o arrombamento das economias dos países subjugados em prol do vampirismo imperialista, a total liberdade de movimento para as grandes corporações e o capital especulativo (para os quais não existem fronteiras), o encolhimento irresponsável do Estado e a cassação dos direitos dos trabalhadores em benefício do livre mercado e dos extremos de opulência da plutocracia mundial, a prescrição de um único estilo de vida e modelo de civilização para todos os quadrantes da Terra, o monolitismo reacionário de pontos de vista por parte dos grandes meios de informação. Nessa conjuntura, o sufocamento a que os povos do mundo inteiro têm sido submetidos vem provocando um fortalecimento do nacionalismo, fenômeno que se manifesta sobretudo no âmbito cultural. A questão é bastante complexa e, como tudo, deve buscar se resolver através do encontro da justa medida.

Por um lado, a valorização de nossas tradições, de nossa cultura popular e do nosso modo de ser e lidar com a realidade jamais poderá admitir a desvalorização da cultura alheia ou o culto às rivalidades nacionais. Por outro, há que se ter bem claro que as grandes obras artísticas, as descobertas científicas que fazem a humanidade dar um salto para uma existência melhor, as invenções que aproximam as pessoas pertencem a todos os povos, a todas as culturas. Sem dúvida, a burrice é sempre nacional; a inteligência, o talento, a sensibilidade maior são sempre universais.

O escritor italiano Italo Calvino, analisando uma série de definições para o termo “clássico” na esfera da literatura, constata que as grandes obras “servem para entender quem somos e aonde chegamos e por isso os italianos são indispensáveis justamente para serem confrontados com os estrangeiros, e os estrangeiros são indispensáveis exatamente para serem confrontados com os italianos”. A esse propósito, vale lembrar que muito daquilo que de melhor a cultura brasileira tem produzido – movimento modernista, Cinema Novo, Bossa Nova, Tropicalismo – tem se realizado pelo diálogo criativo e a confrontação com as culturas estrangeiras.

Contudo, em grande parte o nacionalismo cultural preconiza uma oposição direta ao lixo da indústria cultural de massas, em especial o megavolume de porcarias da música, do cinema, da televisão, da literatura, do jornalismo, do esporte, das redes de comidas rápidas, das seitas protestantes, dos conceitos comerciais, da linguagem e da moda originárias dos Estados Unidos e que representam o pior da cultura americana.


EFCB – Estação de Ferro Central do Brasil (1950) – Tarsila do Amaral


Os meios de comunicação de massas têm assumido cada vez mais a condição de espaço público das sociedades globalizadas. Como tudo, muitas expressões culturais também vão se identificando como mercadoria e buscando na mídia o canal para seu consumo por parte da maioria da população. Para isso, os chamados “produtores culturais” não hesitam em fazer todas as concessões à baixeza e ao popularesco, inundando, por exemplo, a televisão, grande produtora de vigências do nosso tempo. Como resultado, a cultura erudita fica enclausurada em guetos acadêmicos e espaços elitizados nas cidades mais desenvolvidas, e a cultura popular se vê enfraquecida e identificada com os velhos e os marginais das periferias urbanas e zonas rurais. Não por acaso, tudo isso acontece em paralelo ao debilitamento de outros instrumentos de participação política, como os sindicatos, a imprensa pluralista, os partidos e os movimentos sociais.

O salutar diálogo com a cultura estrangeira está longe significar uma redução ao consumo da pasteurização americana. Muito teríamos dizer e a ouvir em intercâmbios com a América Latina, a África e o Oriente, especialmente. Muito teríamos também a dizer aos Estados Unidos e à Europa, e não somente a ouvir e a receber. E muito temos obviamente a nos enriquecer com o acervo cultural que vai além do descartável produzido por esses centros ocidentais.

O fenômeno do sufocamento globalizante atinge mesmo o centro da globalização. Os Estados Unidos são de uma homogeneidade cultural acachapante. E mesmo Estados mais tradicionais e estruturados não estão conseguindo deter a epidemia de mesmice que se alastra pelo mundo e que ameaça tornar-se crônica. Tanto que o delegado francês na reunião do GATT de 1993 disse melancolicamente em seu discurso: “A França pode deixar de produzir batatas e continuar sendo a França, mas se deixarmos de falar francês, de ter um cinema, um teatro e uma literatura própria, nos converteremos em mais um bairro de Chicago.”

Como enfrentar o monstro? Lutando por democracia efetiva através de ações que busquem quebrar o poder da elite tecnológico-econômica que detém os espaços decisórios. No caso do Brasil, a questão passa ainda pela conquista dos mais básicos direitos da cidadania, principalmente o de um sistema de educação pública de qualidade, pois um dos pilares dessa predominância avassaladora da cultura de massas é a decadência do ensino e o desconhecimento dos clássicos de nossa tradição artística e de pensamento. Políticas de Estado devem atuar em defesa das manifestações das culturas popular e erudita. E o espaço público deve ser revitalizado como lugar seguro e propício ao encontro entre as pessoas, ainda mais num país amplo e solar como o nosso. As praças, as ruas, os parques, os espaços públicos virtuais precisam retomar sua função de local onde se constrói uma intersubjetividade e um consenso livres que sejam a verdadeira voz da coletividade. E somente pelo viés da efetiva democracia o nacional e o global se complementarão com harmonia e verdade.

7 comentários:

Bruno dos Santos, Brasília disse...

Muito bem: é preciso ser nacional inserido no global, sem preconceitos mas com cuidado e sem complexo de inferioridade. É preciso dialogar, não apenas ouvir ou apenas monologar.

Ricardo B. Peixoto, Belo Horizonte disse...
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Ivone D. Batista, São Carlos, SP disse...

Se nÀo nos cuidarmos, se não defendermos a cultura popular e erudita brasileira, também nos tornaremos um "slum", uma favela ou um cortiço de Chicago ou Nova Iorque.

José Paulo Serra Gomes, Osasco, SP disse...

Nunca vai ser fácil e sem conflitos essa dialética do nacional no global e do global no nacional. Talvez no dia em que se conseguir pensar este mundo sem fronteiras entre países e nações seja mais fácil esse diálogo sem as imposições dos abutres corporativos e imperialistas do norte.

Sabrina Fernandes, Joinvile, SC disse...

Todo o problema está nessa cultura de massas vagabunda tanto a da escória do roque anglo-americano quando nas vertentes nacionais do sambabrega, dos sertanojos, dos Fautões, gugus e silvios santos da vida.

Hernane, Eunápolis, BA disse...

Adriano deixa de ser chato e escreva umas coisas engraçadas; Parece que quer resolver sozinho tudo de ruim que tem no mundo.

Gtytut de Fiktt disse...

Ejcdjhcjh icj, jfjfl. Ariryr,m kfkjfj lkfi kfjif, okf?